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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)


A Europa entra em declínio
A Europa brilhava sobre o mundo... Vivia-se o apogeu da sociedade liberal, capitalista. O apogeu, dialeticamente, traz consigo o germe da mudança. Esse germe, sob a forma de novas circunstâncias históricas, era caracterizado pela miséria do proletariado em meio à abundância, as crises de superprodução, a frenética busca de mercados, os problemas sociais e econômicos. Todos esses problemas, juntos, geraram a crise do mundo liberal capitalista e a Primeira Grande Guerra representou na prática o início desta crise.
Os homens da época, mesmo às vésperas do conflito, não acreditavam na possibilidade de uma guerra longa e generalizada. Levantavam a possibilidade de uma guerra rápida e localizada, nos moldes das ocorridas no século XIX, e, acima de tudo, necessária a solução dos problemas europeus.
Mas o longo período de relativa paz mantida desde o fim das guerras napoleônicas e o “equilíbrio europeu” estabelecido no Congresso de Viena em 1815 terminaram. Ofuscada pelos esforços de guerra, a Europa declinou. Os problemas sociais e econômicos agravaram-se: a classe média se pauperizou e a pressão operária aumentou. Em meio à guerra, a Revolução Socialista explodira na Rússia, e, agora, representava uma ameaça para a Europa e o capitalismo.
“Muitos historiadores tem chamado a atenção para a atmosfera que por toda a Europa em 1914 promovia uma mentalidade bélica, e para a excitação gerada pela declaração de guerra. Em agosto de 1914, os jovens clamavam por serem convocados. Não só na Alemanha, mas também na Grã-Bretanha, na França e na Rússia, considerava-se que a guerra oferecia uma fuga pitoresca de uma vida aborrecida, dando oportunidade ao heroísmo individual e aos atos de rebelde bravura.
As teorias da evolução e as noções populares a respeito da sobrevivência dos mais aptos derramavam-se sobre o pensamento nacionalista. Os países precisavam expandir sua influência, ou entrariam em decadência. (...) Havia uma competição aguda entre todas as grandes potências européias pela influência e domínio sobre o mundo menos civilizado, por motivos tanto políticos quanto econômicos.
Os países entraram em guerra porque acreditavam que podiam conseguir melhores resultados por meio da guerra do que por negociações diplomáticas, e achavam que, se permanecessem de fora, seu status de grandes potências seria gravemente abalado. Esse foi seu maior equívoco”. (HENING, Ruth. As origens da Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1991. pp. 65-70.).

Até 1914 – Hegemonia da Europa
Apesar do desenvolvimento dos Estados Unidos e do Japão, a Europa exercia em 1914 a supremacia econômica e política sobre o resto do mundo. Econômica porque controlava a maior parcela da produção mundial, 62% das exportações de produtos fabris e mais de 80% dos investimentos de capitais no exterior, dominando e ditando os preços no mercado mundial. Era a maior importadora de produtos agrícolas e matérias-primas dos países que hoje compõem o Terceiro Mundo. Hegemonia política porque na sua expansão, o capitalismo europeu gerou à necessidade de controlar os países da Ásia, África e América Latina.
Á Europa era desigual quanto à estrutura econômica e política. Dos 23 Estados europeus, 20 eram Monarquias e só a França, Suíça e Portugal eram Repúblicas. Os regimes políticos eram constitucionais, mas o Parlamentarismo, forma típica do Liberalismo Político, só existia de fato na Grã-Bretanha, Bélgica e França, pois os demais países, apesar de constitucionais, possuíam formas autoritárias de governo, como a Áustria-Hungria e a Alemanha.
Os problemas sociais refletiam a diversidade das estruturas sócio-econômicas. Nos países da Europa Centro-Oriental a nobreza predominava. Já nos países da Europa Ocidental, a industrialização colocara frente a frente a burguesia e a classe operária. Entretanto, a ameaça de uma revolução social era remota naquele momento, pois a maioria dos partidos socialistas tendia à moderação, aderindo ao jogo político do Liberalismo. As únicas exceções eram algumas facções de esquerda, como os Bolchevistas russos.
Só os Estados Unidos e o Japão colocavam-se fora da influência européia, disputando com o capitalismo europeu “áreas de influência”. Em 1914 os Estados Unidos já eram potência econômica mundial, controlando pequena parcela do mercado mundial e recebendo investimentos da Europa. O Japão, após sua “abertura ao Ocidente”, desenvolveu-se rapidamente via Revolução Meiji, passando a integrar-se ao círculo das nações imperialistas voltando suas vistas para a China e a Manchúria, na Ásia.

Alianças e choques Internacionais no período anterior à Guerra
O clima internacional na Europa era carregado de antagonismos que se expressavam na formação de alianças secretas ou em sistemas, tornando a ameaça de uma guerra um fato consumado.
O desenvolvimento desigual dos países capitalistas, a partir de fins do século XIX, levara países que chegaram tarde à corrida neocolonialista internacional, como a Alemanha, a reivindicarem uma redivisão do território econômico mundial, acentuando a rivalidade na luta por mercados consumidores, aquisição de matérias-primas fundamentais e áreas de investimentos. Essas rivalidades imperialistas se refletiam em âmbito mundial devido à interdependência criada entre as economias das diversas regiões do mundo pela expansão do capitalismo. Daí decorre o caráter mundial do conflito. Existiam inúmeros pontos de atrito entre as potências, os principais eram:
1° – O conflito Anglo-germânico: a Alemanha, unificada tardiamente e tendo se desenvolvido “rompendo etapas” no final do século XIX, já desalojara a Inglaterra da sua posição de “oficina do mundo”, mas não possuía colônias, áreas de investimentos e outros mercados correspondentes à sua pujança econômica, daí a política agressiva expressa também na corrida naval, o que foi considerado uma ameaça à secular hegemonia marítima inglesa;
2° - O entrechoque Franco-alemão: girava principalmente em torno da questão da Alsácia-Lorena, territórios franceses anexados à Alemanha em 1871. Os alemães se opunham também à penetração francesa no Marrocos, o que “ameaçava” a “paz mundial”, fato demonstrado com os incidentes de Tânger (1905), Casablanca (1908) e Agadir (1911);
3° - A oposição Austro-russa: acentuado quando os russos, afastados do Extremo Oriente após a derrota para o Japão em 1905, voltaram suas atenções para os Bálcãs, onde passaram a apoiar à Sérvia, foco de agitação nacionalista anti-austríaca. Necessitando de uma saída para o mar, os russo ameaçavam a tradicional hegemonia austríaca na região;
4° - O antagonismo Russo-alemão: disputavam o controle dos Estreitos de Bósforo e Dardanelos, já que a rota do expansionismo russo cortava a do imperialismo alemão (Construção da ferrovia Berlim-Bagdá);
5° - As rivalidades Austro-sérvias: nos Bálcãs, a Sérvia fomentava as agitações nacionalistas dentro do Império Austro-Húngaro, levando a constantes atritos e a um quase conflito em 1908, quando a Áustria ocupou a Bósnia-Herzegovina e em 1912 quando uma coligação de países balcânicos passou a lutar contra o Império turco-otomano, acirrando as tensões. Foi esse último foco de atritos, envolvendo os interesses dos sistemas de alianças, que provocou o início do “grande guerra”, em 1914.
No plano ideológico a época se caracterizou pela intensificação dos nacionalismos, os quais serviam para encobrir as ambições imperialistas: podem ser mencionados o Pan-germanismo (Alemanha), o Revanchismo (França) e o Pan-eslavismo (Rússia).
Para sustentar o nacionalismo agressivo e o imperialismo beligerante, os países empreenderam a corrida armamentista. Intensificou-se a produção de armas e munição, desenvolveu-se a construção naval e aumentaram-se os exércitos: era a “Paz Armada”.
“Se a Alemanha fosse extinta amanhã, depois de amanhã não haveria um só inglês no mundo que não fosse rico. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou um direito de sucessão - não deveríamos nós lutar por um comércio de duzentos e cinqüenta milhões de libras? A Inglaterra deve compreender o que é inevitável e constituir sua mais grata esperança de prosperidade. A Alemanha deve ser destruída“. (Trechos de The Saturdaw Review, citado por BURNS, pág. 784.)
Essa atmosfera de tensão explica a formação de dois sistemas de alianças: A Tríplice aliança, aparentemente mais coesa, agrupava Alemanha, Áustria-Hungria e Itália. O outro sistema era a Tríplice Entente, formada de uma aliança militar (a franco-russa) e dois acordos (a Entente Cordiale – franco-inglesa — e o Acordo anglo-russo). Os vínculos entre tais países eram mais frágeis do que aqueles que entrelaçavam o “sistema alemão” e tinha contra si a fragilidade social, política e econômica da Rússia, sendo também difícil prever o comportamento da Inglaterra antes de iniciar-se um conflito armado.
O assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-húngaro, por um estudante Sérvio, Gravillo Princip, ligado a organização terrorista Mão Negra, foi a causa imediata da primeira guerra mundial. A partir deste fato, os sistemas de alianças entraram em funcionamento e o conflito se generalizou:
1 - a Áustria, apoiada pela Alemanha, exigiu reparação da Sérvia. Não sendo atendida integralmente, declarou guerra aos Sérvios.
2 - a Rússia mobilizou as tropas em defesa da Sérvia. A 01 de agosto a Alemanha declarou guerra à Rússia e, dois dias após, à França.
3 - Imediatamente a Bélgica foi invadida, ignorando a Alemanha a sua neutralidade, o que levou em 04 de agosto, a Inglaterra a declarar-lhe guerra.
4 – A Itália se omitiu, embora pertencesse à Tríplice Aliança, argumentando que o seu compromisso com a Áustria e com a Alemanha previa sua participação apenas no caso de tais países serem agredidos. Posteriormente apoiaria à Entente.
No início da guerra, sete Estados já se achavam envolvidos diretamente: Áustria-Hungria, Rússia, Sérvia, Inglaterra, Bélgica, França e Alemanha. Á 23 de agosto, o Japão juntou-se aos Aliados e, em novembro, a Turquia aderiu às Potências Centrais. A guerra tomou um caráter mundial à medida que as colônias desses países se viram envolvidas.

A “Guerra de Movimentos”
Em 1914, a tendência principal foi dada pela ofensiva alemã na frente ocidental, com a penetração em território francês, e pelo avanço nos Bálcãs, onde a presença turca foi essencial. Entretanto, em setembro a ameaça que pesava sobre Paris foi detida pela batalha de Marne, evento que levou à estabilização da frente ocidental. Por mar, a Alemanha foi bloqueada pelos Aliados e suas colônias ocupadas, ao mesmo tempo em que os alemães iniciavam a campanha submarina, provocando enormes perdas aos Aliados. Na frente oriental, a ofensiva russa foi detida pelas vitórias alemãs nos Lagos Mazurinos e em Tannenberg.

A “Guerra de Trincheiras”
Os anos de 1915 e 1916 foram caracterizados, na frente ocidental, pela “guerra de trincheiras”. O ano de 1915 foi marcado por gigantesca ofensiva alemã na frente oriental visando eliminar a Rússia, antes de se voltar contra a França.
A partir de 1916, o principal cenário da guerra foi a frente ocidental, onde se defrontavam franceses e alemães, destacando-se a batalha de Verdun, que paralisou a ofensiva germânica. Na Europa Oriental, a Entente realizou uma ofensiva que estimulou a entrada, ao seu lado, da Romênia, logo ocupada pelas Potências Centrais. No tocante ao enfrentamento nas trincheiras, “ A vida para o soldado comum na frente ocidental alternava-se entre a monotonia cotidiana e o extremo desagrado de semanas a fio nas trincheiras lamacentas e infestada de vermes, cabendo-lhe ocasionalmente a horrenda experiência de batalha, um pesadelo não só de artilharia, metralhadoras e arame farpado, mas também de balas explosivas, fogo liquido e gases venenosos. Batalhas que não levavam a quase nada devoravam os homens que nela combatiam. Mais de 600.000 homens foram mortos e feridos quando os alemães sitiaram sem êxito o reduto de Verdum, perto da fronteira oriental da França, durante seis meses, em 1916. Na batalha do rio Somme, que durou de julho a outubro de 1916 e que rendeu aos ingleses e franceses apenas alguns quilômetros, o alemães perderam 500.000 homens, os ingleses 400.000 e os franceses 200.000. Ainda que a guerra, devido a sua natureza imobilista, tenha feito um número relativamente pequeno de baixas civis, a quantidade total foi espantosa: de um total estimado de 65 milhões de homens que lutaram sob a bandeira dos vários beligerantes, 13 milhões morreram e quase outros 20 milhões ficaram feridos”. (BURNS, op. cit. p. 674).
Ao pensarmos a “grande guerra” como um conflito de pouca mobilidade e confrontarmos esse conceito, no sentido militar da expressão, com a realidade das estatísticas, parece-nos nada exagerado adjetivá-la como uma das guerras mais cruentas da História do homem.
1917 – Ano Decisivo para a Guerra
O desfecho do conflito iniciou-se em 1917, caracterizando-se pelo agravamento da campanha submarina alemã, mesmo contra os navios neutros; pela entrada dos Estados Unidos no conflito e a retirada da Rússia da guerra, após a vitória da Revolução socialista. A entrada norte-americana no conflito foi decisiva porque todos os países envolvidos enfrentavam naquele ano problemas internos: a Rússia assistiu à deposição da Monarquia em março e à tomada do poder pelos Bolcheviques em novembro; na França, após fracassada ofensiva, as tropas se amotinaram; a Inglaterra estava à beira do colapso e mesmo entre as Potências Centrais a situação não era boa, uma vez que a campanha submarina alemã fracassara e as dificuldades de abastecimento eram enormes.
O acontecimento principal, entretanto, foi a adesão dos Estados Unidos às potências da Entente, praticamente decidindo o curso da guerra. Desde o início, os EUA financiavam o esforço de guerra franco-inglês, sem, no entanto, abdicar de sua neutralidade. Mas a ameaça de uma derrota da Entente, o que poria em risco os investimentos norte-americanos nesses países, foi aos poucos levando os EUA a abandonar sua neutralidade. Os acontecimentos se precipitaram quando a Alemanha declarou ao Presidente Wilson sua intenção de bloquear as ilhas britânicas e a França, tornando perigosa a situação dos navios neutros. Uma campanha da imprensa estimulou a entrada dos EUA na guerra e, em abril, o Congresso, por proposta de Wilson, declarou guerra à Alemanha.
A contribuição norte-americana foi decisiva: financeiramente, os EUA passaram a auxiliar diretamente os países da Entente; economicamente, a entrada em cena dos contingentes norte-americanos rompeu um equilíbrio de forças que era mantido precariamente pelas Potências Centrais; diplomaticamente, a maioria dos países da América Latina declarou guerra às Potências Centrais.

1918 – A Vitória final do Aliados
O inicio de 1918 foi inaugurado pela enorme ofensiva das Potências Centrais contra a Entente, visando impor condições a esta, antes que as tropas norte-americanas chegassem à Europa. Nesse ano, foram utilizadas as inovações bélicas (tanques, aviões, gases venenosos etc.), recomeçando a “guerra de movimento”. Entretanto, a ofensiva alemã foi paralisada na segunda batalha de Marne. A balança de forças se inclinou definitivamente para a Entente, que iniciou uma contra-ofensiva de grandes proporções, levando os alemães ao recuo.
Na Europa Oriental, a Bulgária capitulou, o mesmo ocorrendo com a Turquia que, ameaçada pelas vitórias inglesas na Síria e no Iraque, decidiu depor as armas. A Hungria foi ameaçada e os italianos, em Vittorio Veneto, iniciaram grande ofensiva. O Império Austro-Húngaro se decompôs porque suas nações proclamaram independência. Só a Alemanha prosseguiu na guerra, mas a partir de novembro, com a ameaça representada pela revolta comunista, as elites alemãs e a cúpula de seu exercito derrubaram o Kaiser e proclamaram a República. A 11 de novembro, os representantes do Governo Provisório alemão assinaram em Rethondes o armistício que punha fim à guerra.

Problemas causados pela Guerra
Esta foi a primeira guerra da qual participaram todas as principais potências do mundo, embora de certa maneira não tivesse deixado de ser, no fundo, uma “guerra civil européia”. As guerras anteriores, contudo, se restringiram à Europa e eram travadas, na sua maioria, entre Estados de economia agrícola. Em 1914 foi diferente: as principais potências envolvidas eram industriais, foram utilizados todos os novos experimentos técnicos com um poder de destruição nunca antes vivenciado pela humanidade.
A Primeira Grande Guerra, pela sua duração e, amplidão, levou à necessidade de mudança de atitude do Estado em relação à economia nacional. Cada Estado passou a controlar ou a submeter à sua autoridade a direção da economia, tomando medidas que revolucionaram os hábitos tradicionais, colocando em xeque as concepções doutrinárias tradicionais, uma vez que os diversos Estados:
01 – recrutaram obrigatoriamente os civis, já que, em pouco, as “reservas de homens” se tinham esgotado;
02 – modernizaram e intensificaram a produção de material bélico; dispuseram da mão-de-obra e regulamentaram seu emprego.
A economia de guerra, que suprimiu a liberdade econômica, incluiu a fixação dos preços de venda das mercadorias e o racionamento mediante o estabelecimento de cotas de consumo à população civil. Proibia-se ou se liberava a importação de produtos de primeira necessidade e se controlavam os transportes, inclusive com o congelamento dos fretes. As fábricas deveriam produzir apenas artigos de guerra, os salários ficavam congelados e proibidas as greves.
O financiamento da guerra ultrapassou as expectativas, tendo os Estados recorrido aos empréstimos externos e internos, destacando-se também o problema dos abastecimentos: pela primeira vez na História adotou-se o racionamento, iniciado na Alemanha e estendido a todos os países, em maior ou menor grau. A vida tornou-se muito difícil para a população civil, que teve seu poder aquisitivo diminuído com a alta desenfreada dos preços e o congelamento salarial em um momento em que a greve era proibida por ser considerada atividade “antipatriótica”.

Problemas Políticos e Sociais
As liberdades políticas foram suspensas e os Parlamentos deixaram de ter voz ativa, uma vez que a urgência das medidas a serem adotadas levou à iniciativa constante do Executivo: “A disciplina imposta pela guerra incrementou a autoridade dos ‘notáveis’ a quem os progressos da Democracia obrigavam, antes, a recuar lentamente: não só a autoridade dos chefes militares, ciosos de suas prerrogativas e cujas altercações com os governos civis nem sempre terminavam com a vitória destes últimos, mas também a da burguesia que fornece a quase totalidade dos quadros do exército (...) A luta contra as opiniões prejudiciais à Defesa Nacional, contra o derrotismo, estende-se não apenas a toda critica dos atos do comando ou do governo, mas a toda opinião que ponha em perigo a União Sagrada discutindo a estrutura social, o exercício da autoridade patronal ou os problemas religiosos.” (CROUZET, M. história geral das civilizações, V.15. P.31).
Toda essa situação foi-se tornando insustentável durante o desenrolar do conflito. Começaram a se desenvolver, com diferentes gradações, opiniões pacifistas nos próprios governos e a oposição socialista continental aumentou. Em 1915 socialistas russos exilados, suíços, italianos, alemães e franceses realizaram em Zimmerwald, na Suíça, um congresso negando a União Sagrada e exigindo “uma paz, sem anexação e sem indenização”. As greves, mesmo proibidas, aumentaram e, na Rússia, o Czarismo foi derrubado com participação da própria burguesia, ao mesmo tempo em que se desenvolvia a Revolução Socialista (1917).

Repercussões da Guerra
Do ponto de vista econômico, a guerra produziu crescente desequilíbrio entre a produção e o consumo, manifestando-se uma crise econômica que teve na inflação seu aspecto mais importante. Essa precária situação econômica, que marcou o declínio relativo da Europa, ocasionou grande desequilíbrio social, destacando-se a pauperização da classe média e o aumento da pressão operária através dos sindicatos controlados pelos partidos socialistas, que se dividiram.
“Até aqui, era um fato elementar (...) que a Europa dominava o mundo com toda a superioridade de sua grande e antiga civilização. Sua influência e seu prestígio irradiavam, desde séculos, até as extremidades da Terra (...) Quando se pensa nas conseqüências da Grande Guerra, que agora finda, pode-se perguntar se a estrela da Europa não perdeu seu brilho, e se o conflito do qual ela tanto padeceu não iniciou para ela uma crise vital que anuncia a decadência (...)”. (DEMANGEON, A. Le Déclin de L’Europe, Payot, págs. 13 e 14.)
A ameaça de revolução pairava sobre a Europa, especialmente nos países derrotados. Tal situação levou a concessões por parte dos setores dominantes, ocorrendo, em contrapartida, o fortalecimento crescente das classes trabalhadoras através da ampliação da legislação social.
Politicamente, a guerra, em um primeiro momento, assinalou a vitória dos princípios liberais e democráticos, com o desaparecimento dos Impérios Alemão, Austro-Húngaro, Russo e Turco otomano e a adoção do regime republicano em quase todos os países. Essa tendência, porém, revelou-se muito breve, uma vez, que a crise que se seguiu à guerra, provocando a intranqüilidade e a instabilidade sociais, levou ao estabelecimento de ditaduras: aprofundava-se a crise do Estado Liberal.

Tratados de Paz: a Conferência de Paris.
Em janeiro de 1919 reuniu-se em Paris uma conferência de paz, na qual eram representados 32 países - Aliados ou neutros. Os países vencidos e a Rússia não participaram. Tal situação inicial já mostrava o objetivo de impor uma “paz cartaginesa” (severa) aos derrotados.
Desde janeiro de 1918 que, em uma mensagem ao Congresso, o Presidente norte-americano Wilson tinha estabelecido os Quatorze Pontos que deveriam, segundo ele servir de base aos futuros tratados regulamentadores da paz. Podemos destacar os seguintes Pontos:
1) abolição da diplomacia secreta;
2) livre navegação nos mares;
3) supressão das barreiras econômicas;
4) redução dos armamentos nacionais aos limites compatíveis com a segurança interna do país;
5) restauração da independência da Bélgica;
6) restituição da Alsácia e da Lorena à França;
7) autonomia para as nacionalidades do Império Austro-Húngaro;
8) regulamentação amigável das questões balcânicas;
9) reconstituição de um Estado polonês, com livre acesso ao mar;
10) instituição de uma Sociedade das Nações destinada a garantir a independência e a integridade territorial de todos os Estados.
As figuras principais da Conferência foram os representantes da França (Clemenceau), Inglaterra (Loyd George) e Estados Unidos (Wilson) que concordaram em fundar a Sociedade das Nações. Posteriormente, foram assinados tratados em separado que regulamentaram a paz entre vencedores e vencidos.

O “Tratado” de Versalhes
Regulava a paz com a Alemanha, sendo composto de 440 artigos; ratificado pela Alemanha em 28 de junho de 1919, na Galeria dos Espelhos. Suas clausulas principais foram as seguintes:
1) Cláusulas de segurança (exigidas pela França, que temia a desforra dos alemães: proibição de fortificar ou alojar tropas na margem esquerda do Reno, totalmente desmilitarizada; fiscalização do seu desarmamento por uma comissão interaliada; em caso de agressão alemã à França, esta receberia auxílio anglo-norte-americano; redução dos efetivos militares; supressão do serviço militar obrigatório, sendo o recrutamento feito pelo sistema de voluntariado; supressão da marinha de guerra; proibição de possuir submarinos, aviação de guerra e artilharia pesada.
2) Clausulas territoriais: devolução da Alsácia-Lorena à França, de Eupen e Malmédy à Bélgica, do Slesvig à Dinamarca; entrega de parte da Alta Silésia à Tchecoslováquia; cessão da Pomerânia e da Posnânia à Polônia, garantindo-lhe uma saída para o mar, mas partindo em dois o território alemão pelo corredor polonês; renúncia a todas as colônias que foram entregues à França e à Inglaterra; entrega de Dantzig, importante porto do Báltico, à Liga das Nações, que confiou sua administração à Polônia.
3) Cláusulas econômico-financeiras: a título de reparação, deveria entregar locomotivas, parte da marinha mercante, cabeças de gado, produtos químicos; entrega à França da região do Sarre, com o direito de explorar as jazidas carboníferas aí existentes, durante 15 anos; durante dez anos, fornecimento de tonelagens de carvão à França, Bélgica e Itália; como “culpada pela guerra”, pagaria, no prazo de 30 anos, os danos materiais sofridos pelos Aliados, cujo montante seria calculado por uma Comissão de Reparações (em 1921, foi fixado em 400 bilhões de marcos).
4) Cláusulas diversas: reconhecimento da independência da Polônia e da Tchecoslováquia; proibição de se unir à Áustria (“Anchluss”); responsabilidade pela violação das leis e usos da guerra: utilização de gases venenosos e atrocidades diversas; reconhecimento dos demais tratados assinados.
“Artigo 159 – As forças militares alemãs serão desmobilizadas e reduzidas como se prescreve adiante.
Artigo 160 – Numa data que não deve ser posterior a 31 de março de 1920, o Exército Alemão não deve compreender mais que sete divisões de infantaria e três divisões de cavalaria. Depois daquela data, o número total de efetivos no Exército dos Estados que constituem a Alemanha, não deve exceder o de cem mil homens...
Artigo 198 – As forças armadas da Alemanha não devem incluir quaisquer forças militares aéreas e navais...
Artigo 231 – Os Governos Aliados e Associados afirmam e a Alemanha aceita a sua responsabilidade e de seus Aliados por ter causado todas as perdas e prejuízos a que os Aliados e governos associados e seus membros foram sujeitos como uma conseqüência da guerra, imposta a eles pela agressão da Alemanha e de seus aliados.
Artigo 232 – Os Governos Aliados e Associados reconhecem que os recursos da Alemanha não são adequados, depois de levar em conta as diminuições permanentes desses recursos, que resultarão de outros itens deste Tratado, para realizar a indenização completa por todas essas perdas e danos”. (FENTON, Edwin. 32 Problemas na História Universal. São Paulo: Edart, 1995. pp. 134-135.).

Outros “Tratados” de Paz
No mesmo ano, foram assinados tratados de paz em separado com os demais vencidos consagrando modificações de fato já ocorridas, como o desmembramento dos Impérios Austro-Húngaro, Russo e Turco-otomano. Os tratados de paz refletiram o caráter imperialista da guerra. Embora a tendência na década de 1920 fosse a de se estabelecer um “esfriamento” nas relações internacionais, a paz rigorosa imposta aos vencidos, sobretudo à Alemanha, aumentou os antagonismos.
Fora da Europa, os principais beneficiários da guerra foram o Japão, que manteve a ocupação de colônias da Alemanha no Pacífico e se apossou das concessões alemãs na China e os Estados Unidos da América, não-participantes da guerra nos seus 03 primeiros anos iniciais, que pagaram suas dívidas além de colocarem sob sua dependência econômica grande parte das potencias capitalistas situadas na Europa e fora delas.
Inglaterra e a França receberam da Liga das Nações antigas colônias alemãs na África, sob a forma de mandatos.
A Rússia, ignorada pelas potências ocidentais na convocação para a Conferência de Paris, teve seus territórios invadidos pelos antigos aliados; o fracasso da intervenção militar resultou em uma política de isolamento do primeiro Estado socialista do mundo: a Política do “Cordão Sanitário”.
A guerra também abalou o Liberalismo Político e Econômico e a Revolução Russa comprovou, pelo menos parcialmente, a aplicabilidade das teorias socialistas do século XIX. A guerra não pusera fim às rivalidades. Estas voltariam a cena, pois em Versalhes foram lançadas as sementes da Segunda Guerra Mundial.
Segundo o historiador Maurice Crouzet, “A primeira guerra mundial, anunciada como ‘a guerra para terminar com todas as guerras’, além de preparar conflitos posteriores ainda mais graves, deixou fixa a imagem de devastações e morticínios. Perto de treze milhões foram mortos e vinte milhões feridos. As despesas bélicas não apresentam termos de comparação com as guerras precedentes e as devastações infligidas aos países em cujos territórios se desenvolveram as operações ou devido à campanha submarina alcançam números vertiginosos. Levando em conta a alta dos preços, o custo total do conflito representa 30% da riqueza nacional francesa, 22% da alemã, 32% da inglesa, 26% da italiana e 9% da norte-americana”. (CROUZET, Maurice. op. cit. p. 45).

Texto complementar
Em 1929, o romancista alemão Erich Maria Remarque (1898-1970), publica Nada de novo no front (Im Westen Nichts Neues), o livro mais conhecido sobre a Primeira Guerra Mundial e que se tornou best-seller mundial. Escrito por um homem que serviu no exército alemão, na dedicatória, Remarque volta-se para as gerações futuras dizendo: “Este livro não pretende ser um libelo nem uma confissão, e menos ainda uma aventura, pois a morte não é uma aventura para aqueles que se deparam face a face com ela. Apenas procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra. (...) Estamos no outono. Dos veteranos, já não há muitos. Sou o último dos sete colegas de turma que vieram para cá. Todos falam de paz e armistício. Todos esperam. Se for outra decepção, eles vão-se desmoronar. As esperanças são muito fortes; é impossível destruí-las sem uma reação brutal. — Se não houver paz, então haverá revolução. Tenho catorze dias de licença, porque engoli um pouco de gás. Num pequeno jardim, fico sentado o dia inteiro ao sol. O armistício virá em breve, até eu já acredito agora. Então iremos para casa.
(...) Levanto-me. Estou muito tranqüilo. Que venham os meses e os anos, não conseguirão tirar nada de mim, não podem tirar-me mais nada. Estou tão só e sem esperança que posso enfrentá-los sem medo. A vida, que me arrastou por todos estes anos, eu ainda a tenho nas mãos e nos olhos. Se a venci, não sei. Mas enquanto existir dentro de mim — queira ou não esta força que em mim reside e que se chama “Eu” — ela procurará seu próprio caminho. Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranqüilo em toda a linha de frente, que o comunicado se limitou a uma frase: “Nada de novo no front. Caiu de bruços, e ficou estendido, como se estivesse dormindo. Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena, que quase parecia estar satisfeito de ter terminado assim.”. (REMARQUE, Ercih Maria. Nada de Novo no Front. Trad. Helen Rumjanek. São Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial, 1974. (Coleção Clássicos Modernos). pp. 234-35.).

Um comentário:

  1. De que maneira os sistemas de alianças acabaram generalizando o conflito de 1914?
    Por favor, me ajuda com essa pergunta !!
    Manada pro meu e-mail se possivel> amandamainenti@hotmail.com

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