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terça-feira, 11 de agosto de 2009

SOBRE A HISTÓRIA DE Campina Grande - TURMAS DO PADRÃO

Campina linda e grande (Parte I)
Damião de Lima

Estava findando o ano de 1687 quando o apresador de índios Teodósio de Oliveira Ledo de posse de uma leva de índios que tinham sido aprisionados na região, hoje denominada de sertão paraibano, resolve não levá-los à capital da província e aldeá-los em uma grande Campina no topo da Serra da Borborema. No ano seguinte, um franciscano inicia a obra de catequização desses indígenas e, assim, começa a história da Rainha da Borborema. Localizado em posição geográfica privilegiada, o aldeamento evolui, em 1769, alcança a categoria de freguesia e vinte e um anos depois é elevada à categoria de vila, sendo denominada de Vila Nova da Rainha. A vila cresce e ganha destaque por seus ranchos, tornando-se ponto de encontro e de descanso de tropeiros, vindo das diversas localidades da província. Com o aumento do número de tropeiros e do tráfego entre eles, a vila torna-se, naturalmente, um entreposto comercial e aos poucos forma-se uma feira. As feiras sempre foram e continuam sendo, em algumas cidades do Nordeste, o principal fator de dinamização econômica, além de espaço de discussão política e elemento difusor de idéias e ideologia. Durante séculos, era nas feiras onde se tomava pé das novidades e das decisões do governo local ou mesmo da corte, sendo assim, era nas feiras, também, onde se iniciavam as revoltas e rebeliões contra essa ou aquela medida governamental. Os movimentos sociais no Nordeste sempre tiveram seus ideais difundidos durante as feiras e, em alguns, deles os contendores aproveitaram o dia da feira para expressar o seu descontentamento chegando, em alguns casos, às vias de fato. Durante o império, dois fortes movimentos ocorridos na região Norte, hoje conhecida como Nordeste, tiveram presença marcante da população de Campina Grande. Trata-se do movimento conhecido como Ronco da Abelha ou Zumbido do Maribondoe o movimento de Quebra Quilos. São registradas, também, conspirações e participação de pessoas da Vila Nova da Rainha em outros dois importantes movimentos ocorridos na região Nordeste, na Revolução Pernambucana de 1817 e na Revolta Praieira de 1848. Ainda durante o Império, através da Lei Provincial Nº 137 de 11/10/1864, Campina Grande alcança a condição de cidade. Com o passar dos anos, o município vai ganhando importância, e cresce o movimento de tropeiros de diversas regiões da província, bem como, de outras províncias da região, atraídos pela já afamada feira de Campina Grande. O incremento da economia levou ao estabelecimento de comércio fixo e, conseqüentemente, a maior urbanização. Mesmo tendo o comércio do algodão como carro chefe, com o crescimento da cidade, outras atividades comerciais vão aparecendo e se fixando, com isso o comércio torna-se mais diversificado, aumentando sempre o número de tropas de burros carregadas de mercadorias. No início do século passado aumenta, ainda mais, a importância do município de Campina Grande no cenário nordestino. A chegada da estrada de ferro, em 1907, dinamiza as atividades mercantis, tornando a cidade o grande ponto de confluência do Estado, sobrepujando, em termos econômicos, outros centros comerciais e urbanos que vinham tendo destaque no Estado. Durante os primeiros anos do século passado, a cidade continua a crescer e chega aos anos 20 com considerável número de moradias e habitantes para a época, os símbolos do progresso e as novidades lançadas em nível nacional não tardavam a chegar à cidade. O ano de 1920 pode ser considerado um marco neste sentido. Nesse ano, foram instalados pelo Professor Clementino Procópio, diversos telefones de veio e, em 29 de setembro de 1920 tem início o serviço de fornecimento de energia elétrica, sendo assim, inaugurada a iluminação pública das principais ruas com energia gerada por motores a óleo diesel. Para explorar o sistema de energia elétrica, foi constituída a firma J. Brito & CIA, transformada alguns anos depois, na S. A. Empresa de Luz e Força, que administrou o sistema de distribuição de energia elétrica até 1944. Durante a primeira metade do século passado, a cidade de Campina Grande ganha novos contornos e embeleza-se atraindo vultosos investimentos, bem como uma leva de novos habitantes que migram das mais diversas regiões do Estado e também dos Estados circunvizinhos, vinculados ao comércio campinense. Assim como os investimentos, estes novos imigrantes vêm em busca de novas oportunidades e a cidade responde, tornando-se maior e mais próspera, respondendo aos anseios dos que procuram da educação à diversão. Durante os anos 30, o discurso da era Vargas preconizava que era necessário criar parques industriais modernos e as cidades, além da urbanização, tinham que oferecer conforto para os seus habitantes. Nesse período, afinadas com esse discurso, as autoridades campinenses moldavam à cidade dentro desses padrões, Campina Grande mantém o seu ímpeto de crescimento e os investimentos continuam a ser feitos em todos os setores. Em 1937, antes mesmo da radicalização de Vargas com a implantação da política do “Estado Novo”, Campina sai na frente e toma medidas no sentido de modernizar-se para atrair novos investimentos e dar mais conforto aos seus habitantes. Nesse ano, 1937, foram implantados diversos novos serviços na cidade tais como: a) o assentamento do primeiro serviço de água e esgotos; b) início da construção do açude de Vaca Brava para abastecer a cidade e; c) inauguração do serviço de telefones automáticos. Em janeiro de 1938 foi criada a Repartição de Saneamento de Campina Grande, subordinada ao Estado e iniciou-se o serviço de água e esgotos com sete chafarizes e cerca de trinta instalações sanitárias em domicílios. No final dos anos 30, a cidade respirava desenvolvimento. No início dos anos 40, mesmo sob a ditadura do Estado Novo, a cidade vive em franca efervescência devido ao clima da II Guerra Mundial. O município de Campina Grande se vê envolvido por este clima de guerra nos mais variados aspectos. Antes mesmo de o Brasil declarar guerra aos países do eixo, é grande a mobilização de tropas das diversas armas na cidade. Em 1941, instala-se em Campina Grande uma guarnição federal, o 1º Grupo de Obuses, com 03 baterias e defesa antiaérea. O ano de 1942 é marcado, na cidade, por muita mobilização de tropas, bem como, por manifestações relacionadas à guerra. Nesse ano, foi inaugurado um novo quartel e instalado o 22º Batalhão de Cavalaria; iniciada a construção do aeroporto do Ministério da Aeronáutica; instalado o quartel general da 7ª Divisão de Artilharia Divisionária do Nordeste, só extinta em janeiro de 1944, e instalado o 40º Batalhão de Cavalaria. Ocorre também, nesse ano, a primeira experiência de defesa passiva Antiaérea, conhecida como black-out. Esse clima de beligerância chega até à população. Durante os três anos de participação do Brasil na guerra intensifica-se, ainda mais, a movimentação de tropas na cidade. Nesse período, foi construído o quartel do Exército ainda hoje funcionando no atual bairro da Palmeira. Aquartelou-se na cidade, vindo do Rio, o 3º Grupo do 5º Regimento de Artilharia de Divisão de Cavalaria, que ficou na cidade por três meses, de março a junho 1944; foi instalado um destacamento de Serviço Geográfico do Exército que ficou na cidade por um ano e foram instalados mais dois Batalhões de Cavalaria, o 30º e o 31º BC. Porém, a cidade não era apenas guerra. Todos os outros setores continuavam funcionando e em alguns casos até com muita efervescência como é o caso da economia que sofre com o desabastecimento de produtos mais ganha com a exportação de minérios. Em 1942, havia sido instalada na cidade, pelo Ministério da Agricultura, a sede da Divisão do Fomento Mineral (Distrito do Nordeste), que montou o laboratório de produção mineral para análise de minérios. A partir da ação deste órgão e com a entrada do Brasil na guerra, a cidade torna-se grande exportadora de minerais estratégicos. Os minérios, principalmente a tantalita, o berílio, e a xilita, são beneficiados na cidade e exportados para os países produtores de materiais bélicos durante toda a segunda guerra mundial. Durante a guerra, a cidade também ganha novos caminhos por onde escoar seus produtos. Em 1943, teve início os trabalhos da Ferrovia, ligando Campina Grande ao Sertão paraibano com a obra até a cidade de Patos e foi concluída a rodovia ligando Campina Grande a Monteiro, obra que dinamizou o comércio entre o município de Campina Grande e a região dos Cariris Velhos. No campo social, a cidade também evolui bastante com a criação de espaços de lazer, integração social e cultural. Em 1941 foi organizada, por diversos intelectuais conterrâneos e presidida pelo poeta Murilo Buarque, a Academia dos Simples, que realizou, durante dois anos, diversas sessões literárias e foi fundada a Sociedade Médica de Campina Grande. No ano de 1942, a cidade elegeu a primeira diretoria da subsecção da Ordem dos Advogados; foram computados no município nada menos que 24 advogados. Havia também a preocupação com a infância e, neste ano, funda-se uma associação com este objetivo, trata-se da Associação de Proteção e Assistência à Infância. Nesse mesmo ano, ocorre um acontecimento de gala na cidade quando é inaugurado o maior e mais luxuoso hotel do Estado, construído em majestoso edifício de cinco pavimentos, localizado entre as ruas Floriano Peixoto e Maciel Pinheiro. Com o fim da guerra, o município, assim como todo o país, respira liberdade e já em 17 de março de 1945 é inaugurado o cassino do Grande Hotel, onde além dos jogos, travam-se as grandes discussões políticas sobre o destino político do município, do Estado e do País. Na Paraíba cria-se, a espelho do quadro nacional, cinco partidos políticos: a União Democrática Nacional tendo à frente José Américo de Almeida e Argemiro de Figueiredo; o Partido Social Democrático com Rui Carneiro, Severino Procópio e José Joffily; o Partido Popular Progressista com Epitácio Pessoa Cavalcanti e Antônio Pereira de Almeida; o Partido Democrata Cristão com Leopoldino Miranda Freire e Cipriano Galvão da Trindade e o Partido Comunista Brasileiro com João Santa Cruz e Cláudio Agra Porto. Todos com diretório em Campina Grande. A mudança na política econômica nacional no pós-guerra influenciará, novamente, o desenvolvimento local. Com a derrubada de Getúlio Vargas e a ascensão ao poder de Eurico Gaspar Dutra que promove a abertura do país às importações, o comércio, que sempre foi o ponto forte da economia de Campina Grande ganha impulso e a cidade cresce a passos largos, atraindo novos investimentos e novas indústrias. Vive-se, na cidade, a euforia política e econômica do pós-guerra. Durante o ano de 1946, começam a operar na cidade quatro agências de postagem e duas rádios, a Cariri e a Borborema, começa a circular um jornal diário intitulado A Voz do Dia e é inaugurada uma grande sala de projeção de filmes, o Cine Avenida. Nesse mesmo ano, a cidade conta com quatro representantes na Assembléia Constituinte sendo um Senador: Vergniaud Wanderley e três deputados: Argemiro de Figueiredo, Plínio Lemos e José Joffily Bezerra, sendo o Senador e os dois primeiros deputados eleitos pela UDN e o último, eleito pelo PSD. No ano seguinte, 1947, nada menos que quatro companhias aéreas iniciam seus trabalhos na cidade; a viação aérea Baiana (VAB); a Rede Aérea Nordestina (RAN); as Linhas Aéreas Brasileiras (LAB) e; as Linhas Aéreas Paulista. As duas últimas com vôos para Rio de Janeiro e São Paulo. O que se pode observar é que o fim da guerra acelerou o processo de desenvolvimento da cidade, tornando-a a mais importante cidade do interior do Nordeste. No final dos anos 40, dois importantes acontecimentos irão destacar ainda mais o município no âmbito regional, trata-se da inauguração de dois grandes depósitos da Standard Oil Company para abastecimento de todo o interior do Nordeste e da implantação na cidade, em 1949, da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba. Campina Grande é a única cidade, não capital, a sediar a Federação das Indústrias. Todo este desenvolvimento lhe rendeu a alcunha de “Capital do Trabalho” e “Rainha da Borborema”. Como pode ser visto, Campina Grande, desde a sua fundação, conseguiu se inserir em todas as mudanças econômicas vivenciadas pelo Brasil desde o final do século XIX. A título de resumo pode-se citar: o crescimento econômico vivenciado pelo município com o advento da estrada de ferro durante a República Velha; a implantação da indústria de beneficiamento do sisal o do algodão no final dos anos 30, início dos anos 40, reproduzindo, na região, a política econômica defendida nacionalmente pelo governo de Getúlio Vargas; a exportação de minérios para a indústria bélica durante a segunda guerra mundial que colocou o município em sintonia não apenas com a política nacional mas com a política global; e a retomada em grande estilo do comércio varejista de produtos regionais, nacionais e, principalmente, produtos importados de outros países durante a abertura liberal do governo Dutra. É com esse ímpeto que a cidade entra nos anos 50.
Campina linda e grande (Parte II)
Damião de Lima

Ao entrar nos anos 50, o município era o mais dinâmico do Estado da Paraíba e adquiria importância significativa no cenário regional. Claro que tínhamos na região Nordeste outros centros mais desenvolvidos que Campina Grande, no entanto, se tomarmos o desenvolvimento vivenciado por Campina Grande e compararmos com a situação global da região Nordeste, a conclusão a que chegaremos é que a cidade de Campina Grande era um dos oásis no deserto do subdesenvolvimento a que a região estava submetida. As políticas implementadas na região eram, geralmente, ineficazes e atrasadas. Essa realidade global do Nordeste não se refletia em Campina Grande, ao contrário, ao entrar nos anos 50 o município já se destacava como um centro industrial em franca ascensão e continua nesse ritmo durante toda a década de 50, superando a capital do Estado, João Pessoa, em número de operários e de estabelecimentos industriais. Na década de 50, o crescimento industrial de Campina Grande é considerável. Entre 1950/54 o município contribui com 1/3 da arrecadação do Estado, sendo assim dividido: 1950 33%, 1951 38%, 1952 25%, 1953 26%, 1954 32% - apesar de terem ocorrido secas em 1952/53 -, e ser nestes dois anos que se inicia a crise no mercado internacional do agave e do algodão. É importante destacar também o peso político do município, em 1954, Campina Grande constituía-se no maior núcleo eleitoral do Estado, com 55.774 votantes, enquanto João Pessoa contava com 25.575 eleitores. Em 1955, a cidade já contava com 71 estabelecimentos com mais de 05 operários, totalizando nestes estabelecimentos 1.970 operários. Destacava-se a indústria têxtil com 08 estabelecimentos, 693 operários e 45% do valor total da produção, tendo como principal sub-ramo o beneficiamento do algodão e fabricação de redes, sacos, redes de fios, etc. A eleição do Presidente Juscelino Kubitscheck e a sua política desenvolvimentista terão no município grande repercussão. As lideranças políticas, vinculadas ao comércio e, principalmente, ao setor bancário e industrial, que vinham atuando de forma acanhada, passam a ganhar destaque e a exigir que as medidas implementadas nacionalmente fossem estendidas para o âmbito regional e local. Esta euforia não é apenas da cidade de Campina Grande. Durante o governo Juscelino, ocorre através da política desenvolvimentista grande crescimento das cidades, com o slogan prometendo crescimento acelerado, cria-se uma euforia nacional. Como esse crescimento concentrava-se no Centro-Sul, o êxodo rural para essa região alcançou níveis alarmantes. Milhares de imigrantes das mais diversas regiões partiram em busca da região com maior índice de desenvolvimento, gerando o crescimento desordenado nos grandes centros urbanos dessa região. Porém, é preciso destacar que nem todos os imigrantes que abandonavam o campo ou as pequenas cidades do interior se dirigiam para o Centro Sul. Até pelo apego a terra natal tão decantada em verso e prosa pelos poetas nordestinos, era comum, antes de partirem para o distante Sul, esses imigrantes tentarem a sorte nas cidades maiores dentro da própria região. Ou seja, muitos desses imigrantes “optavam” por cidades onde houvesse alguma chance de conseguir emprego e, Campina Grande, sendo a cidade do Estado que apresentava maior ascensão econômica, torna-se pólo de atração para as pessoas que deixam o campo fugindo da seca ou deixam as cidades de menor porte onde as chances de emprego e de melhoria de vida são ínfimas. Outro destaque na questão do êxodo rural é que, a mão de obra com alguma qualificação era aproveitada nas cidades onde existiam oportunidades de emprego, como é o caso de Campina Grande. O êxodo em direção ao Centro Sul era, em sua grande maioria, de pessoas sem nenhuma qualificação profissional. Segundo dados da Delegacia de Polícia de Campina Grande, que realizou o controle nos veículos que trafegavam para o Sul, de 02 de fevereiro a 18 de dezembro de 1956, nada menos que 5.612 homens válidos embarcaram para o Sudeste. Destes 4.772 eram homens entre 20 e 26 anos, sendo 4.315 agricultores e 457 sem profissão. Com o aceleramento do processo de industrialização e urbanização dos anos 50, o país ganha nova configuração. Essas mudanças no campo econômico e demográfico contagiam toda a estrutura social. O crescimento acelerado empolgou o país, mesmo nas regiões periféricas onde os efeitos desse crescimento eram mínimos. A discussão dos efeitos multiplicadores e a possibilidade desse desenvolvimento rápido chegar a essas regiões empolgavam intelectuais e políticos. Essa empolgação era maior onde a possibilidade real de se vincular à política proposta pelo governo central era mais presente, ou seja, em cidades cuja indústria já vinha se destacando como forte atividade econômica e era esta possibilidade que embalava os sonhos das lideranças campinenses, vinculadas ao capital financeiro e a indústria. A discussão em torno da inserção da região Nordeste e, em particular, de Campina Grande no desenvolvimentismo Juscelinista era a ordem do dia na Rainha da Borborema. O setor empresarial da cidade organiza-se e busca novos aliados com o objetivo de pressionar as autoridades federais para que fossem propostas mudanças na forma e no conteúdo da intervenção estatal na região. Cobrava-se, já no início do governo Kubitscheck, que a política desenvolvimentista pautada no uso de novas tecnologias e tendo como ponto forte a industrialização, fosse estendida para o Estado da Paraíba. Essa discussão sobre o desenvolvimentismo trouxe à tona um ponto nevrálgico da política de crescimento acelerado, proposto pelo presidente Juscelino no seu plano de metas, trata-se dos desequilíbrios ou desigualdades regionais. Esse problema é secular, desde a colonização do Brasil nunca foi possível uniformizar-se o desenvolvimento. Tivemos sempre o crescimento, localizando-se em determinada área ou região enquanto outras regiões estavam estagnadas ou em profunda crise econômica. No entanto, a partir de meados dos anos 50, com a eleição de Juscelino Kubitscheck e seu projeto de desenvolver cinqüenta anos em cinco, essas disparidades tornam-se mais visíveis. Era latente o forte crescimento da região Centro-Sul, encabeçada por São Paulo e se espalhando para o Rio de Janeiro e Minas Gerais em detrimento de outras regiões que permaneciam estagnadas ou apresentavam desenvolvimento muito inferior a estas regiões priorizadas no projeto governamental. Com isso, a discussão acerca das desigualdades entre as regiões entra em pauta e ganha terreno na região Nordeste. Durante essa discussão, os ânimos se acirram e alguns fatores servem de estopim para o acaloramento da discussão. Entre estes fatores está a seca, e as ligas camponesas. A seca, problema recorrente no Nordeste volta a assolar a região no exato momento em que o plano de metas começa a ser executado e o aparecimento das primeiras Ligas Camponesas em 1956, colocou um novo elemento no cenário político nacional: o camponês nordestino. A conjugação de seca, ebulição social no campo e os inflamados discursos contra as desigualdades regionais passam a ser vistos, pela grande burguesia nacional, como ameaça mais que potencial à sua hegemonia. Enquanto o Centro Sul estava em plena euforia com o Plano de Metas do governo Juscelino, no Nordeste o clima era de revolta. Obviamente, que tanto as oligarquias rurais nordestinas, como a burguesia do Centro Sul irão cobrar do governo, medidas no sentido de resolver estes problemas. Apesar das diferenças com relação a seus objetivos, as oligarquias locais e a burguesia do Sudeste irão se unir no sentido de pressionar o governo. Foram muitos os debates e os seminários organizados na região com objetivo de encontrar soluções capazes de reverter o quadro de atraso econômico, político e social e diminuir as disparidades entre o Centro Sul em desenvolvimento e o Nordeste em crise. Porém, o marco inicial da mudança na política econômica adotada para a região foi, sem dúvida, o I Encontro dos Bispos do Nordeste, ocorrido na cidade de Campina Grande em 1956. Participaram desse encontro o Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Helder Câmara, que dirigiu os trabalhos, e mais 19 prelados, representando a igreja católica, representantes das Federações das Indústrias de todos os Estados, Ministros de Estado, intelectuais de renome como Celso Furtado, Aluízio Campos, Souza Barros, entre outros, além das lideranças políticas e empresariais da região. No encerramento do encontro esteve presente o Presidente da República, Juscelino Kubitschek. O Encontro tratou eminentemente de política econômica. As análises apresentadas pelos especialistas que a ele compareceram, mostram a tônica da discussão ali travada. Um dos destaques deste Encontro foi a análise da situação econômica da região feita pelo representante do Banco do Nordeste, Aluízio Affonso Campos, que sem dúvida serviu de inspiração ao grupo de trabalho, nomeado pelo Presidente, e encarregado de apontar soluções para a região. No encerramento do encontro foi apresentado o diagnóstico da situação regional. Com base nesse diagnóstico foi criado o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN). O GTDN, no seu principal documento, propõe mudanças econômicas, políticas e sociais para toda a região. Estas transformações atingiriam as principais atividades econômicas da região, desde a tradicional área do açúcar, passando pela agricultura de subsistência até a pecuária. É preciso destacar que a ênfase maior do documento estava na expansão do setor industrial. Os primeiros estudos do GTDN mostram que, entre 1948 e 1956 a produção industrial do Nordeste cresceu 50%, tendo crescimento anual de 5,2%. Porém, a participação no produto industrial do país baixou de 11% para 9%, já que o Centro-Sul crescia a uma taxa de 7,7%. Além disso, a imensa concentração de renda e o fraquíssimo mercado interno tornava a região incapaz de engendrar uma industrialização de maior alcance regional. Por outro lado, as medidas de proteção à indústria do Centro-Sul, via aumento das tarifas, subordinavam as regiões periféricas internas. Era preciso dinamizar o setor industrial na região Nordeste, aproveitando a base industrial já existente e utilizando a abundância de matéria prima da região que era utilizada, em sua grande maioria, pela indústria do Centro Sul do país. Outro fator fundamental para a implementação de um projeto de desenvolvimento era a mão-de-obra disponível. O Projeto de desenvolvimento proposto pelo GTDN tinha três objetivos básicos: 1) fixar na região, capitais formados em outras atividades econômicas que, eventualmente, tendiam a emigrar para outras regiões, principalmente para a região Sudeste; 2) dar emprego a grande massa populacional flutuante existente na região; e 3) criar nova classe dirigente imbuída do espírito de desenvolvimento. Campina Grande colocava-se como “laboratório ideal” para aplicação e verificação da eficácia dessa política, pois, dispunha embrionariamente de todos os elementos propostos nos GTDN.

Campina linda e grande (Parte III)
Damião de Lima

Ao adotar a fixação de capitais formados na região, o GTDN só reforça a política que já vinha sendo implantada em Campina Grande. Na cidade à época dos estudos em questão, a maioria das indústrias de transformação, representada pelas fábricas de artefatos de couro, sabão, sacaria, massas, instrumentos agrícolas, papel, calçados e outras tinham características que se assemelhavam ao tipo de indústria que o GTDN defendia para a região, além de já dispor de mercado dentro da região, algumas delas conseguindo competir no mercado regional, caso das indústrias de sacos, instrumentos agrícolas, artefatos de couro e papel e o capital investido nestas fábricas era oriundo da própria cidade, ou das cidades circunvizinhas como Cajazeiras, Guarabira, Patos ou até mesmo Recife. Outro fator que é necessário destacar é que essas indústrias ocupavam muita mão de obra. Dessa forma, dois dos objetivos do GTDN estavam sendo atendidos. O terceiro objetivo proposto pelo GTDN era criar nova classe dirigente imbuída do espírito de desenvolvimento. Nesse sentido, Campina Grande é privilegiada, pois, desde o início dos anos 50 que começa a se destacar na cidade um grupo de empresários e de intelectuais defensores da industrialização como forma de superar os problemas vivenciados pela cidade e pela região. Antes mesmo da instalação do GTDN, fora criado em Campina Grande o movimento Pró-Execução das Deliberações do Encontro dos Bispos do Nordeste, a comissão executiva, do citado movimento, era composta pelo Bispo Diocesano, D. Otávio Aguiar, o presidente da Associação Comercial, Francisco Alves Pereira, o presidente da Câmara de Vereadores, Manuel Figueiredo e o superintendente das Emissoras Paraibanas, João Albuquerque. Com a ampliação da discussão, o movimento ganhou novos adeptos o que o levou, paulatinamente, a adentrar no campo político. Em 1957 o grupo já tinha composição bastante heterogênea, participavam dele comerciantes, industriais, membros do clero, banqueiros e intelectuais das mais diversas matizes políticas e ideológicas. Os pontos de convergências, entre eles, era a defesa da educação e da industrialização como solução para o desenvolvimento do município e da região. Nesse grupo, algumas pessoas se destacavam, entre elas, os economistas Edvaldo de Sousa do Ó e Aluísio Affonso Campos, o jornalista Lopes de Andrade, o Comerciante José Epaminondas Braga, a assistente social Luiza Erundina e o banqueiro Newton Rique. As discussões ocorridas no Encontro dos Bispos do Nordeste e dentro do GTDN fortalecem, ainda mais o grupo, tanto do ponto de vista político, quanto na clareza dos problemas enfrentados pela região. A industrialização, como possível solução para os problemas da região e do município, ganha contornos mais definidos transubstanciando-se, a partir de meados dos anos 50, de simples aspiração de um pequeno grupo em projeto político e econômico a ser defendido por vários setores da sociedade campinense. A euforia do desenvolvimentismo contagia, também, as autoridades estaduais, durante o governo de Flávio Ribeiro Coutinho (1956/58), o Estado da Paraíba passa a isentar de todos os impostos estaduais as indústrias de vulto econômico que viessem a se 1.564, de 25 de outubro de°instalar no território estadual, nos termos da Lei n 1956. Esta lei concede favores fiscais às indústrias que estavam instaladas no Estado, bem como as que viessem a se instalar. Esses incentivos variavam de 03 a 10 anos de isenção dos impostos estaduais, dependendo do capital investido e do tipo de indústria a ser instalada. Caso a indústria não tivesse similar no Estado, utilizasse matéria prima local e investisse valor igual ou superior a Cr$ 10.000.000,00, conseguiria o limite máximo de isenção. Havendo indústria similar, os mesmos benefícios só seriam concedidos se o valor investido fosse dobrado, e os prazos caíam pela metade se não utilizasse matéria-prima local. Ao assumir o governo do Estado, após o afastamento de Flávio Ribeiro Coutinho, o Governador Pedro Moreno Gondim cria dois importantes órgãos impulsionadores do desenvolvimento do Estado: o Fundo de 2.031 de 08°Desenvolvimento Agrícola e Industrial (FAGRIN), criado pela Lei N de abril de 1959. E o Banco de Fomento Agrícola S.A. (BANFOP), criado pela Lei 2.032 da mesma data.°n O FAGRIN foi criado com o seguinte objetivo: patrocinar a intervenção do Estado no processo produtivo em colaboração com pessoas físicas ou jurídicas de direito público, visando à realização de programas de desenvolvimento da economia agropecuária, extrativa e industrial do Estado. O BANFOP, entretanto, tinha como objetivo realizar operações relativas ao custeio, incentivos e melhorias da lavoura e pecuária, financiar a indústria e o comércio de produtos do Estado. No caso de Campina Grande, duas instituições tiveram papel decisivo no fortalecimento do grupo político defensor do desenvolvimentismo e do projeto de industrialização: a Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEP) que, conforme já foi citado, havia sido criada e instalada em Campina Grande em 1949 e a Fundação para o Desenvolvimento da Ciência e da Técnica (FUNDACT), criada pela Lei Municipal n° 48, de 28 de dezembro de 1957. A passagem da atuação no campo econômico para esfera da luta político partidária foi conseqüência natural, na caminhada dos desenvolvimentistas campinenses. Animados pelos rumos que as discussões e as propostas oriundas dessas discussões tomavam no GTDN, e com a ascensão ao poder estadual do vice-governador Pedro Gondim, os campinenses se sentiram fortalecidos e resolveram enfrentar a corrente mais tradicional da política local. Na eleição municipal de 1959 se dá o primeiro confronto entre as duas correntes políticas que, guardadas as devidas proporções, refletiam o embate que se dava regionalmente. Embora, ambas defendessem o aumento da intervenção estatal como forma de combater os desequilíbrios regionais, tanto na forma como no conteúdo dessa intervenção, as duas forças divergiam radicalmente. Enquanto as forças políticas tradicionais do município, assim como as oligarquias tradicionais de toda a região, defendiam apenas maior envio de verbas para a região o que, em última instância, representava a continuidade da política que vinha sendo aplicada desde o início do século, pautada no fortalecimento das oligarquias locais e no mais deslavado assistencialismo, o grupo da FUNDACT e FIEP, articulado com os elaboradores do GTDN e em consonância com os anseios da burguesia industrial do Centro-Sul, elaborou um plano de governo que, mesmo tratando efetivamente dos problemas municipais, contemplava a discussão nacional e refletia o projeto político do GTDN. Esse documento representava a novidade na forma de fazer política no município. Estavam sendo apresentadas, aos munícipes campinenses, a nova proposta de intervenção estatal e a nova forma de atuação política que deveria refletir as mudanças a que o país estava sendo submetido. O plano de governo, apresentado por esse grupo, na eleição de 1959, vislumbrava a solução dos problemas seculares da região, a partir do desenvolvimento das forças endógenas e tendo como principal elemento aglutinador dessas forças a industrialização. Os munícipes campinenses se viram diante das seguintes opções: continuar com a política já conhecida de esperar a “ajuda” do governo federal e que essa ajuda fosse repassada para o governo estadual e, posteriormente, para o município, tudo nos moldes anteriores e, com isto, manter os privilégios das oligarquias tradicionais, ou optar pelo novo projeto apresentado pela oposição e tentar romper com a política assistencialista, já tão conhecida de todos. A opção da maioria da população campinense foi pela manutenção do status quo, pela “segurança” e pela continuidade da política que bem ou mal vinha se mantendo. Então, nesse primeiro embate, saiu vitorioso o candidato Severino Cabral, representante direto da política “assistencialista” - até então em vigor -, que, reforçando a afirmativa acima, adotou como lema de campanha o Slogan: “Dividir, Doar e Ajudar". Apesar de derrotado nas eleições de 1959 o grupo, que lançou a candidatura de Newton Rique, manteve-se em atuação através dos dois principais organismos paralelos à administração pública: a FIEP e a FUNDACT. Conforme já citado, a FUNDACT era a trincheira avançada de luta do setor da sociedade campinense que acreditava que a industrialização seria a redenção para a cidade, resolvendo todos os problemas sociais. A Fundação seria o órgão que direcionaria esta etapa de desenvolvimento. A FUNDACT, além das atividades ligadas diretamente à indústria, ainda mantinha a Faculdade de Filosofia de Campina Grande, onde se formava a nova geração de intelectuais, e fundou a Escola Industrial de Campina Grande, com o objetivo de fornecer técnicos para a indústria em expansão. Com o surgimento do GTDN, o grupo desenvolvimentista campinense, que atuava na FUNDACT e FIEP, ganha destaque no cenário estadual e regional e, obviamente, se fortalece no âmbito local. A partir das resistências criadas pelas oligarquias regionais à criação da SUDENE, nos moldes propostos pelo GTDN, tem início o embate entre os setores tradicionais e as novas forças regionais, essas últimas, apoiadas pela burguesia do Centro Sul. Estabelece-se, nesse período, sólida aliança entre os desenvolvimentistas campinenses e os defensores da criação da SUDENE de todo o país. No campo parlamentar era forte a resistência dos parlamentares do Nordeste à criação da SUDENE. Conforme já foi citado, a maioria dos parlamentares nordestinos, defendia maior intervenção estatal, mais que fosse preservada a forma de intervenção e fortalecido os órgãos já existentes. O objetivo da SUDENE era precisamente o de tornar o Estado também produtor no Nordeste, já que até então ele limitava-se a ação meramente assistencialista. Ao tomar conhecimento das mudanças propostas tanto na forma como no conteúdo da ação estatal, os parlamentares nordestinos posicionaram-se contrários à criação do órgão. A discussão em torno da criação ou não da SUDENE tornou-se polêmica e passou a dividir opiniões dentro e fora do âmbito regional. No Nordeste, a oposição à SUDENE foi bastante intensa, principalmente por parte das oligarquias tradicionais que se “encastelavam” no principal órgão de manutenção da política assistencialista e emergencial: o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). No Congresso Nacional, a defesa da criação da SUDENE ficou a cargo dos parlamentares do Centro-Sul e de alguns poucos congressistas ligados à burguesia industrial nordestina que apoiavam o projeto. Apesar de irrelevante do ponto de vista parlamentar, o grupo desenvolvimentista campinense era muito respeitado nas discussões acerca da nova política proposta no documento. Em termos nacionais esse grupo era representado por Aluízio Affonso Campos e também se sentia representado na pessoa do economista Celso Furtado. Mesmo contrariando a vontade das oligarquias tradicionais da região e de seus representantes no Congresso Nacional e tendo como meta colocar em prática as soluções apresentadas pelo GTDN, em 15 de Dezembro de 1959 através da Lei N° 3.692, é criada a SUDENE. Para júbilo dos desenvolvimentistas campinenses.

Campina linda e grande (parte IV)
Damião de Lima
A criação da SUDENE representava, para os desenvolvimentistas campinenses, a grande possibilidade de ver a infra-estrutura que vinha sendo montada no município, através de acordos e negociações políticas, passar a ser utilizada e cumprir o seu papel de alavancar o desenvolvimento do município, tendo como carro chefe a industrialização. O município de Campina Grande, ao se integrar na discussão técnica e política acerca da extensão do desenvolvimentismo para a região Nordeste, começa a preparar a infraestrutura e os mecanismos legais capazes de facilitar a adoção desse tipo de política. As medidas visando a implementação da política desenvolvimentista, bem como, as melhorias na infraestrutura eram negociadas e realizadas sempre tentando envolver as três esferas de poder. Conforme já citado, a criação dessa infraestrutura capaz de atrair e dar condições vantajosas para a efetiva instalação de indústrias de grande porte no município perpassou por quatro governos municipais: Elpídio de Almeida, Severino Cabral, Newton Rique e Williams Arruda e por três administrações estaduais: José Américo de Almeida, Flávio Ribeiro Coutinho e Pedro Moreno Gondim. No ano de 1956, durante a segunda gestão do prefeito Elpídio de Almeida (1955-1959), é criada, pela Prefeitura Municipal de C. Grande, a Comissão Municipal de Desenvolvimento Econômico (COMUDE). Em 1958, juntamente com a inauguração da adutora do açude de boqueirão, cria-se a companhia de saneamento e esgoto (SANESA). Nesse mesmo ano, através da Lei N 47, de 08 de Agosto de 1958, era concedida a isenção de impostos municipais, pelo prazo de dez anos, às indústrias novas de produtos sem similares que viessem a se instalar no município. O que seria feito após o parecer da FIEP, certificando de que não havia indústria similar. Este benefício é estendido também às indústrias que haviam se instalado no município até cinco anos antes da vigência da Lei. O Decreto N 38, de 08 de Setembro de 1958, regulamentou esta Lei. Com a criação da COMUDE e a lei de incentivos fiscais estava sendo preparado o terreno para o desenvolvimentismo do ponto de vista institucional e com a criação da SANESA e a inauguração da adutora de Boqueirão, preparava-se a infraestrutura para a indústria que deveria se instalar no município, bem como, criava-se infraestrutura na cidade para crescimento demográfico que adviria com a industrialização. A derrota do grupo desenvolvimentista nas eleições de 1959 não esmoreceu os entusiastas da industrialização. Durante toda a gestão do prefeito Severino Cabral (1959-1963), são construídas alianças políticas, visando a implementação do projeto de industrialização e, conseqüentemente, a ascensão do grupo desenvolvimentista ao poder municipal. Essas articulações contavam com as “bênçãos” do governo do Estado, Pedro Gondim, que tinha grande interesse em ver seus aliados comandando os destinos do município mais importante do Estado e um dos mais promissores da região. Através de negociações entre a FUNDACT, a FIEP e a equipe do prefeito eleito, algumas iniciativas, com o claro objetivo de dar continuidade à política desenvolvimentista, continuam tomando corpo. Exemplos dessa afirmativa são os seguintes projetos de lei aprovados entre 1959/63: Projeto de Lei N 14/59, que autoriza a criação do Banco do Município de Campina Grande S/A com 51% das ações da prefeitura. Este projeto é aprovado e transformado em Lei em 26/04/1960. No mesmo ano é aprovado o Projeto de Lei N 59/59, que cria o (FUNDAGRIM) Fundo Municipal de Desenvolvimento Agro-industrial, aprovado em 14/05/1960. E já no final da gestão de Severino Cabral, foi aprovado o Projeto de Lei N 1/63 em 22/01/1963, no qual o município faz a doação de uma área de 5.760.00 m2 para a instalação da IPELSA, Indústria de Papel e Celulose. Essas medidas, aliadas à criação da infraestrutura e aos incentivos fiscais municipais e estaduais, criavam uma base sólida de incentivos as indústrias já existentes, bem como, serviam de atração para novas indústrias que desejassem instalar-se no município. Outro importante passo, no sentido de atrair novas indústrias para o município, é dado pela Federação das Indústrias do Estado da Paraíba que cria, em 1961, o Departamento de Produtividade. Com essa medida, Campina Grande colocava-se na vanguarda de várias cidades nordestinas, tornando-se ponto de irradiação de novas idéias. O incremento da produtividade era largamente empregado nas empresas do Centro Sul, depois de se terem constituído em verdadeira revolução na Europa e nos Estados Unidos. Em todo o Nordeste, apenas as Federações de Indústrias da Bahia, Sergipe, Pernambuco e Paraíba contavam com estes departamentos de produtividade, todos sob a orientação geral do Conselho Nacional de Produtividade na Indústria (CENPI). Além dessas medidas de caráter técnico e político, desenvolve-se, no início dos anos 60, mais uma parceria envolvendo o Governo do Estado e a Prefeitura Municipal de Campina Grande. O objetivo dessa nova parceria era realizar campanhas de publicidade junto aos principais industriais do país, visando atrair investimentos para o projeto de industrialização. As respostas a essas iniciativas não tardaram a aparecer. Enquanto o país vivia as incertezas do conturbando governo Jânio Quadros e João Goulart, em Campina Grande, o clima era de euforia com o crescimento econômico experimentado pela cidade. Em 1962, Campina Grande era a cidade do interior mais promissora e a que mais crescia em toda a região. A cidade contabilizava, nesse ano, 16 bancos (incluindo cooperativas que funcionavam como bancos), sendo nove deles com matrizes na cidade, grande incremento das atividades comerciais e, em relação ao setor industrial, estavam estabelecidos mais de 220 estabelecimentos industriais. Destes, 24 estabelecimentos com mais de 10 operários e 12 com mais de 50 operários. Com a criação da SUDENE e seu posterior funcionamento, manteve-se a boa relação entre os desenvolvimentistas campinenses da FIEP e FUNDACT e a burocracia que comandava o órgão. Esse bom relacionamento, aliado a política de incentivos fiscais e a boa infraestrutura disponibilizada pelo município, atraiu investimentos e fortaleceu, sobremaneira, o ideário desenvolvimentista. É nesse contexto de aliança entre os setores políticos, de boa relação com o principal órgão fomentador do desenvolvimento na região e de euforia econômica que, em 1963, é eleito o candidato que havia sido derrotado na eleição anterior. Ainda durante a campanha, Newton Rique apresenta o plano de ação para o período de sua gestão 1963/67 que pode ser resumido nos seguintes pontos: a) Atrair para Campina Grande investimentos industriais de maior porte; b) Amparar e ajudar a pequena indústria e o artesanato e; c) Fortalecer a estrutura econômica do município. Este projeto tinha total apoio do governo do Estado, o então governador, Pedro Gondim. Já nos primeiros meses da administração Newton Rique / William Arruda, a política de incentivo à industrialização ganha forte impulso, para cuidar desse importante setor é criada a Secretaria de Indústria e Comércio. Essa secretaria, composta por técnicos oriundos da FUNDACT, teria como principal objetivo fornecer toda a infra-estrutura e ajudar na elaboração e na negociação de projetos, junto aos investidores interessados em investir na cidade. Passou a ser prioridade da administração municipal a busca incessante de novos investimentos. Os órgãos financiadores, tanto da esfera estadual como da esfera federal, eram incessantemente procurados pelo prefeito ou por seus secretários, no sentido de trazer novos investimentos. Buscou-se maior articulação com SUDENE, FIEP, Conselho Estadual de Desenvolvimento, BNB, BNDE, Carteira Industrial do Banco do Brasil, entre outros órgãos. Conforme já assinalado, era prioritária e considerada como vital para o município a atração de novas indústrias. As campanhas de propagandas foram intensificadas e foi dada especial atenção à região Sudeste. Essas campanhas tinham como objetivo apresentar as vantagens oferecidas pela região Nordeste, pelo Estado da Paraíba e, em especial, pelo município de Campina Grande, aos empresários que estivessem dispostos a diversificar seus investimentos. Como fruto desse esforço, em pouco tempo, o município torna-se conhecido nacionalmente e passa a ser visto como bom local para se realizar investimentos. Complementando a política industrializante, o prefeito Newton Rique criou em 13 de dezembro de 1963 o Fundo Municipal de Industrialização de Campina Grande (FUMINGRA). A criação do FUMINGRA era considerada, pelo prefeito, como outro importante passo dado pelo poder público, no sentido de incentivar a industrialização que, em sua opinião, continuava sendo a grande alternativa para a resolução dos problemas municipais. Com objetivo de administrar o FUMINGRA é criada a Companhia de Industrialização de Campina Grande (CINGRA). O final do ano, de 1963, é marcado por esses dois projetos que se complementam e dão lastro à política de industrialização municipal. A CINGRA na qualidade de administradora do FUMINGRA fincaria bases no seguinte tripé: a) Implantação de indústrias; b) Financiamento a empresas; c) Agenciamento de capital e “know-how”. As primeiras ações da CINGRA são no sentido de dotar as indústrias já existentes de uma infra-estrutura que as modernizasse, bem como, utilizar a persuasão do poder público para tentar de todas as formas possíveis e através de diversos mecanismos, atrair para a cidade as indústrias do Sudeste que começam a se instalar na região Nordeste, dentro da política de incentivos desenvolvida pela SUDENE. As ações da companhia eram coordenadas por uma equipe de técnicos altamente eficientes e afinados com a política do mandatário municipal já que, o quadro de diretores da CINGRA era composto pelos criadores da FUNDACT. O prefeito Newton Rique também envidou junto ao governo do Estado, objetivando a concretização da instalação do Distrito Industrial de Campina Grande, no que obteve êxito, pois, ainda em 1963, atendendo o pedido do prefeito de Campina Grande, o Governador do Estado, Pedro Gondim, através do Decreto N 3.491 de 31 de dezembro de 1963, estabelece a criação dos Distritos Industriais de João Pessoa e Campina Grande. De acordo com o decreto, seriam aplicados pelo Governo de Estado, em obras de infra-estrutura, cerca de um bilhão e trezentos milhões de cruzeiros, conforme entendimentos com o Fundo Agrícola e Industrial (FAGRIN) e a USAID. Estavam, assim, criadas as condições para a implementação do projeto de industrialização capaz de colocar o município de Campina Grande como um posto avançado do desenvolvimentismo na região Nordeste. Os investidores perceberam esses avanços e não se negaram a investir na cidade; os dados sobre as indústrias instaladas no município, no início dos anos 60, mostram que a industrialização do município ganhava impulso, apesar de toda a crise que assolava o país. E o mais importante, com o envio de diversos projetos à SUDENE feitos primeiramente pela FUNDACT e, posteriormente, pela CINGRA os resultados são extremamente satisfatórios. Entre 1961 e 1963 foram aprovados três projetos para o município e, outros cinco projetos, estavam em estágio avançado de negociação. Entre os projetos negociados, dois eram considerados como muito importante para alavancar o desenvolvimento, devido ao volume de recursos e ao número de empregos a serem gerados: o projeto de implantação da Campina Grande Industrial Ltda. (CANDE), produtora de tubos plásticos, e, principalmente, o projeto de implantação da WALLIG NORDESTE S/A, empresa de grande porte, produtora de fogões a gás liquefeito. Esse cenário, de euforia, com a possibilidade de crescimento econômico, será modificado com a política econômica, implementada pelos militares após o golpe militar de 1964. A partir da política econômica implementada pelos governos militares, a linda e progressista Campina Grande entrará em declínio político e econômico, perdendo importância no cenário regional e estadual. No entanto, essa é outra parte da história que, em breve, estará exposta nas livrarias com a publicação do meu novo livro. Aguardem...
Damião de Lima é Professor do Departamento de História da UFPB

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