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terça-feira, 13 de outubro de 2009

GUERRA FRIA


O MUNDO APÓS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL




1. A guerra fria e a bipolarização política do mundo



Origens da guerra fria



A Guerra Fria foi o período de tensão que ocorreu entre o final da Segunda Guerra Mundial e a queda da União Soviética (1945 a 1991), marcada pelas disputas econômicas, políticas, tecnológicas e ideológicas entre as duas potências mundiais da época, os EUA (capitalista) e a URSS (socialista).



O fim da Segunda Guerra Mundial foi marcado por uma série de inúmeros tratados que dividiram o mundo em duas áreas de influência, uma sob controle capitalista liderado pelos EUA e outra sob controle socialista liderado pela URSS. Na Conferência de Teerã, em 1943, Roosevelt (Presidente dos EUA), Stálin (Líder da URSS) e Churchill (Primeiro-Ministro britânico) definiram a fronteira da Polônia em relação à União Soviética, garantindo a esta a anexação dos países bálticos e projetaram a divisão da Alemanha. Vendo próxima a derrota alemã, os três grandes se reuniram de novo na Conferência de Yalta em fevereiro de 1945. Stálin se beneficiou do rápido avanço soviético. Os três anunciaram princípios gerais, como a autodeterminação dos países e a democratização, sem definir qual democracia. Privada de governo, a Alemanha seria dividida em zonas de ocupação, bem como a Áustria; o ocidente admitiu a instalação do governo socialista de Tito na Iugoslávia; a Polônia perdia regiões conquistadas à Rússia em 1921 e receberia compensações em direção ao Rio Oder; os soviéticos se comprometiam a guerrear o Japão em troca de Port-Artur, sul das ilhas Sacalinas e ilhas Kurilas. Além disso, seria instituída a Organização das Nações Unidas (ONU), instituição destinada a preservar a paz mundial.



Ao final da guerra, parecia muito alto o preço pago aos soviéticos. Em clima de tensão reuniu-se a Conferência de Potsdam, em 1945, agora com Truman (EUA), Stálin (URSS) e Clement Atller (Grã-Bretanha). A Alemanha foi dividida em zonas de influência, dadas a americanos, soviéticos, ingleses, e franceses. Berlim, a capital, que ficava no setor soviético, foi igualmente dividida em quatro partes. Os vencedores impuseram aos alemães uma reparação de guerra de 20 milhões de dólares: 50% para a URSS, 14% para a Grã-Bretanha, 12,5% para os EUA e 10% para a França. A indústria bélica alemã foi amputada, a produção de aço limitada e certas fábricas desmontadas em favor dos aliados. Foi instituído o Tribunal de Nuremberg, destinado a julgar os criminosos nazistas, contribuindo para a desnazificação da Alemanha.



No contexto assinalado pelo fim da segunda guerra mundial também ficaram patentes as divergências de perspectivas entre os “três grandes” . Ao retornar de Yalta, em discurso ao congresso, Roosevelt encontrava-se esperançoso de que, mesmo com a configuração de uma esfera de influencia soviética no leste europeu, o espírito de cooperação entre as grandes potencias permitiria a inauguração de uma nova era de paz na política mundial. Acreditava, entre outras coisas, que a ONU e seu conselho de segurança preservariam a essência cooperativa. Churchill, por outro lado, nunca acreditou na idéia de cooperação em torno de valores universais, prevendo as rivalidades do pós-guerra e um novo equilíbrio baseado na polarização. Stálin entendia a linguagem de Churchill; não só entendia como lhe era fluente. A vitória na guerra era uma oportunidade de erguer uma verdadeira muralha para proteger a fronteira ocidental da esfera soviética; suas preocupações eram mais internas que externas. O término da Segunda Guerra também mudaria o panorama político e econômico internacional. As perdas materiais e humanas da Europa e do Japão rebaixaram as antigas potências. Surgem novas nações e novas organizações internacionais, como a ONU, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, criados em 1945.



A rivalidade entre aliados e soviéticos, explicitada na Conferência de Potsdam, inaugurou uma nova política internacional que conduziria, muito rapidamente ao que posteriormente seria chamado de Guerra Fria. Em 1946, Winston Churchill já não era mais o primeiro-ministro britânico, mas ainda um líder da resistência antinazista, acabou por tornar-se um líder anti-soviético ao preferir violento discurso, nos EUA, defendendo, pela primeira vez, a necessidade de uma política de controle e de vigilância sobre a URSS. “Uma sombra se abateu sobre o cenário até há pouco iluminado pelas vitórias aliadas. Ninguém sabe o que a Rússia soviética e sua organização comunista internacional pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites - se é que eles existem - para suas tendências expansionistas e proselitistas. [...] De Steltin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dela estão todas as capitais dos antigos países da Europa central e do Leste europeu [...]. Não importa que conclusões possamos tirar desses fatos - e fatos eles são -, esta certamente não é a Europa livre que lutamos para construir, tampouco é uma situação capaz de proporcionar uma paz duradoura.”. Assim, também do lado ocidental, era preciso uma cortina de ferro em torno dela para evitar que a URSS estendesse seus domínios no leste europeu e na Ásia. Conclamava os EUA a assumirem a liderança mundial contra a comunização do mundo. “As conferencias do pós-guerra deflagraram um processo conflitivo, no qual se manifestaram as divergências entre as perspectivas dos ‘três grandes’. A dinâmica desse processo erodiu o projeto rooseveltiano da cooperação das grandes potencias e alinhou os Estados Unidos à perspectiva britânica de contrabalançar o poder soviético no Leste Europeu. A doutrina Truman, enunciada no início de 1947, assinalou a transição para a guerra fria”. (MAGNOLI, DEMÉTRIO. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2004, p. 82).



A consolidação dos blocos antagônicos



A doutrina Truman



Em abril de 1947, o presidente norte-americano Henrry Truman, num discurso no congresso, afirmou que os Estados Unidos, estariam dispostos a apoiar as nações que desejassem resistir a expansão soviética. Inicia-se ai a colocação em prática de uma estratégia da política externa norte-americana que pode ser sintetizada na idéia de “contenção soviética” facilmente inteligível nas próprias palavras de Truman, “No momento atual da História universal, quase todas as nações devem escolher entre formas de vida alternativas. Frequentemente, essa escolha não é livre. Uma forma de vida se baseia na vontade da maioria e se caracteriza por instituições livres, governos representativos, eleições livres, pela garantia das liberdades individuais, pela liberdade de expressão e de religião e ausência de opressão política. A segunda forma de vida se baseia na vontade de uma minoria, imposta pela força a maioria. Assenta-se no terror e na opressão, no controle da imprensa e do rádio, em eleições controladas e na supressão das liberdades pessoais. Creio que a política dos Estados unidos deve consistir em apoiar os povos que estão lutando contra tentativas de subjugamento por parte de minorias armadas ou de pressões externas.”. (Citado por MAGNOLI, DEMÉTRIO. op. cit. p. 84).



Não se tratava apenas de uma “estratégia de contenção”. Sob o manto da luta para preservar o “mundo livre” escondia-se a batuta da escolha pela força – “Frequentemente, essa escolha não é livre”. Ao referir-se a União Soviética e a expansão do seu bloco, o Presidente dos EUA antevia a perspectiva do uso da força para preservar o modo de vida que ele caracterizava como livre e desejava expandir (como não nos deixa mentir os exemplos da descolonização afro-asiática, o alinhamento a algumas ditaduras no oriente médio e o patrocínio as ditaduras implantadas na América latina nas décadas de 1960 e 1970. Por outro lado, historicamente, a Doutrina Truman assinalava uma mudança na tradicionalmente isolacionista política externa norte-americana. A orientação do pós-guerra transferia para a Europa e, posteriormente, para o mundo não-soviético, a prioridade da política externa de Washington em sua estratégia para conter o “expansionismo soviético”.



O Plano Marshall



Ainda em 1947 o governo norte-americano decidiu reforçar a sua posição na Europa. Abalados pelas destruições sofridas durante a guerra, os países europeus viviam as turbulências de uma grave situação econômica e seus decorrentes problemas sociais. O núcleo da crise se encontrava na carência absoluta de divisas que impedia a retomada das importações de bens de consumo e de capital. O inverno 46-47 agravou ainda mais a situação, aproximando as nações do velho continente do colapso econômico e social. Os sintomas eram gritantes. A Inglaterra contorcia-se as voltas com a paralisia dos transportes ferroviários, do abastecimento de carvão mineral e, consequentemente, de parte significativa da atividade industrial. A Alemanha encontrava-se com boa parte da população sem ter acesso a condições básicas como moradia e alimentos. A França encontrava-se com o sistema industrial paralisado.



Os percalços da economia se refletiam na política. Enquanto os partidos conservadores sofriam profundo desgaste, crescia o apoio de trabalhadores e desempregados a esquerda. Na França e na Itália, onde os comunistas tinham bases solidas, a tendência apontava para uma reviravolta eleitoral e o movimento sindical promovia greves e manifestações.



O plano Marshall foi a resposta norte-americana para essa conjuntura desfavorável. O plano forneceu o impulso para a reconstrução européia, um aporte de capital de US$ 13 bilhões, que viabilizou as condições para a estabilização econômica, social e política. Os comunistas recuaram na Europa Ocidental e, em pouco tempo, deixaram de ser uma alternativa eleitoralmente viável de poder. Assim, enquanto ajuda econômica, o plano Marshall acabou sendo o maior instrumento político da doutrina Truman no imediato pós-guerra. Além de desempenhar papel fundamental na recuperação das economias capitalistas européias, a estratégia ligava umbilicalmente a Europa ocidental aos EUA. “A condição imposta por Washington para os 16 países europeus que aderiram ao plano consistiu, apenas, em que o programa de reconstrução fosse articulado através de organismos de cooperação supranacionais. Essa estratégia soldava o destino dos estados participantes do programa, funcionando como alicerce para a configuração de um bloco econômico e político europeu.”. (MAGNOLI, DEMÉTRIO. op. cit. p. 86). A configuração do referido bloco supranacional era o cimento da aliança entre os Estados Unidos e a Europa capitalista. Assim nascia o ocidente na guerra fria.



As primeiras respostas soviéticas



Ainda nos anos de 1940 vieram as primeiras repostas soviéticas a agressiva política norte-americana para a Europa. Em represália a doutrina Truman, a União Soviética criou o KOMINFORM, organismo encarregado de conseguir a união dos principais partidos comunistas europeus, além de afastar da supremacia norte-americana os países sob sua influencia, gerando o bloco da “cortina de ferro”. Complementando a reação soviética, em 1949 foi criado o COMECOM, uma réplica do plano Marshall para os países socialistas, buscando sua integração econômico-financeira.



Para o especialista em geopolítica Demétrio Magnoli, “A senha para a transformação política imposta pela União Soviética no leste Europeu, consistiu na criação do Comitê de Informação dos Partidos Comunistas (Kominform), em 1947. A internacional comunista (Komintern) tinha sido dissolvida por Stálin durante a segunda guerra mundial, em virtude da cooperação militar com os aliados ocidentais. O Kominform não era uma réplica do Komintern, pois abrigava apenas os partidos do leste europeu, da Itália e da França. Sua missão não consistia em difundir a revolução, mas em subordinar estritamente os partidos europeus ao comando de Moscou”. (MAGNOLI, DEMÉTRIO. op. cit. p. 105).



Por outro lado, a respeito do Comecom, o mesmo autor ressalta que este ia muito além de um mero bloco de cooperação econômica entre aliados e a União Soviética. Assim como a aliança entre EUA e Europa ocidental havia sido economicamente cimentada pelo plano Marshall, a estreita ligação entre a União Soviética e o leste europeu foi economicamente solidificada pelo Comecom. Desta maneira sua viabilização obedeceu a estreitos e bem definidos objetivos políticos. ”Antes da guerra, o comércio europeu obedecia a um padrão de intercambio de bens industriais da Europa ocidental por matérias-primas e produtos agrícolas da Europa oriental. O influxo de dólares promovido pelo plano Marshall reavivava a capacidade de importação das economias da Europa ocidental e abria caminha para a restauração da divisão internacional do trabalho tradicional do continente. A implantação do socialismo no leste europeu a evitar esse desfecho, que dissolveria a influencia soviética na região. A configuração dos blocos geopolíticos destruiu a tradicional divisão do trabalho no continente. O comercio entre o leste e o oeste do continente foi asfixiado. Nesse contexto, a criação do Comecom tinha a finalidade de acelerar a organização de uma divisão internacional do trabalho no interior do bloco soviético. (...) alcançou sua finalidade principal, que consistia em isolar economicamente o bloco soviético da Europa ocidental. A parcela das economias capitalistas desenvolvidas no intercambio dos países do leste europeu oscilou, de modo geral, em torno do patamar de 20%. O comercio no interior do bloco soviético estabilizou-se, grosseiramente, em torno do patamar de 60% do intercambio externo total de cada um dos países.”. (MAGNOLI, DEMÉTRIO. op. cit. p. 106).



Os sistemas militares da guerra fria



A OTAN (Organização para Tratado do Atlântico Norte) foi resposta dos EUA para os problemas militares do cenário europeu. Entrementes, ela também foi a solução para o problema da expansão nuclear.



No imediato após guerra, enquanto os EUA desmobilizavam as suas forças engajadas no teatro europeu, a União Soviética aumentava essa presença. Mesmo após a explosão da primeira arma nuclear soviética (1949), a superioridade atômica dos norte-americanos permaneceu inabalada até meados da década de 1960, o mesmo não acontecendo no âmbito convencional. Assim, a OTAN, na medida em que alinhou militarmente Estados Unidos e Europa Ocidental, compensou o desengajamento de tropas norte-americanas na Europa e pôs-se naquele cenário como garantia contra a superioridade convencional soviética: “O célebre artigo 5 da carta da OTAN forneceu a resposta. A formulação caracterizava um eventual ataque militar a qualquer membro da aliança como um ataque contra todos os seus membros e firmava o compromisso de reação conjunta e automática. (...) no plano estratégico, os territórios dos aliados europeus passavam a se identificar com o território americano; um ataque convencional soviético na Europa ocidental deflagraria uma resposta nuclear americana contra a União Soviética”. (MAGNOLI, DEMÉTRIO. op. cit. p. 91).



Foi sob o manto da OTAN que se decidiu favoravelmente ao rearmamento da Alemanha fato que, no fundo, não alterava a correlação de forças já que as forças armadas da Alemanha eram mero posto avançado do dispositivo militar da OTAN. A Alemanha ocidental passou a fazer parte formalmente do pacto em 1954.



Essa decisão foi o pretexto para a criação do Pacto de Varsóvia (Tratado de Assistência mútua da Europa Oriental). Embora este utilizasse o mesmo modelo da OTAN, suas razões de existência são diferentes das da OTAN, pois o perigo de um ataque contra a Europa do Leste praticamente inexistia devido a superioridade convencional soviética. “Ao contrário da OTAN, o Pacto de Varsóvia não foi concebido como uma organização de segurança coletiva. (...) A aliança estruturada por Moscou estava voltada para a estabilização interna do bloco de países-satélites, não para a defesa ante uma ameaça externa.



O verdadeiro motor para a criação do pacto de Varsóvia não foi o rearmamento da RFA (República Federal da Alemanha; capitalista), mas a revolta popular que eclodiu em Berlim Oriental em junho de 1953, pouco após a morte de Stálin. A fragilidade política dos regimes comunistas nos países satélites, derivada da carência de legitimidade social dos governos de partido único, não podia ser resolvida na moldura das instituições nacionais. A solução foi a ancoragem dos Estados do bloco soviético na aliança militar supranacional: Moscou passava a sustentar, diretamente, os regimes comunistas do bloco de países-satélites”. (MAGNOLI, DEMÉTRIO. op. cit. p. 92).



As etapas da guerra fria


Anos 40 e 50: A Guerra Fria Clássica



O bloqueio de Berlim



Em 1948, após três anos de seguidos desentendimentos sobre o destino a ser dado a Alemanha, os soviéticos determinaram um bloqueio a Berlim, que ficava dentro de sua zona de ocupação, mas também, como vimos, estava dividida. Com o bloqueio, Berlim Ocidental passou a receber apoio e suprimentos através de um corredor aéreo, uma linha de comunicação por avião montada especialmente para isso.



A crise, que elevou perigosamente a temperatura das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, acabou resultando na divisão da Alemanha em dois países, em 1949: República Federal da Alemanha, sob controle norte-americano, e República Democrática Alemã, sob controle soviético. À semelhança do meridiano de Greenwich, que divide o globo terrestre e marca os fusos horários, a linha que agora dividia o mundo capitalista do mundo comunista passava por cima do antigo território alemão. E a divisão da Alemanha transformou-se no símbolo mais forte da impossibilidade de acordo entre Estados Unidos e União Soviética.



O mundo saíra da Segunda Guerra Mundial dividido em dois. Restava apenas esperar que a crescente oposição entre os dois lados não resultasse em uma nova guerra. Os norte-americanos, de qualquer maneira, acreditavam que seu poderio bélico - conquistado através da posse isolada da bomba atômica - afastaria os soviéticos de um confronto direto. Pelo menos do ponto de vista militar, o Ocidente estava bem defendido.



O ano de 1949, contudo, reservava uma última surpresa. No início de setembro, Harry Truman foi informado de que a União Soviética acabara de realizar com êxito um teste nuclear no deserto do Cazaquistão, próximo à cidade de Semipalatinsk. A novidade deixou o presidente perplexo: estava encerrado o monopólio nuclear norte-americano. Os soviéticos também dispunham da bomba atômica.



A notícia fechava a equação da guerra fria. O mundo do segundo pós-guerra era dominado por duas superpotências rivais e absolutamente incompatíveis. Estava claro que um lado não se sentiria totalmente satisfeito a menos que obtivesse a rendição incondicional do outro. Mas ambos possuíam armas nucleares, o que significava que um confronto entre eles poderia levar o planeta a um desastre de proporções globais. Era nesse terreno literalmente explosivo que a humanidade deveria caminhar nas décadas seguintes.


A Guerra da Coréia



No início dos anos 50, um dos palcos dessa competição era a Coréia. Libertada do controle japonês pelos Aliados ao final da Segunda Guerra, o país foi dividido em zonas de ocupação, a exemplo da Alemanha. Uma linha demarcatória, conhecida como Paralelo 38, separava o setor sul, sob domínio dos norte-americanos, do setor norte, sob domínio dos soviéticos. Mais uma vez, a exemplo do que aconteceria na Alemanha, não se chegou a um acordo sobre o estabelecimento de uma administração unificada para o país. Em 1948, ele seria fragmentado em duas nações diferentes: o setor controlado pelos Estados Unidos deu origem à República da Coréia (Coréia do Sul); o setor controlado pela União Soviética resultou na República Popular Democrática da Coréia (Coréia do Norte). Esse arranjo, contudo, não foi capaz de resolver a questão. Após a retirada das tropas norte-americanas e soviéticas da região, entre 1948 e 1949, ocorreu na área do Paralelo 38 uma série de incidentes de fronteira, seguidos de crescentes ataques verbais entre os dois novos governos - ambos reivindicavam a reunificação do país, sob seu controle. Em junho de 195O, por fim, os exércitos da Coréia do Norte desencadearam um ataque de surpresa contra a Coréia do Sul.



A reação norte-americana foi imediata. No mesmo dia, o governo dos Estados Unidos obteve do Conselho de Segurança da ONU a declaração que caracterizava a Coréia do Norte como nação agressora, portanto sujeita a represálias. Essa decisão certamente foi facilitada pela ausência do representante soviético naquela sessão do conselho. Em seguida, o presidente Truman nomeou comandante de uma expedição de intervenção na Coréia o general Douglas MacArthur, veterano da Segunda Guerra.



Mesmo criticando o que chamou de pressão brutal dos norte-americanos sobre o Conselho de Segurança da ONU, o governo soviético preferiu não se envolver diretamente na guerra, limitando-se a fornecer assistência militar indireta aos norte-coreanos. Mas o governo chinês passou a sentir-se cada vez mais ameaçado com o constante avanço das forças norte-americanas pelo norte, até quase suas fronteiras. Em outubro de 195O, a China de Mao Tse-tung desencadeou uma contra-ofensiva destinada a provocar o recuo das forças de MacArthur. Os combates, cada vez mais acirrados, multiplicavam o número de vítimas e aumentavam a tensão política. Truman chegou a insinuar, em entrevista coletiva, que poderia recorrer uma vez mais à bomba atômica, como forma de colocar um ponto final no conflito.



Só em julho de 1953 foi obtido um acordo de paz - o Armistício de Panmunjon -, pondo fim à guerra e ratificando definitivamente a divisão da Coréia. Mas até então os combates já haviam provocado a morte de mais de cinqüenta mil soldados norte-americanos e de cerca de 1,5 milhão de soldados chineses e norte-coreanos. Além disso, aproximadamente um milhão de civis sul-coreanos e dois milhões de civis norte-coreanos perderam a vida como resultado da fome, das epidemias e dos bombardeios.



O acordo que acabou com esse verdadeiro massacre foi possível, em grande medida, graças à troca de comando dentro do governo norte-americano. Desde janeiro de 1953 os Estados Unidos tinham um novo presidente, Dwight Eisenhower, que mesmo antes da posse se havia comprometido publicamente a encerrar a guerra. Mas o impacto de outro acontecimento, ocorrido três meses antes da assinatura do acordo de Panmunjon, talvez tenha também exercido sua influência para a suspensão do conflito - e certamente influenciaria todos os assuntos relacionados com a guerra fria a partir de então. Em março de 1953, aos 73 anos de idade, Josef Stalin tinha morrido em Moscou.



União Soviética: à procura de novos rumos



A morte de Stalin provocou um clima de grande expectativa em todo o mundo. Por cerca de um quarto de século, os destinos da União Soviética haviam dependido inteiramente das opiniões, decisões e determinações do líder agora desaparecido. Poucas pessoas em toda a História haviam reunido tanto poder quanto ele. O gigante soviético e, a partir do segundo pós-guerra, o bloco comunista haviam sido conduzidos com mão de ferro por Josef Stalin. A grande interrogação era o que seria do mundo comunista sem ele e em que medida seus sucessores dariam continuidade às suas políticas.



Um primeiro sinal de que ocorreriam mudanças surgiu já em 1953, pouco depois da morte de Stalin. Em julho, Lavrenty Beria, seu homem de confiança, foi detido e processado por "atividades criminosas contra o partido e o Estado". Condenado, Beria seria executado em dezembro do mesmo ano.



Mas a grande reviravolta viria em fevereiro de 1956, quando Nikita Kruschev, novo homem forte do regime, proferiu um surpreendente discurso durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Nele, atacava duramente Stalin e o culto quase religioso até então dedicado a sua personalidade, além de denunciar as impiedosas perseguições que haviam resultado na morte de tantos cidadãos soviéticos inocentes. O antigo herói tornava-se, subitamente, um criminoso. A palavra de ordem oficial passava a ser a política de desestalinização da União Soviética.



Foi uma verdadeira bomba para o mundo comunista. O discurso de Kruschev, proferido a princípio em caráter reservado apenas para os dirigentes do Partido, logo vazou para a imprensa internacional. Nos países do Leste europeu, passou a fermentar a oposição entre defensores e adversários do stalinismo. Mais do que isso, em alguns deles começaram a pipocar rebeliões contra o próprio controle soviético. Já em junho de 1956 registraram-se agitações em Poznan, na Polônia. No dia 28 daquele mês, uma multidão calculada em mais de cinqüenta mil pessoas realizou um protesto pelas ruas da cidade, pedindo melhores condições de vida, eleições livres e a retirada das tropas soviéticas do país. As forças policiais, aturdidas, abriram fogo contra os manifestantes. Setenta pessoas morreram. Isso só fez agravar a crise. Como resultado dela, antigos líderes stalinistas poloneses foram forçados a renunciar a seus postos no Partido Comunista, abrindo espaço para a volta triunfal de Wladislaw Gomulka ao poder. Desde o final dos anos 40, por ter entrado em atrito com as políticas oficiais de Stalin, ele havia sido retirado do governo, expulso do Partido e depois preso. Cerca de 250 mil pessoas reuniram-se nas ruas de Varsóvia para comemorar seu retorno.



O governo soviético aceitou a ascensão de Gomulka, abandonando os planos de invadir a Polônia para mantê-la alinhada ao bloco comunista. Na realidade, fez-se um acordo: o Partido Comunista polonês passaria a ter mais autonomia, mas a Polônia manteria sua filiação ao Pacto de Varsóvia e a fidelidade política à União Soviética. Kruschev resolvera a crise de maneira negociada. Isso, contudo, não seria possível no caso da rebelião que estouraria pouco tempo depois, na Hungria.



Em outubro de 1956, uma manifestação de estudantes realizada em frente à estação de rádio de Budapeste pedia a divulgação de uma lista de reivindicações. Novamente, exigiam-se melhores condições de vida, eleições livres e a retirada das tropas soviéticas do país. Logo o movimento se ampliou, com a realização de concentrações populares exigindo a volta ao poder de Imre Nagy - escolhido primeiro-ministro húngaro em 1953, Nagy fora derrubado dois anos depois. Como na Polônia, o movimento teve êxito e Imre Nagy tornou-se o novo líder húngaro.



O primeiro-ministro, no entanto, declarou publicamente sua disposição de retirar a Hungria do Pacto de Varsóvia, como parte de seu projeto de procurar construir um caminho próprio em direção ao socialismo. Era demais para os soviéticos. No inicio de novembro, duzentos mil soldados e quatro mil tanques do Exército Vermelho avançaram sobre Budapeste com o objetivo de derrubar Nagy e - segundo a versão oficial soviética - "ajudar o povo húngaro a esmagar as obscuras forças da reação e da contra-revolução". Pelo menos cinqüenta mil húngaros morreram nos combates de rua que se seguiram. Imre Nagy foi deposto e, dois anos depois, executado. Em seu lugar, assumiu o poder Janos Kadar, líder húngaro considerado confiável pela União Soviética e que governaria até 1988.



A intervenção soviética na Hungria revelou os limites do processo de desestalinização proposto por Kruschev. Este prometia reformas econômicas capazes de elevar gradualmente o padrão de vida do povo soviético e um relativo processo de relaxamento da censura política, além da concessão de um pouco mais de autonomia aos governos do Leste europeu. Mas isso não significava que esses governos pudessem contestar a autoridade da União Soviética corno condutora dos destinos do bloco comunista. Qualquer tentativa neste sentido seria encarada como adesão ao inimigo capitalista e duramente reprimida. No tabuleiro de xadrez da política internacional, esses países constituíam casas estratégicas a serem dominadas.



Estados Unidos: A fobia anticomunista e o caso Rosemberg



A crença de que os soviéticos estavam empenhados num diabólico plano secreto para dominar o mundo foi rapidamente irradiada do governo norte-americano para a população do país. O grande combate contra o comunismo ocorreria em todas as partes e de várias formas, mas era preciso começá-lo em casa. Era preciso descobrir quem, dentro dos Estados Unidos, simpatizava, colaborara ou operava de acordo com os planos de Moscou. Gradualmente, a perseguição aos comunistas - ou aos que parecessem ser comunistas - tornou-se a grande obsessão nacional.



Nos anos do imediato pós-guerra, havia um clima de autêntico pânico coletivo. Se o inimigo se infiltrava por todos os lados, então todos eram suspeitos até prova em contrário. Quem poderia garantir que o próprio vizinho não era, disfarçado, um perigoso espião a serviço do movimento comunista internacional, sustentado e cuidadosamente treinado pela União Soviética?



O primeiro passo, portanto, era identificar os comunistas infiltrados. Com esse objetivo, foi desenvolvida toda uma campanha, que contava até com filmes oficiais, veiculados diariamente nos cinemas, nas escolas e naquela novidade que se tornava cada vez mais popular, a televisão. Um desses filmes ensinava: “Para reconhecer um comunista, as aparências podem enganar [..] Se alguém lê ou sustenta publicações comunistas, talvez seja um comunista. Se apóia organizações com doutrinas comunistas, ou organizações assim consideradas por Washington, talvez seja um comunista. Se defende as atividades dos paises comunistas e critica sistematicamente a política interna e externa dos Estados Unidos, talvez seja um comunista. Mas se alguém faz tudo isso ao mesmo tempo, certamente é um comunista.”.



O segundo passo, naturalmente, era procurar banir quem fosse identificado como comunista. Qualquer um assim considerado passava a ser visto como um verdadeiro perigo público: perderia o emprego e seria cuidadosamente segregado, quando não hostilizado diretamente. Empregar ou exibir laços de amizade com comunistas não eram apenas atos impatrióticos, mas acima de tudo atos suspeitos. Manter qualquer tipo de ligação com elementos subversivos significaria, no fundo, simpatia pela subversão. O comunismo era encarado como um mal contagioso, que exigia o rigoroso isolamento do indivíduo contaminado.



Nesse trabalho de vigilância, alguns setores deveriam receber atenção redobrada, em especial aqueles ligados às artes, ao ensino, à divulgação de notícias e ao movimento sindical. Acreditava-se que a partir daí os simpatizantes da União Soviética disseminariam seus ataques aos valores tradicionais norte-americanos.



Além das organizações patrióticas que passaram a se multiplicar por todo o país, o próprio Congresso mobilizou-se para enfrentar o perigo vermelho. Uma comissão especial ali criada já em 1945 o Comitê de Atividades Anti-Americanas - passou, principalmente a partir de 1947, a investigar a vida de figuras públicas suspeitas de subversão, convocando-as para depor em audiências abertas. Se não concordasse em participar desses depoimentos ou não pudesse explicar satisfatoriamente aos rigorosos inquiridores eventuais ligações ou simpatias com a esquerda, o suspeito tinha a carreira encerrada: ele não mais encontraria trabalho nos Estados Unidos. Os grandes estúdios de cinema, por exemplo, recebiam periodicamente da comissão uma relação - conhecida como lista negra - com os nomes dos roteiristas, diretores e atores a serem banidos. Muitos deles nunca mais voltariam a atuar profissionalmente.



Mesmo figuras aparentemente acima de qualquer suspeita foram investigadas e condenadas. O físico Robert Oppenheimer, antes encarado como um verdadeiro herói nacional por sua decisiva participação no desenvolvimento da bomba atômica, teve de enfrentar um processo em 1953 - era acusado de traição, de manter ligações clandestinas com movimentos de esquerda e de realizar espionagem pró-soviética. Não foram obtidas provas de tais acusações mas, daí em diante, a carreira de Oppenheimer entraria em franco declínio. Ele só seria parcialmente reabilitado dez anos depois, ao receber um prêmio das mãos do presidente Johnson.



O grande articulador da campanha anti-subversão no Congresso foi o senador Joseph McCarthy, que logo ganhou notoriedade nacional como "caçador de comunistas". McCarthy, de fato, parecia ser capaz de enxergar subversão em toda parte: suas bombásticas declarações incluíam denúncias até contra integrantes do governo e das Forças Armadas norte-americanas.



Em 1953, ele atacou o próprio presidente Eisenhower (eleito no ano anterior), que a seu ver não vinha promovendo com a eficiência necessária a eliminação de funcionários suspeitos de subversão. O macarthismo - movimento assim batizado em referência a seu coordenador e inspirador - chegou a promover cerimônias públicas de queima de livros considerados pró-comunistas.



Nesse contexto, certo de que espiões comunistas haviam passado os segredos da construção da bomba atômica aos soviéticos, o governo norte-americano promoveu uma investigação que culminou com a execução do casal Rosenberg, em 1953. Julius e Ethel Rosenberg eram, de fato, militantes comunistas, e durante a guerra haviam convencido o irmão de Ethel, David Greenglass, que trabalhava no Projeto Manhattam, a desviar informações sigilosas para serem repassadas aos soviéticos. Mas as informações reunidas por Greenglass eram de importância absolutamente secundária; certamente não foi a partir delas que a União Soviética desenvolveu a bomba atômica. Mesmo assim, o casal Rosenberg foi condenado à morte e executado na cadeira elétrica. O presidente Eisenhower, que poderia ter transformado a pena em prisão perpétua, relembraria depois em suas memórias que estava então determinado a fazer do caso um exemplo de como o governo dos Estados Unidos tratava aqueles que considerava traidores e espiões.



Estados Unidos: ação nas sombras



Os Estados Unidos, por sua vez, faziam o possível para manter sob seu controle aquilo que também consideravam como casas estratégicas. Os anos 50 foram uma época de intenso trabalho para a CIA, cuja presença passou a se fazer sentir em várias partes do mundo. Já na Guerra da Coréia a agência havia dado sua colaboração. Enquanto os soldados norte-americanos lutavam na linha de frente, os agentes da CIA trabalhavam nos bastidores, treinando guerrilheiros e organizando expedições paramilitares contra norte-coreanos e chineses.



Seria na administração Eisenhower, contudo, que a CIA ampliaria mais significativamente seu raio de ação. A política externa do novo governo foi entregue ao secretário de Estado, John Foster Dulles, que levou para a direção da CIA seu irmão, Allen. Juntos, eles desenvolveriam a doutrina de que, na grande luta internacional contra o comunismo, ninguém poderia ser imparcial: "Quem não está conosco, deve estar secretamente ligado à União Soviética e ao movimento comunista mundial", repetia Allen Dulles. Não é surpreendente, portanto, que sob sua direção o serviço secreto norte-americano tenha passado a intervir diretamente em regiões como o Oriente Médio e a América Latina.



No Irã, a CIA inaugurou uma nova modalidade de ação - a promoção de golpes de Estado. Em 1951, o primeiro-ministro iraniano, Mohammed Mossadegh, havia tomado a decisão de nacionalizar os campos de petróleo do país, até então controlados por empresas inglesas. Durante a administração Truman, a CIA se limitara a acompanhar atentamente o que parecia uma medida suspeita, talvez o primeiro passo no sentido da aproximação política do Irã com a União Soviética. Mas, assim que Eisenhower tomou posse, desencadeou uma agressiva campanha com o objetivo de derrubar Mossadegh. Foram organizadas e financiadas secretamente várias manifestações populares contra o primeiro-ministro, que acabou destituído (1953). Em seguida, formou-se um governo militar sob o comando do xá Mohammed Reza Pahlevi, aliado incondicional dos Estados Unidos.



O mesmo tipo de operação foi repetido pouco depois, na Guatemala. Ali, o presidente eleito, Jacobo Arbenz, havia anunciado sua disposição de realizar uma reforma agrária, expropriando as terras da maior proprietária do país - a empresa norte-americana United Fruit Co. Logo se iniciou contra Arbenz uma campanha de desmoralização, que incluía ataques pelo rádio, manifestações de rua e ampla distribuição de panfletos anônimos com críticas a seu governo. Ao mesmo tempo, a CIA armava e treinava sigilosamente contingentes militares guatemaltecos, sob o comando do coronel Castillo Armas. Em junho de 1954, finalmente, Jacobo Arbenz foi derrubado e substituído pelo governo militar de Castillo Armas.



A promoção de golpes de Estado e a sustentação de ditaduras de direita eram apenas algumas das atividades da CIA. Pouco a pouco, a agência passaria a desenvolver também outras linhas de atuação em sua luta contra políticos de esquerda ou lideranças locais não alinhadas à política oficial de Washington. Para promover a desmoralização do presidente da Indonésia, Sukarno, considerado excessivamente independente em relação aos Estados Unidos, a CIA chegaria a produzir um filme pornográfico que mostrava o presidente - interpretado por um ator mascarado - envolvido numa orgia com uma mulher loira, teoricamente uma perigosa espiã comunista. (O resultado foi uma produção tão confusa e ridícula que a peça nem sequer chegou a ser divulgada.)



Em outra ocasião, para assegurar a vitória de Ramón Magsaysay nas eleições filipinas, foi organizada uma campanha que contou com o apelo à crença da população no sobrenatural: vozes misteriosas, vindas do céu (na realidade, -de aviões equipados com alto-falantes), asseguravam que Deus não se contentaria com a vitória de qualquer outro candidato.



Outros planos ainda foram- elaborados para o assassinato de líderes estrangeiros, como Patrice Lumumba, do Congo (atual Zaire), Rafael Trujillo, da República Dominicana, e o coronel Abdul Karim Kassem, do Iraque. Sentindo-se cada vez mais onipotente, a direção da CIA parecia acreditar que podia fazer qualquer coisa para garantir a supremacia dos interesses norte-americanos no exterior.



Anos 50/60: A coexistência pacífica



Apesar dos contínuos esforços dos Estados Unidos e da União Soviética para superarem um ao outro, houve momentos em que seus governos ensaiaram estabelecer canais mais desobstruídos de comunicação, como forma de reduzir a tensão política. Tais tentativas avançavam ou recuavam ao sabor dos acontecimentos - por vezes surpreendentes e generosas declarações de disposição ao diálogo, por outras o surgimento de crises internacionais que logo traziam de volta as acusações e críticas mútuas. Ora aproximando-se, ora afastando-se, era como se norte-americanos e soviéticos executassem uma curiosa dança política no cenário gelado da guerra fria.



Tal procura pelo entendimento não acontecia exclusivamente pelo amor à paz, evidentemente. Numa geopolítica internacional cada vez mais complexa, tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética percebiam que havia fatores que escapavam não só ao seu controle, mas também ao controle do adversário. Era o caso, por exemplo, da corrida internacional pela posse da tecnologia nuclear. Desde 1952 a Inglaterra também dispunha da bomba atômica e, em 1960, a França realizaria com êxito seu primeiro teste nuclear. Outros países certamente patrocinavam projetos atômicos secretos, o que levava à necessidade do estabelecimento de algum tipo de regulamentação internacional na área.



Além disso, tornava-se cada vez mais evidente que nem todas as forças políticas do mundo se filiavam obrigatoriamente a um dos dois lados. O quadro rigorosamente bipolarizado pintado por analistas como os irmãos Dulles revelava-se inadequado para retratar uma realidade muito mais ampla e complexa. O próprio mundo comunista começava a conhecer uma divisão que iria se aprofundar a partir do final dos anos 50: o progressivo afastamento entre a União Soviética e a China.



Um momento de aproximação entre norte-americanos e soviéticos ocorreu em setembro de 1959, quando Nikita Kruschev visitou os Estados Unidos. Numa série de pronunciamentos públicos, ele defendeu o que chamava de coexistência pacífica entre as superpotências e chegou a propor um processo geral e completo de desarmamento, a ser obtido no prazo de quatro anos (a idéia de uma convivência menos tensa entre as superpotências seria retomada por Nixon, nos anos de 1970). “No jargão tradicional dos diplomatas da velha guarda, o afrouxamento da tensão era détente. A palavra tornou-se então familiar. Ela apareceu primeiro nos últimos anos da década de 50, quando N. S. Kruschev estabeleceu sua supremacia na URSS após alarmes e excursões pós-Stálin (1958-1964). Esse admiravel diamente bruto, um crente na reforma e na coexistência pacífica, que aliás esvaziou os campos de concentração de Stálin, dominou o cenário internacional por poucos anos seguintes. Foi talvez o único camponês a governar um grande Estado. Contudo, a détente primeiro teve de sobreviver ao que pareceu um período extraordinariamente tenso de confrontos entre o gosto de Kruschev pelo blefe e os gestos políticos de John F. Kenedy (1960-63), o mais superestimado Presidente norte-americano do século. As duas superpotências foram assim levadas a duas operações de alto risco num momento em que – é dificil lembrar – o ocidente capitalista sentia estar perdendo terreno para as economias comunistas, que haviam crescido mais rapidamente na década de 1950. Não acabavam elas de demonstrar uma (breve) superioridade tecnológica com relação aos Estados Unidos com o sensacional triunfo dos satélites e cosmonautas soviéticos? Além disso, não tinha o comunismo – para a surpresa de todos – acabado de triunfar em Cuba, um país a apenas algumas dezenas de milhas da Flórida?”. (HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos. O breve século XX [1914-1991]. São Paulo, CIA das Letras, 1998. p. 239-240).



Mas a esperada visita de Eisenhower à União Soviética acabou sendo adiada quando estourou uma nova crise, em maio de 1960: os soviéticos derrubaram um avião U-2 norte-americano, que voava em missão de espionagem sobre seu território.



Novas perspectivas de entendimento pareceram surgir no início de 1961, quando John F. Kennedy tomou posse como presidente dos Estados Unidos. Sua chegada ao poder não deixava de representar uma certa renovação política, para um pais que havia sido governado durante oito anos por Eisenhower. O novo presidente prometia não fugir ao diálogo com os soviéticos: referindo-se ao assunto num de seus discursos, afirmava que "nunca negociaremos acossados pelo medo; ao mesmo tempo, nunca teremos medo de procurar a negociação".



Pouco tempo depois da posse, contudo, Kennedy teria de lidar com uma desastrada tentativa de invasão de Cuba por parte de exilados cubanos armados e supervisionados pela CIA, com o objetivo de derrubar o governo revolucionário de Fidel Castro. Os planos de provocar a queda de Castro haviam sido formulados ainda durante a administração Eisenhower. A agência já vinha treinando e armando exilados cubanos na Guatemala e tinha prontos esquemas de ataque às forças de Castro. Deveria ser apenas mais uma operação encoberta de substituição de um governo indesejável por um governo militar de direita.



Recém-chegado à Casa Branca, Kennedy hesitava entre autorizar e suspender a operação. Acabou autorizando pela metade: nem todas as forças disponíveis foram mobilizadas na invasão da baía dos Porcos, em abril de 1961.O resultado foi uma operação confusa e mal coordenada, que terminou com a vitória triunfal da resistência de Fidel Castro. Este, a partir daí, assumiu definitivamente sua aliança com a União Soviética. Foi o maior fracasso da CIA em seus 14 anos de existência.



O ano de 1961 também foi um período de tensões na Alemanha, as voltas com o debate em torno da reunificação (tema que vinha sendo discutido desde a fundação da RFA e RDA). Os líderes soviéticos mantiveram-se intransigentes na partilha da Alemanha pois temiam que uma Alemanha reunificada pudesse lançar uma nova guerra apoiada pelos seus aliados capitalistas. Assim, “Em 1961 o governo alemão oriental construiu um alto muro separando os dois setores de Berlim, a fim de deter a fuga de milhares de alemães orientais para Berlim ocidental e, dali, para a Alemanha Ocidental. Muitos lograram realmente fugir, mas o muro permaneceu como um símbolo da determinação soviética de evitar a formação de uma Alemanha unida”. (BURNS, Edward McNall. op. cit. p. 742).



A crise dos mísseis



Cerca de um ano depois, a administração Kennedy se veria novamente às voltas com uma crise em Cuba - dessa vez, com a perspectiva de bater de frente com a União Soviética. Em outubro de 1962, aviões de espionagem norte-americanos obtiveram provas de que os soviéticos estavam montando uma base de lançamento de mísseis nucleares em território cubano, a apenas 150 quilômetros da costa da Flórida. Como resposta, Kennedy impôs um bloqueio aéreo e naval a Cuba, com o objetivo de impedir a chegada dos mísseis, e mobilizou suas Forças Armadas para um possível enfrentamento militar. Se os soviéticos insistissem no empreendimento, seria a guerra.



Por alguns dias, o mundo viveu num estado de ansiedade quase insuportável. O confronto nuclear global nunca parecera tão próximo. No dia 24, dez dias depois da identificação da base pelos aviões norte-americanos, Kennedy foi informado de que 12 dos 25 navios soviéticos que traziam os mísseis haviam mudado de rota para evitar a proximidade do bloqueio. No dia seguinte, os navios - exceto um - deram meia volta e iniciaram a viagem de retorno à União Soviética. O último era o petroleiro Bucharest, que transporta¬va apenas combustível; parado e vistoriado, recebeu autorização para seguir viagem até Havana.



A crise só foi superada definitivamente no final de outubro, quando Kruschev aceitou formalmente a exigência de interromper a construção da base. Em troca, Kennedy comprometeu-se a abandonar qualquer outro plano de invadir Cuba. Paradoxalmente, é provável que o conflito tenha contribuído para uma subseqüente aproximação entre Estados Unidos e União Soviética: talvez assustados com as proporções que a crise dos mísseis havia assumido, Kennedy e Kruschev criaram em 1963 o chamado telefone vermelho, uma linha de comunicação direta entre Washington e o Kremlin, a ser usada imediatamente em caso de perigo de guerra nuclear. E no mesmo ano firmaram um tratado pioneiro que, se não promovia um processo geral de desarmamento nuclear, pelo menos fixava regras para a realização de testes atômicos. Os signatários do acordo (Estados Unidos, União Soviética e Grã-bretanha; a França se recusou a assiná-lo) comprometiam-se a não mais realizar experimentos nucleares a céu aberto, como vinham fazendo até então. A partir dali, todos os testes seriam subterrâneos, diminuindo o risco de contaminação. Certamente não era a solução capaz de afastar de vez a ameaça do apocalipse nuclear. Mas, para a opinião pública mundial, que acreditava ter chegado muito próximo dele no ano anterior, tratava-se de um avanço histórico.



Mas o medo de uma confrontação nuclear permaneceu e até cresceu. Entre os motivos para a permanência de tal clima de medo estava o fato de que, apesar do acordo nuclear pioneiro de 1963, Estados Unidos e União Soviética não haviam diminuído o ritmo de produção de novas armas nucleares. Ao contrário, os governos de Kennedy e de Kruschev tornaram-se conhecidos pela obsessão em criar novos mísseis e bombas para arsenais já abarrotados deles. Além disso, passara a fazer parte do conhecimento popular a imagem do "homem da pasta preta" - o funcionário que, tanto nos Estados Unidos quanto na União Soviética, acompanhava discretamente o chefe de Estado em todas as ocasiões, trazendo na famosa pastinha os códigos secretos para a determinação de um ataque nuclear global.



As possibilidades de diálogo entre norte-americanos e soviéticos pareciam cada vez mais distantes. A inesperada morte de Kennedy, em novembro de 1963, foi seguida quase exatamente um ano depois pela queda de Kruschev. Nos Estados Unidos, assumiu a Presidência o circunspeto Lyndon B. Johnson, então com 55 anos figura que contrastava fortemente com a imagem jovem e dinâmica de Kennedy.



Mas seria na União Soviética que se inauguraria uma fase na qual o poder passou às mãos de líderes particularmente idosos, dirigentes com uma carreira longa e pacientemente construída dentro do Partido Comunista. Kruschev foi sucedido por um triunvirato formado por Alexei Kossigin, Andrei Kirilenko e Leonid Brejnev, numa fórmula que evoluiu gradualmente para a predominância do último como o novo número um do regime. Brejnev estava próximo de completar 58 anos de idade quando chegou ao poder e o exerceria pelos 18 anos seguintes, até sua morte, em 1982. Seus sucessores imediatos - Yuri Andropov e Konstantin Chernenko tinham, respectivamente, 68 e 72 anos de idade quando chegaram ao poder.



Não é surpreendente, portanto, que o período que se iniciou com Brejnev tenha se tornado conhecido como a era da gerontocracia na União Soviética (gerontocracia significa "governo de anciãos"). Não se tratava tanto da idade cronológica de tais dirigentes - o próprio Kruschev já tinha mais de 60 anos quando iniciou sua política de desestalinização, em 1956 , mas do fato de que sua ascensão refletia um crescente processo de burocratização do Partido Comunista e, portanto, do governo soviético. Imobilizada pela inflexibilidade da estrutura partidária, a administração de Brejnev fez retroceder a tendência liberalizante de Kruschev em termos de política interna, reforçou o já rígido controle sobre os países do Leste europeu e ignorou a necessidade de reformas na economia, que se tornaria cada vez mais estagnada daí em diante. Mais que os dirigentes, era a política soviética que se tornava mais e mais arcaica.



Em um ponto, contudo, a nova administração da União Soviética manteria a continuidade em relação às administrações anteriores: no progressivo aumento dos gastos militares e na procura da superação dos Estados Unidos em outras áreas consideradas estratégicas, como na chamada corrida espacial.



Johnson e a política externa



Não eram apenas os soviéticos que se haviam tornado mais inflexíveis com a troca de governo. Nos Estados Unidos, a administração de Lyndon Johnson lançou uma nova ofensiva visando reforçar o controle sobre o que encarava como sua área de influência internacional.



Por trás dessa mobilização estava o fantasma de Fidel Castro. A derrota na baía dos Porcos representara, mais que a perda do controle de Cuba para a União Soviética, uma humilhação que perseguiria permanentemente o serviço secreto norte-americano daí em diante. A CIA mostrou-se verdadeiramente obcecada pela idéia de assassinar Castro: alguns dos delirantes planos desenvolvidos para tanto incluíam projetos de enviar charutos envenenados ao líder cubano ou pulverizar com substâncias tóxicas o estúdio de TV onde ele fazia seus discursos.



Aos olhos do governo norte-americano, mais importante era impedir que a experiência da revolução socialista cubana se repetisse em outros pontos da América Latina. Foi assim que, com o apoio dos Estados Unidos, uma nova leva de regimes ditatoriais passou a se espalhar pelos países latino-americanos a partir dos anos 60. Sua base era um pensamento que mesclava o tradicional conservadorismo das forças militares destes países com a política anticomunista irradiada de Washington - a chamada doutrina de segurança nacional. A idéia de que era preciso combater a qualquer custo a subversão e o avanço do movimento comunista internacional foi cuidadosamente transplantada para os novos governos que se formavam, dando origem a uma fase de autoritarismo que duraria cerca de duas décadas.



Foi nesse contexto que, em abril de 1964, ocorreu no Brasil o golpe que derrubou o governo civil de João Goulart. Sintomaticamente, o governo militar que chegou ao poder proclamava que a intervenção se devera à necessidade de salvar o país da subversão, discurso que seria ininterruptamente repetido ao longo dos vinte anos que se seguiram. O governo militar brasileiro, naturalmente, foi logo reconhecido e apoiado pelos Estados Unidos.



Daí em diante, os golpes de Estado se multiplicariam, com a formação de governos militares na Bolívia (1971), no Uruguai e no Chile (1973), na Argentina (1976) e em quase todos os demais países latino-americanos. Tais Estados policiais encarregaram-se de sufocar todo traço de oposição, elevando a violência e a repressão internas a níveis nunca antes conhecidos. Estima-se que, na Argentina, o número de "desaparecidos" - eufemismo oficial para designar os opositores assassinados secretamente pelo regime - tenha chegado a trinta mil pessoas.



A Guerra do Vietnã



Mas foi no Sudeste Asiático que o governo Johnson iniciou seu envolvimento mais conhecido - e desastroso. Desde os primeiros anos do pós-guerra, o Vietnã, colônia francesa, tinha sido palco de uma acirrada luta entre o governo francês e as forças locais em luta pela independência. Em 1954, a exemplo da Coréia, o país havia sido dividido em dois: o Vietnã do Sul, governado pelo anticomunista Ngo Dinh Diem, e o Vietnã do Norte, controlado pelas forças do Viet Minh, movimento revolucionário de esquerda liderado pelo carismático Ho Chi Minh.



Desde o início dos anos 50, os Estados Unidos vinham apoiando militarmente a França em sua luta pela manutenção da colônia. Quando os franceses finalmente desistiram, em 1954, a ajuda foi transferida ao Vietnã do Sul de Dinh Diem, em permanente conflito com o Vietnã do Norte e com as forças locais de resistência ao regime. Kennedy elevou a nada menos que 15 mil o número de conselheiros militares norte-americanos presentes no Vietnã do Sul.



Quando Ngo Dinh Diem foi assassinado, em 1963, após anos de violenta guerra civil, Johnson concluiu que era necessário transformar o apoio em intervenção militar direta. Sob o comando do general William Westmoreland, as forças norte-americanas passaram a atacar maciçamente o Vietnã do Norte. Daí em diante, o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã seria cada vez maior: em 1964 havia 148 mil soldados americanos na região; esse número saltaria para 389 mil em 1966, para 436 mil em 1967 e para 541 mil em 1969. Além disso, novas armas - entre as quais as terríveis bombas incendiárias de napalm, que espalhavam fósforo branco, queimando indiscriminadamente vegetação, animais e pessoas - passaram a ser usadas, em ataques tanto aos guerrilheiros norte-vietnamitas quanto à população civil.



Dentro do governo norte-americano, no entanto, a perplexidade era cada vez maior: quanto mais recorria a seu formidável aparato militar no Vietnã, mais a situação parecia escapar ao controle. Era como se os combatentes vietnamitas possuíssem uma inesgotável capacidade de resistência e de reação, ressurgindo das matas mesmo depois dos mais violentos ataques. Além disso, a própria opinião pública dos Estados Unidos, que antes aprovava a intervenção - em 1964, 85% dos norte-americanos estavam a favor dela -, passava cada vez mais a encarar a participação naquela guerra como um enorme equívoco. Episódios como o massacre de My Lai, em 1968, só fizeram engrossar uma campanha que logo tomou todo o país, a favor da retirada norte-americana do Vietnã.



O desencanto dos norte-americanos com a guerra se tornaria mais intenso quando, em janeiro de 1968, após quase quatro anos de seguidos e crescentes ataques, os norte-vietnamitas encontraram forças para desencadear a Ofensiva do Tet (ano novo lunar vietnamita), tomando de assalto nada menos que 36 das 44 capitais provinciais do Vietnã do Sul. O que começara como mais uma intervenção em nome da luta contra o comunismo tinha se transformado num interminável e sangrento conflito. Os poderosos norte-americanos viam-se absolutamente incapazes de dobrar os pobres mas determinados vietnamitas.



Atônito, Johnson parecia não compreender o que acontecia, afundando cada vez mais na impopularidade e na insistência em manter a mobilização numa guerra da qual os Estados Unidos pareciam não ter nenhuma possibilidade de sair vitoriosos. Era como se, no Sudeste Asiático, os norte-americanos estivessem aprendendo a dura lição de que já não podiam mais intervir no cenário externo a seu bel-prazer, como estavam habituados.



O inverno cai sobre Praga



Nos anos 60 não eram apenas os norte-americanos que enfrentavam dificuldades em manter sua liderança externa. Também a União Soviética de Brejnev viu surgirem crises naquela que considerava sua área de influência. A maior delas resultou, em 1968, em uma nova intervenção armada, desta vez na Tchecoslováquia.



Desde janeiro daquele ano, Alexander Dubcek era o novo secretário-geral do Partido Comunista tcheco, sucedendo no cargo a Antonin Novotny. Logo que chegou ao poder, Dubcek lançou um amplo programa de reformas visando revitalizar a economia do país e, sobretudo, instaurar um regime mais democrático. Tal programa - que anunciava a chegada de uma nova era para a Tchecoslováquia, conhecida como a Primavera de Praga incluía medidas absolutamente inéditas dentro do bloco comunista: a garantia de total liberdade de expressão e de culto religioso, a promoção de eleições gerais onde poderiam concorrer candidatos e partidos não comunistas e mesmo a instauração no país de uma incipiente economia de mercado.



Depois da frustrada experiência húngara, doze anos antes, outro país do Leste europeu anunciava a disposição de formular um caminho próprio em direção ao socialismo, ganhando autonomia em relação à União Soviética. E mais uma vez o governo soviético reagia, iniciando um jogo de pressões que visava conter o que encarava como um desafio à sua autoridade. No final de julho, foi promovido um encontro entre dirigentes soviéticos e tchecos para discutir diretamente a questão, ao mesmo tempo que tropas da União Soviética realizavam manobras militares perto da fronteira com a Tchecoslováquia - numa evidente tentativa de intimidar Dubcek. No encontro, Brejnev desde logo apresentou a exigência de que o governo tcheco suspendesse suas medidas liberalizantes, restabelecendo a censura e abolindo todas as organizações políticas não comunistas.



Apesar das pressões, Dubcek e o presidente tcheco, Ludvig Svoboda, argumentaram firmemente em defesa de seu programa e do direito à autodeterminação de seu povo. Quando, ao final de três dias de encontro, os soviéticos finalmente interromperam suas críticas, parecia a vitória. Dubcek e Svoboda retornaram a Praga certos de que haviam afastado o último obstáculo a seu projeto de construir no país o que consideravam um socialismo com face humana.



Estavam enganados. Na madrugada de 21 de agosto, duzentos mil soldados do Pacto de Varsóvia cruzaram a fronteira tcheca para ocupar Praga e outros pontos estratégicos. Pegos de surpresa e reconhecendo sua impotência para deter a invasão, os líderes tchecos apelaram ao povo para que não resistisse ao avanço; mesmo assim, muitos manifestantes saíram às ruas, vaiando os soldados e improvisando barreiras para tentar deter o avanço dos tanques. Em 22 de agosto, vinte mil pessoas reuniram-se na praça Venceslau, no centro de Praga, pedindo a retirada das tropas. Mas era inútil: Dubcek e outros líderes tchecos já haviam sido detidos e convencidos a abrir mão de seu programa de reformas. Por determinação da União Soviética, as tropas do Pacto de Varsóvia tinham sufocado a Primavera de Praga.



Em abril do ano seguinte, finalmente, Alexander Dubcek foi substituído por Gustav Husak, que logo promoveu o expurgo de quatrocentos mil filiados ao Partido Comunista tcheco e impôs um rígido regime de censura ao país. Governando com o apoio das topas soviéticas que, meses antes, haviam anunciado sua disposição de permanecer por tempo indeterminado em território tcheco, Husak se manteria no poder até 1989.



“Se a crise húngara de 1956 deixou claro ao mundo que nenhum país do Leste pode esperar romper livremente com o bloco soviético, a crise da Tchecoslováquia, doze anos depois, ensinou outra lição, a de que até mesmo as reformas internas devem ser levadas a cabo com o máximo de cautela e prudência. Tudo o que pareçe ameaçar uma brusca alteração no equilíbrio de poder na Europa, como a possibilidade de um país, como a Tchecoslováquia, aproximar-se exageradamente do ocidente [não que tenha sido a intenção confessa de Dubcek e seu adeptos), despertará a preocupação da superpotência do leste - e talvez a da superpotência do ocidente, também. Assim, a aproximação das duas metades básicas em que se acha hoje dividida a Europa só pode se efetivar à luz de um entendimento prévio entre a União Soviética e os Estados unidos”. (MORGAN, Roger. A primavera tcheca. In: Século XX. São Paulo, Abril, 1968, p. 2859).



Ao anos 70: A Détente



Ao final dos anos 60, portanto, com as intervenções no Vietnã e na Tchecoslováquia, norte-americanos e soviéticos estavam particularmente distanciados uns dos outros. Mas, no início dos anos 70, uma fase inédita de aproximação se estabeleceria. Não deixa de ser irônico que isso tenha acontecido justamente durante a administração de Richard Nixon nos Estados Unidos.



Nixon era um político de longa trajetória conservadora. Na década de 50 havia participado ativamente da "caça aos comunistas", como membro do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Mas ao tornar-se presidente, em 1969, ele iniciaria uma política externa caracterizada pela procura de novos canais de entendimento com o mundo comunista.



Em fevereiro de 1972 Nixon tornou-se o primeiro presidente norte-americano a visitar a República Popular da China, em esforço diplomático que incluiu o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. E mesmo que tal iniciativa fizesse parte de uma estratégia que também visava aprofundar a ruptura política entre a China e a União Soviética, Nixon não deixou de, ao mesmo tempo, procurar o diálogo com os soviéticos. Poucos meses depois, em Moscou, ele e Brejnev assinariam um acordo inédito de limitação de seus arsenais nucleares, o Salt 1, estabelecendo restrições para a construção de novas bases de lançamento de mísseis. Além disso, foi na administração Nixon que os Estados Unidos finalmente iniciaram sua retirada do Vietnã - em janeiro de 1973, após a realização de novos e pesados bombardeios sobre o Vietnã do Norte.



Outra ironia: apesar de seus êxitos na área de política externa, Nixon caiu em desgraça por causa de um episódio de política interna: o escândalo de Watergate. Cercado e politicamente esgotado, o presidente foi obrigado a renunciar em agosto de 1974, no segundo ano de seu segundo mandato.



Nixon foi sucedido por seu vice-presidente, Gerald Ford. Apagado e pouco carismático, além de sofrer com o descrédito de seu Partido Republicano por conta do escândalo de Watergate, Ford insistiu em concorrer às eleições de 1976: foi derrotado pelo democrata Jimmy Carter. Carter formulou uma nova política externa baseada na campanha pelo respeito aos direitos humanos, reduzindo o apoio político e econômico a países nos quais tais direitos eram ostensivamente violados, como a Guatemala, El Salvador e a África do Sul. Além disso, a CIA foi orientada a reduzir ao mínimo as operações clandestinas; o presidente declarou publicamente seu compromisso de fazer o possível "para que cada ato do serviço secreto, agora e no futuro, seja legal e correto".



Mas o programa de renovação política de Carter seria atropelado pelos acontecimentos. Em janeiro de 1979, após meses de seguidas agitações, o xá Mohammed Reza Pahlevi, tradicional aliado político dos Estados Unidos, foi derrubado no Irã. Subitamente, décadas de ressentimento contra a influência norte-americana vieram à tona, na forma de uma dura campanha coordenada pelo novo governante iraniano, o líder fundamentalista islâmico aiatolá Ruhollah Khomeini. A embaixada dos Estados Unidos no país foi tomada, e dezenas de cidadãos norte-americanos foram mantidos como reféns por mais de um ano. Uma desastrada tentativa feita pelo governo norte-americano de resgatar os reféns, em abril de 1980, resultaria na queda de dois helicópteros em pleno deserto iraniano, acentuando a crise.



Tornava-se claro que o ensaio de Carter de formular uma política externa mais democrática esbarrava na formidável teia de relações, apoios e interesses norte-americanos no exterior. Enfrentando dificuldades crescentes, Carter foi derrotado em sua tentativa de obter a reeleição em 1980, perdendo a disputa para o republicano Ronald Reagan.



O Afeganistão e um novo recrudescimento da guerra fria



As tentativas de avanço no diálogo com a União Soviética sofreriam um duro abalo quando, em dezembro de 1979, o governo soviético se envolveu em uma nova intervenção militar no exterior, desta vez invadindo o Afeganistão.



Desde os anos 50 a União Soviética vinha mantendo relações relativamente próximas com o governo afegão. Mesmo não pertencendo formalmente à esfera de influência soviética, o Afeganistão vinha recebendo uma considerável quantidade de auxílio técnico e econômico por parte de Moscou, pelo fato de possuir uma vasta fronteira, estrategicamente localizada, com a União Soviética. Essas relações se tornariam ainda mais estreitas quando, em 1978, o presidente Sardar Mohammed Daud foi derrubado pelo líder do Partido Democrático Popular Comunista do Afeganistão, Nur Mohammed Taraki.



O governo de Taraki, contudo, logo passou a enfrentar uma insurreição armada por parte de grupos islâmicos locais os mujahidin inconformados com a imposição de um regime não religioso no país. Taraki seria deposto por Hafizullah Amin, que por sua vez seria derrubado pouco tempo depois, em dezembro de 1979, por Barbrak Karmal, líder afegão mais alinhado com os soviéticos. Mas já durante a curta passagem de Amin pelo governo, a União Soviética havia enviado cem mil soldados ao Afeganistão, com o objetivo de combater a guerrilha mujahidin reunida na União Islâmica Combatente.



Era como se os soviéticos tivessem encontrado sua própria versão da Guerra do Vietnã. Durante quase dez anos, a União Soviética se envolveria cada vez mais num duro combate contra a guerrilha, tentando sustentar um governo que em tudo dependia dela. O pobre e mal treinado exército afegão não só não conseguia fazer frente ao inimigo, como sofria com seguidas deserções de soldados que, da noite para o dia, corriam para se juntar às forças da União Islâmica. Calcula-se que os contingentes militares afegãos chegaram a ser reduzidos pela metade, por força dessas deserções.



A desastrosa decisão de sustentar a intervenção no Afeganistão foi mantida pelos sucessores imediatos de Brejnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko. Tais dirigentes pareciam não compreender que aquela mobilização não só não conduziria a vitória alguma, como trazia um custo cada vez mais elevado para a já combalida economia soviética.



A nova ofensiva anti-soviética promovida pela administração Reagan incluiu, entre outras medidas, o apoio secreto à guerrilha mujahidin no Afeganistão: só em 1985, o governo norte-americano gastou cerca de trezentos milhões de dólares financiando os rebeldes afegãos. O aumento nos gastos militares, de fato, parecia ser o grande trunfo do governo Reagan em termos de política externa. O orçamento militar dos Estados Unidos saltou de 126 bilhões de dólares, em 1979, para 312 bilhões de dólares em 1988 - um aumento de quase 150%. Esses recursos foram gastos no aumento dos contingentes militares norte-americanos espalhados pelo mundo e no desenvolvimento de novas armas, como o polêmico projeto conhecido como Guerra nas Estrelas, que visava nada menos que desenvolver sistemas de defesa a partir de satélites, militarizando até mesmo o espaço sideral.



Com Reagan, o serviço secreto norte-americano voltaria aos seus dias de intensa atividade. O presidente, não recorreu apenas à CIA, agora sob vigilância mais atenta da opinião pública e do Congresso, desenvolvendo uma estrutura própria para agir com mais liberdade. Com a ajuda do diretor da CIA, William Casey, e de um militar de sua confiança, o tenente-coronel Oliver North, Reagan criou uma agência paralela para intervir no exterior, conhecida sigilosamente como "a empresa". Totalmente ilegal, essa agência envolveu-se num obscuro caso de venda de armas ao Irã. Era uma forma de obter recursos para financiar a atividade de grupos de guerrilha na Nicarágua (que desde 1979, com a queda do ditador Anastácio Somoza, vinha sendo dirigida pelo governo de esquerda da Frente Sandinista de Libertação Nacional).



Além desse episódio, conhecido como caso Irã-Contras, o serviço secreto voltaria a formular planos de assassinar líderes estrangeiros (no Líbano) e de intervir em processos eleitorais (como 37 anos antes, na Itália, e mais uma vez contra o Partido Comunista Italiano, nas eleições de maio de 1985).



Este cenário feito de intervenções militares, operações encobertas e crescente inflexibilidade por parte de norte-americanos e soviéticos indicava uma fase de recrudescimento da guerra fria, que parecia ter-se instalado novamente e por tempo indeterminado. Até que, em 1985, um acontecimento crucial deu início a um surpreendente processo que levaria não apenas ao declínio da guerra fria, mas mesmo à sua superação definitiva. Em março daquele ano, Mikhail Sergueievitch Gorbatchev chegou ao poder na União Soviética.



O colapso do bloco comunista



Submetida desde os anos 60 a um longo período de estagnação política e econômica que se explica, em grande medida, devido à necessidade de se desviar largos recursos da produção (de implementos, alimentos, etc.) para a indústria bélica a fim de fazer frente ao belicismo estadunidense, a União Soviética conheceria um rápido processo de transformação a partir da posse de Gorbatchev como novo secretário-geral do Partido Comunista, em substituição a Konstantin Chernenko. Relativamente jovem em comparação com seus antecessores tinha 54 anos de idade quando chegou ao poder -, o novo líder lançaria um amplo programa de reformas, visando a renovação política e econômica do país e do bloco comunista. Uma vertiginosa sucessão de acontecimentos, contudo, levaria as mudanças para muito além do que pretendia o próprio Gorbatchev Nos anos que se seguiram, o mundo assistiria com surpresa à progressiva desintegração tanto da União Soviética quanto do bloco comunista.



O fato é que Gorbatchev recebera uma pesada herança em termos políticos e administrativos. Seu programa de liberalização apenas tornou mais visíveis problemas que há muito vinham se acumulando: a ineficiência da economia soviética, engessada por um planejamento excessivamente centralizado; o peso dos crescentes gastos militares sobre essa economia já debilitada; a inflexibilidade de uma burocracia estatal de proporções monstruosas, que procurava controlar e regulamentar cada atividade produtiva. Para Gorbatchev, não havia futuro para o socialismo, a menos que tal estrutura fosse inteiramente reformulada.



Foi nesse contexto que ele lançou, em fevereiro de 1986, o programa conhecido como glasnost ("transparência"), visando combater a corrupção e a ineficiência administrativa dentro do Estado soviético, como parte de um projeto maior de abertura política. E, pouco depois, um segundo programa - a Perestroika ("reestruturação") seria formulado para aumentar a produtividade da economia do país. Além disso, Gorbatchev passaria a reduzir gradualmente a ajuda econômica aos países do Leste europeu e a retirar de lá várias das tropas soviéticas.



Mudanças rápidas



A política externa soviética também passou por transformações significativas. Procurando estabelecer um novo padrão de entendimento com os países capitalistas, Gorbatchev reuniu-se com Reagan em cinco ocasiões diferentes nunca antes dois dirigentes dos Estados Unidos e da União Soviética haviam mantido tantos contatos diretos. Já no primeiro desses encontros, em novembro de 1985, ambos anunciariam a disposição de reduzir seus arsenais nucleares pela metade, em acordo a ser formalizado futuramente. E embora Reagan que continuava a encarar a União Soviética como "o império do mal" depois recuasse nesse compromisso, as propostas de desarmamento de Gorbatchev lhe valeram uma popularidade que nenhum outro líder soviético havia antes obtido no mundo ocidental. Em sua visita aos Estados Unidos, em dezembro de 1987, ele foi entusiasticamente recebido pelo público norte-americano.



Na ocasião, foi assinado um tratado inédito de eliminação de mísseis Cruise e Pershing II norte-americanos, em troca da eliminação de SS-20 soviéticos: tratava-se do primeiro acordo de desativação de toda uma classe de armas nucleares. Um ano depois, em pronunciamento realizado na ONU, Gorbatchev anunciaria a decisão de reduzir os contingentes militares soviéticos em 20% - o equivalente a quinhentos mil homens até o final de 1991.



As reformas de Gorbatchev incluíram também a realização de eleições livres para o Congresso, em março de 1989. Era a primeira vez que os soviéticos iam às umas escolher seus representantes. Mas todo esse esforço, que visava dar novos rumos ao socialismo, passou a enfrentar problemas inesperados: dentro da onda liberalizante, grupos nacionalistas, étnicos e religiosos sufocados por décadas - voltaram a se mobilizar, reclamando a independência de regiões como a Letônia, a Lituânia e a Estônia. Também nos países do Leste europeu ressurgiram movimentos a favor da completa autonomia nacional.



A unidade da União Soviética e do bloco comunista sempre fora garantida por um rígido esquema de centralização política: nas ocasiões em que movimentos colocaram em xeque tal esquema como na Hungria, em 1956, ou na Tchecoslováquia, em 1968 - os soldados do Exército Vermelho e do Pacto de Varsóvia haviam sido convocados para esmagá-los. Agora, porém, isso não parecia mais possível. Um a um, os países do Leste europeu foram ganhando cada vez mais autonomia em relação à União Soviética, praticamente desmontando a ordem construída por Stalin ao final da Segunda Guerra Mundial.



Um exemplo é o da Polônia. Já no final dos anos 70 emergira um movimento contestador de base sindical, o Solidariedade, liderado por Lech Walesa. Em 1982 o governo polonês havia respondido com a dureza de sempre, implantando uma lei marcial. Com o clima de abertura da glasnost, entretanto, uma série de reformas políticas levaram à criação do cargo de presidente da República e de um parlamento bicameral, em abril de 1989. Nas eleições realizadas em junho do mesmo ano, o Solidariedade - agora transformado em partido político - obteve uma vitória significativa, fazendo de Tadeusz Mazowiecki o primeiro-ministro. No ano seguinte, Lech Walesa chegaria ao cargo de presidente da República. Numa virada inédita, os dissidentes do regime assumiam o governo.



Outro exemplo é o da Tchecoslováquia. Ali, Gustav Husak, que havia assumido o governo logo após a repressão à Primavera de Praga, foi forçado a renunciar como resultado de novas e amplas manifestações populares. Em seu lugar, assumiu como presidente, em dezembro de 1989, o escritor Vaclav Havel, em processo que também levou à reabilitação política de Alexander Dubcek eleito deputado e, em seguida, presidente da Câmara dos Deputados. A transição política tcheca, radical mas pacífica, tornou-se conhecida como Revolução de Veludo.



Movimentos dessa natureza passaram a se reproduzir em cada país do Leste europeu, mesmo naqueles onde o peso da tradição stalinista e da centralização política era maior.



Nem todas as transições foram pacíficas, contudo. Em dezembro de 1989, o ditador da Romênia, Nicolae Ceausescu que governava desde os anos 60 e resistia às mudanças - acabou sendo preso e executado, ao lado de sua mulher, Elena. A maré de violência incluiu a caça e o linchamento de muitos membros da Securitate, a polícia política romena. A onda de transformação parecia tão irrefreável que até na Albânia, considerada o maior reduto do stalinismo na Europa, seriam realizadas eleições livres em março de 1992. A vitória - impensável em outros tempos - foi do Partido Democrático de Sali Berisha, que na ocasião declararia que os albaneses estavam "dizendo um adeus definitivo ao comunismo".



A queda do muro de Berlim



Nenhum outro acontecimento marcaria tão emblemática e simbolicamente a virtual desintegração do antigo bloco comunista, ou teria tanta influência sobre os movimentos no Leste europeu, quanto o processo que levou à queda do muro de Berlim, em 1989. Construído em 1961 para separar os setores oriental e ocidental da cidade para isolar, na realidade, o setor comunista do setor não comunista -, o famoso muro havia se tornado o maior símbolo do controle soviético sobre os países do Leste europeu. Como que enclaustrados no setor comunista da cidade, centenas de pessoas tentaram, ao longo de quase três décadas, achar uma maneira de fugir para o setor ocidental. Os fugitivos procuravam superar as muitas barreiras constituídas pelo muro - que contava, entre outras coisas, com cercas eletrificadas, valetas antitanque e policiamento permanente. A maior parte deles acabou eletrocutada ou fuzilada.



Em setembro de 1989, entretanto, a Hungria abriu suas fronteiras com a Áustria, criando um novo roteiro de fuga da Alemanha Oriental. Milhares de alemães orientais passaram a sair de seu país em direção à Alemanha Ocidental, atravessando nesse caminho a Hungria e a Áustria. Além disso, como em outros países do Leste europeu, também na Alemanha Oriental uma onda crescente de protestos populares passou a ocorrer. Esgotado pelas manifestações e pela repercussão da emigração em massa, o governo do país finalmente determinou a derrubada do muro, em novembro de 1989. Verdadeiras multidões afluíram a Berlim e fizeram do acontecimento uma enorme festa, transmitida pela TV para todo o mundo. A queda da barreira preparava terreno para uma medida ainda mais radical, que viria pouco tempo depois - a reunificação alemã, sob a liderança da Alemanha Ocidental.


O fim da União Soviética



A abertura política patrocinada por Gorbatchev permitiu a emergência de forças que imprimiram seus próprios ritmos e direções às mudanças que o líder soviético imaginara poder manter sob controle. Essa torrente de transformações, porém, não se fez sem resistências. A mais significativa delas resultou em nada menos que uma tentativa de golpe contra o próprio Gorbatchev.



Em agosto de 1991, um autodenominado Comitê Estatal de Emergência surpreendeu o mundo com o anúncio de que Mikhail Gorbatchev havia sido afastado do poder "por problemas de saúde", velho eufemismo soviético, tradicionalmente usado para anunciar a retirada de um líder caído em desgraça. Uma junta, formada por oito dirigentes da chamada linha dura do Partido Comunista, assumiu o governo e proclamou sua intenção de restaurar a "lei e a ordem", além da "integridade territorial e da honra nacional".



O golpe, que apontava para a retomada da linha de centralização política na União Soviética, porém, fracassou espetacularmente. Milhares de manifestantes saíram às ruas de Moscou, enfrentando os soldados e os tanques, ao mesmo tempo que a opinião púbica mundial exigia a volta de Gorbatchev. Em poucos dias, por absoluta falta de apoio, os golpistas foram presos, e Gorbatchev reconduzido ao poder. Em vez de deter, o golpe frustrado acabou acelerando ainda mais as mudanças: pouco depois o Partido Comunista soviético foi extinto e as repúblicas da Letônia, Estônia e Lituânia declararam definitivamente sua independência. O exemplo foi seguido por Moldávia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Geórgia, Azerbaijão, Quirguizistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Armênia. O antigo império soviético se esfacelava.



Mais do que isso, a resistência ao golpe reforçou a popularidade do presidente da Rússia, Bóris Yeltsin, líder populista que a partir daí manobrou habilmente para marginalizar Gorbatchev. Yeltsin articulou junto aos líderes das novas repúblicas a formação de uma Comunidade de Estados Independentes, união que praticamente decretava a falência do que sobrava do antigo Estado soviético. Esgotado, Gorbatchev não viu outra alternativa a não ser formalizar sua renúncia, anunciada no dia 25 de dezembro de 1991. Em seguida, passou às mãos de Yeltsin a tchemodântchik, a famosa "pastinha" preta com os códigos de disparo dos mísseis nucleares, até então sob seu controle. Era o desenlace de uma sucessão de acontecimentos que nenhum analista político, mesmo no início dos anos 80, teria sido capaz de prever. O bloco comunista havia desmoronado, não por força de um formidável cataclismo nuclear - como se acreditava antes -, mas como resultado de um surpreendente processo de implosão política. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não existia mais; 74 anos depois, a revolução bolchevique encontrava um melancólico final.



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