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domingo, 7 de junho de 2009

As revoluções EUROPÉIAS do século XIX

O liberalismo político

A nova forma de pensar que dominou a Europa no século XVIII atingiu também a política. O Racionalismo tornou sem sentido a manutenção de um Estado dominado por um rei que se dizia governante por vontade divida, e cujas ações não podiam ser questionadas. Dessa forma surgiram novas propostas de organização política.

Para o pensamento do século XVIII a sociedade deveria ser organizada para assegurar a felicidade das pessoas. A felicidade estaria assegurada por um contrato que os seres humanos teriam firmado entre si, nos primeiros tempos de existência do mundo, através do qual teriam assumido o compromisso de se unirem contra os flagelos naturais e contra seus inimigos comuns. Para haver felicidade seria preciso que as pessoas reafirmassem constantemente esse compromisso. A função do Estado seria a de garantir o cumprimento desse contrato fundamental, o que significaria garantir a felicidade geral. Assim, a existência e a manutenção do Estado e dos governantes somente se justificaria se estivessem promovendo a felicidade dos governados. Da mesma forma, os teóricos do Estado liberal defendiam a separação entre o estado e a Igreja já que a política passava a se inserir no campo do Racionalismo, enquanto a religiosidade se inseria no campo da fé.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o teórico do Estado baseado no contrato social, foi um grande defensor da educação promovida pelo governo com o fim de amenizar a corrupção que surgia da convivência social.

Immanuel Kant (1724-1804) chegou a conclusão de que a única forma de governo capaz de assegurar o império da lei, ao mesmo tempo em que garantiria a liberdade individual, era a República. Ate então, o Estado liberal tinha sido pensado como uma Monarquia; a partir das idéias de Kant ganhou força o ideal republicano.

As revoluções liberais (1820-1848)

Apesar de todos os esforços empreendidos pelas Monarquias Absolutistas para barrar o avanço do Liberalismo político e econômico, a expansão realizada pelos franceses sob o Império de Napoleão Bonaparte lançou sementes da nova ordem mundial em vários lugares da Europa. O choque entre o antigo e o novo, isto é, entre o Absolutismo / Mercantilismo e Estado burguês / Liberalismo, provocou uma onda revolucionaria que atingiu a Europa entre 1820 e 1848.

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, “Houve três ondas revolucionarias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. (...) A primeira ocorreu em 1820-24. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao Mediterrâneo, com a Espanha (1820), Nápoles (1820) e a Grécia em 1821 como seus epicentros. Fora a grega, todas essas insurreições foram sufocadas. (...) A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34, e afetou toda Europa e oeste da Rússia e o continente americano, pois a grande época das reformas do Presidente Andrew Johnson (1829-37), embora não diretamente ligadas aos levantes europeus, deve ser entendida como parte dela. Na Europa, a derrubada dos Bourbon na frança estimulou várias outras insurreições. Em 1830, a Bélgica conquistou sua independência da Holanda; em 1830-31, a Polônia foi subjugada somente após consideráveis operações militares, várias partes da Itália e da Alemanha estavam agitadas, o liberalismo prevalecia na Suíça – um país muito menos pacífico naquela época do que hoje -, enquanto se abria um período de guerras na Espanha e em Portugal. Até mesmo a Grã-Bretanha, graças em parte a erupção de seu vulcão local, a Irlanda, que garantiu a emancipação católica em 1829 e o reinicio da agitação reformista. O ato de reforma de 1832 corresponde a revolução de julho de 1830 na França e de fato tinha sido poderosamente estimulado pelas novas de Paris. Este período é provavelmente o único na História moderna em que acontecimentos políticos na Grã-Bretanha ocorreram paralelamente aos do continente europeu, a ponto de que algo semelhante a uma situação revolucionária poder-se-ia ter desenvolvido em 1831-32, não fosse a restrição dos partidos Tory (Conservador) e Whig (Liberal). É o único período do século XIX em que a analise da política britânica nesses termos não é totalmente artificial. A onda revolucionária de 1830 foi, portanto, um acontecimento muito mais sério que o de 1820. De fato, ela marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder burguês na Europa ocidental. A classe governante dos próximos cinqüenta anos seria a ‘grande burguesia’ de banqueiros, industriais e, às vezes, altos funcionários civis, aceita por uma aristocracia que se apagou ou que concordou em promover políticas primordialmente burguesas, ainda não ameaçada pelo sufrágio universal, embora molestada por agitações externas causadas por negociantes insatisfeitos ou de menor importância, pela pequena burguesia e pelos primeiros movimentos trabalhistas. Seu sistema político (...) era fundamentalmente (...) instituições liberais salvaguardadas contra a democracia por qualificações educacionais ou de propriedade para os eleitores (...). Mas, como veremos, 1830 determina uma inovação ainda mais radical na política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e independente na Grã-Bretanha e na França, e dos movimentos nacionalistas em grande número de países da Europa.

E terceira e maior das ondas revolucionárias, a de 1848, foi o produto desta crise. Quase que simultaneamente a revolução explodiu e venceu (temporariamente) na França, em toda a Itália, nos Estados alemães, na maior parte do império dos Habsburgo e na Suíça (1847). De forma menos aguda a intranqüilidade também afetou a Espanha, a Dinamarca e a Romênia; de forma esporádica a Grécia, a Irlanda e a Grã-Bretanha. Nunca houve nada tão próximo da revolução mundial com que sonhavam os insurretos do que esta conflagração espontânea e geral que conclui a era analisada neste livro. O que em 1789 fora o levante de uma só nação era agora, assim parecia, ‘a primavera dos povos’ de todo um continente.”. (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 129-130).

Desafiando o congresso de Viena

O congresso de Viena havia se caracterizado pela montagem de um reacionário sistema de alianças que tinha como objetivo principal evitar a propagação do liberalismo e garantir a permanência das dinastias e fronteiras restauradas desde 1815. Contudo, o processo de restauração foi bastante conturbado e em diversos países europeus, focos de resistência do liberalismo atacaram as posições reacionárias.

Na Espanha, desde a ocupação francesa, um grupo de resistência aos invasores elaborou, em 1812, uma Constituição que instituía a Monarquia Parlamentarista. Quando o Congresso de Viena determinou, em 1815, a restauração do trono espanhol, o Monarca Fernando VII de Bourbon reassumiu poder e comprometeu-se a obedecer a Constituição elaborada pelos rebeldes.

A promessa teve a curta vida de alguns meses ao fim dos quais o rei deu início a um a serie de medidas que restituíam os privilégios dos nobres e da realeza, redefiniam a Monarquia como absolutista e ampliavam os poderes da Igreja Católica através do Tribunal da Inquisição. Ao mesmo tempo, os líderes liberais eram presos e deportados, os jornais sofriam censura e as universidades – celeiro de idéias liberais – sofriam dura repressão

Paralelamente a esses acontecimentos em solo europeu, o governo espanhol enfrentava várias guerras de independência na América. A fim de combater os colonos insurgidos, o rei foi obrigado a deslocar grande contingente militar para o continente americano. Em 1820, um grupo de militares rebelou-se contra o rei e sua política. Recusaram-se a embarcar para América e exigiram o retorno da Constituição de 1812 e o fim do Tribunal da Santa Inquisição.

Diante da gravidade da situação, Fernando VII aceitou as exigências dos revolucionários. A Santa Aliança reagiu enviando suas tropas para combater os militares espanhóis amotinados. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica espanhola formou tropas de fiéis dispostos a combater a revolução em nome da fé católica. Os liberais foram duramente derrotados e o governo absolutista foi restaurado na Espanha. “Para resolver o problema da Espanha, os franceses enviaram um exército de 200.000 homens à península ibérica em 1823. Sem muita dificuldade, essa força acabou com os liberais espanhóis. (...) Os franceses ajudaram Fernando VII a restaurar a sua autoridade para governar como lhe aprouvesse. Ao contrário do que sucedeu na Espanha, porém, os defensores do ´status quo´ não conseguiram fazer cessar a campanha em prol da independência e do liberalismo nas colônias. Em 1824 o Presidente James Monroe, dos Estados Unidos, proclamou a ´ Doutrina Monroe ´, segundo a qual as tentativas de intervenção nos negócios do novo mundo por parte das potencias européias seriam consideradas atos inamistosos. Sem o apoio marítimo britânico, a doutrina teria permanecido letra-morta. No entanto, os ingleses estavam dispostos a reconhecer a independência das republicas sul-americanas, uma vez que, como novos países, preferiam comerciar com a Grã-Bretanha e não com a Espanha. Por conseguinte, os ingleses usaram sua marinha para impedir que a Espanha interviesse para proteger seu moribundo império.”.

Não obstante o revés sofrido na Espanha, na Grécia as forças liberais obtiveram êxito. Uma revolta iniciada por um soldado, Alexandre Ypsilanti, iniciara os combates contra os turcos, que dominavam o país até então. Embora o soldado fosse logo derrotado, seu movimento persistiu e tempos depois transformara-se em um movimento de massas em prol da independência grega. Apoiados, por motivos de estratégia mediterrânea, por uma força naval constituída de ingleses, franceses e russos, e por uma invasão terrestre dos russos sobre os Bálcãs, os rebeldes obtiveram sucesso, assinalando a extensão das transformações que a Europa vivia e prenunciando o fracasso do sistema reacionário montado em 1815. Para Eric J. Hobsbawm, “Só uma das revoluções de 1820-22 manteve-se, graças em parte ao seu sucesso em desencadear uma genuína insurreição do povo, e em parte a uma situação diplomática favorável: o levante grego de 1821. A Grécia, portanto, tornou-se a inspiração para o liberalismo internacional, e o ´filo-helenismo´, que incluía o apoio organizado aos gregos e a partida de inúmeros combatentes voluntários, desempenhou, em relação a esquerda européia de 1820, um papel análogo ao que a republica espanhola viria a desempenhar no fim da década de 1930.”. (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 134)

Liberalismos e liberalismos

Durante o período da restauração (1815-1830) o combate a um inimigo comum (a reação absolutista) contribuiu para que entre os liberais a existência de projetos políticos diferentes fosse encoberta. As diferenças entre republicanos e bonapartistas, moderados e radicais, não apareciam claramente. Ainda não haviam grupos socialistas atuando politicamente em quase toda Europa. Somente na Inglaterra, sob a alcunha do cooperativismo, liderados por Robert Owen, surgia um movimento político com um posicionamento mais independente. A oposição ao absolutismo, desta forma, estava limitada a pequenos grupos de pessoas ricas e / ou cultas que se autonomeavam lideres de um povo inerte a espera da libertação, mas que, por falta de consciência, não estava disposto a participar de sua construção inicial. Havia ainda um sentimento de união internacional. A maioria daqueles que atuavam favoravelmente aos ideais liberais estavam convictos de que enfrentavam um só inimigo – a Santa Aliança – e que, portanto, a luta se daria em um front internacional, basicamente europeu, e seria conduzida por organizações secretas dispostas a iniciar a insurreição.

De todos os grupos políticos que faziam a oposição secreta ao absolutismo, os mais conhecidos, e também os mais internacionalizados, eram aqueles chamados de carbonari ou “bons primos”. Surgidos no sul da Itália em 1806, reprimidos pelas forças bonapartistas, com quem agora se aliavam, ganharam adeptos em vários países após 1815 e atuaram com bastante força na onda revolucionária de 1820-24. Apesar de praticamente dizimados pela repressão, seu ideal vanguardista[1] permaneceu e manteve-se vivo até, pelo menos, 1848. Politicamente os carbonari eram um somatório de idéias divergentes unidas pelo ódio ao absolutismo, entre as quais figuravam desde o pensamento jacobino até as idéias moderadas da alta burguesia. A partir de 1830, todavia, esse quadro começaria a mudar radicalmente.

A Revolução na França (1830)

Com a derrota de Napoleão e a restauração da Monarquia, o clero e a nobreza passaram a reivindicar o retorno dos direitos que haviam perdido com a Revolução de 1789. Para que isso acontecesse, os camponeses deveriam voltar ao regime de servidão, ao pagamento das inúmeras taxas que permitiam a vida de luxo e ociosidade dos nobres e dos clérigos.

Luiz XVIII editou inúmeras leis nesse sentido, mas elas não eram obedecidas pela população. Seu sucessor, Carlos X, decidiu impor pela força não apenas o pagamento dos impostos, mas outras medidas que faziam a França retroceder ao Feudalismo. O rei dissolveu a Câmara, exigiu o pagamento de indenizações aos nobres que tiveram bens confiscados durante a Revolução, restringiu os direitos eleitorais e determinou uma censura severa aos jornais.

A população reagiu de forma violenta ao autoritarismo real: no dia 27 de julho de 1830, os parisienses armaram barricadas por toda a cidade e, durante três dias, Paris foi o palco de violenta luta travada entre a população francesa e as tropas reais. No dia 29, terceiro dia de luta, os soldados do rei foram derrotados e Carlos X abdicou.

“As revoluções de 1830 mudaram a situação inteiramente. Como vimos elas foram os primeiros produtos de um período geral de aguda e disseminada intranqüilidade econômica e social e de rápidas transformações. (...)Os Bourbon foram derrubados em Paris por uma típica combinação de crise do que se considerava a política da Monarquia restaurada e de intranqüilidade popular devida a depressão econômica. Cidade sempre agitada por atividade de massa, Paris em julho de 1830 mostrava as barricadas surgindo em maior numero e em mais lugares do que em qualquer época anterior e posterior. (...)O segundo resultado foi que, com o progresso do capitalismo, o ‘povo’ e os ‘trabalhadores pobres’ – os homens que construíram as barricadas – podiam ser cada vez mais identificados com o novo proletariado industrial como a ‘classe operária’. Portanto, um movimento revolucionário proletário-socialista passou a existir.” (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 135)

A alta burguesia, que não havia participado da luta, aproveitou-se da ocasião para colocar no trono Luís Felipe, um nobre da família Bourbon de Orleans, que aceitou governar obedecendo a Constituição aprovada em 14 de agosto de 1830. O novo governo foi definido como uma Monarquia liberal burguesa e o rei intitulado de rei-burguês.

A monarquia burguesa de Luís Felipe

Luis Felipe de Orleans celebrizou-se com Rei da França ao ficar conhecido como o “Rei burguês”. Contudo, sua predisposição para provocar mudanças ficara aquém das estruturas do país.

Os anos de reinado de Luis Felipe não foram marcados por reformas significativas. Em primeiro lugar, a França não estava vivendo um processo de industrialização a todo vapor como ocorria na Inglaterra e, também por isso, sua problemática social era diversa, bastando afirmar, para o entendimento do leitor, que os problemas sociais fundamentais ainda associavam-se a vida rural.

Assim, sob o comando de sucessivos governos chefiados pelo principal político da época, François Guizot, os franceses expandiram o seu sistema educacional. Uma lei datada de 1833 estipulava a criação de escolas primarias em todas as vilas e os filhos de indigentes deveriam receber educação gratuita. As cidades maiores deveriam criar escolas profissionalizantes para comercio e indústria e os Departamentos iriam fundar escolas normais. Destarte, “durante o regime de Luis Felipe pouco mais se fez de importância duradoura. Guizot tornou-se cada vez mais um apologista do ‘status quo’. Todos eram livres, argumentava ele, para ascender a alta burguesia e, assim, a uma posição de poder político e econômico. Os políticos seguiriam seu conselho, encontrando nos planos para a modernização de Paris e de expansão para o sistema ferroviário amplas oportunidades para o enriquecimento ilícito. Luis Felipe pouco fez no sentido de neutralizar a inércia e corrupção de seu regime.”. (BURNS, Op.cit. p.563).

Entrementes, grupos radicais da pequena burguesia e trabalhadores urbanos não demoraram a perceber que seus esforços, quando ergueram as barricadas de julho de 1830, foram em vão. Concentrados em Paris, constituíam-se de estudantes, escritores e lideres de trabalhadores que começaram a agir clandestinamente. Estudavam as obras de Graco Babeuf (O livro A conspiração dos iguais tornara-se sua “bíblia”) e realizavam manifestações contra o governo parlamentarista da alta burguesia. Tinham como principal líder Auguste Blanqui, socialista, orador inflamado, que através da imprensa denunciava as injustiças sociais. Nos subterrâneos, a conspiração tomava a forma de sociedades secretas que preparavam a insurreição sob a bandeira da república.

Em 1834 ocorreu a primeira escaramuça. O governo decretou ilegais as organizações políticas e, durante dois dias, em Lyon e Paris, tropas do governo e insurretos se enfrentaram. O saldo foi de 2.000 lideres republicanos presos. Em 1835 uma lei pôs sob censura a imprensa, proibindo artigos ou caricaturas que desdenhassem do Rei. As leis de censura aumentaram o descontentamento geral com o governo e empurraram parte dos moderados a para a oposição. “Em 1847, vários elementos da oposição estavam insatisfeitos o bastante para encorajar uma campanha geral de agitação por toda a França. Como as reuniões políticas estavam proibidas, realizavam banquetes políticos, contando com a participação de poetas como Alphonse de Lamartine e dos republicanos socialistas agora liderados por Luis Blanc. Pregavam uma reforma profunda, embora não uma revolução total”. (adaptado de BURNS, Op.cit. p.566).

A Revolução de 1848

Como vimos, na França surgiram dois grupos de oposição à Monarquia burguesa. O primeiro, formado por uma ala moderada da burguesia que pleiteava reformas liberais (um encaminhamento mais rápido para o processo de industrialização); o outro, um grupo republicano composto por pequenos burgueses, artesãos e operários (Aspiravam democracia e reformas sociais mais profundas). Os dois grupos estavam descontentes com a política desenvolvida por Luís Felipe.

“As revoluções de 1830 também introduziram duas outras modificações na política de esquerda. Elas separaram os moderados dos radicais (...). (...) Os liberal-moderados saíram da frente comum de oposição à restauração (ou de uma grande simpatia por ela) para assumirem o governo ou um governo em potencial. (...)Mais do que isto: após um pequeno intervalo de tolerância e zelo, os liberais tenderam a moderar o seu entusiasmo reformista e a suprimir a esquerda radical, especialmente os revolucionários da classe operária.”. (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 135-137)

O ano de 1847 foi marcado por uma séria crise econômica provocada por colheitas ruins nos dois anos anteriores. A crise econômica aumentou a pobreza e o descontentamento das camadas mais baixas da população. Os grupos de oposição ao governo aproveitaram-se do clima de revolta social para forçar reformas políticas. Através da “política dos banquetes”[2], conseguiram organizar ações contra o governo. Foi marcada uma passeata para 22 de fevereiro de 1848, com o objetivo de protestar contra a situação econômica.

O governo ameaçou reagir e a ala moderada recuou, mas a pequena burguesia e os operários não aceitaram a ameaça e, mais uma vez, Paris foi tomada pelas barricadas. No dia 24 os quartéis já tinham sido ocupados pelas tropas revolucionarias. O rei fugiu e o seu trono foi queimado pelos rebeldes no meio de uma praça em Paris. No dia 25 de fevereiro de 1848, foi proclamada a Segunda República Francesa. Restava decidir qual a classe social que ocuparia o poder.

O novo governo teve como característica principal o fato de, inicialmente, ter sido uma coalização das forças que haviam participado da oposição a Luís Felipe (Liberais moderados, republicanos radicais e bonapartistas). Entre os integrantes da ala dos republicanos radicais estavam os socialistas que, a exemplo de Luís Blanc, faziam parte da composição inicial do governo. Dentre as novas reformas adotadas figuravam a criação de oficinas nacionais (indústrias custeadas pelo Estado) para reduzir drasticamente o desemprego e a instituição do voto universal.

Porém, o que parecia uma vitória dos republicanos radicais transformou-se em derrota. A burguesia, bem organizada e detentora de maioria na composição do executivo e do parlamento tomou a frente do novo governo e, através de uma serie de manobras políticas, afastou os lideres populares do poder. Sentindo-se lesados, os membros das classes populares realizaram várias manifestações de descontentamento com os rumos que o governo republicano estava tomando. O governo burguês reagiu com violência massacrando os manifestantes. As classes populares, segundo Burns, “entre 23 e 26 de Junho defenderam-se numa batalha militar sem esperanças, contra forças armadas recrutadas, em parte, entre os provincianos dispostos a ajudar na repressão a classe operaria. Se os rebeldes de Paris estavam lutando como membros de uma classe ameaçada ou simplesmente como homens e mulheres à beira da fome é uma questão que os historiadores continuam a debater. Que eram levados a serio como uma ameaça revolucionaria pode ser percebido pela ferocidade com que foram caçados depois de cessados os combates de rua. Cerca de 3.000 foram mortos e outros 12.000 presos; na maioria, foram deportados para campos de trabalhos forçados na Argélia.”. (BURNS, Op.cit. p.567).

As forças da burguesia francesa saíram vitoriosas e, mais uma vez, o exemplo francês se ampliou para o restante da Europa: houve uma guinada à direita, um retrocesso no desenvolvimento político. Na Itália e na Alemanha, por exemplo, foram sufocados os movimentos populares que pleiteavam a construção do processo de união nacional sob a bandeira da república e da democracia. Na verdade, a burguesia européia assustou-se com a nova força política que se apresentava no cenário social – o operariado – e tratou de parar as mudanças no processo político. Manifestações dos cartistas foram severamente reprimidas na Inglaterra.

Na França o temor burguês resultou na eleição de Luis Napoleão Bonaparte, sobrinho do imperador Napoleão, para o cargo de presidente da nova República. Referindo-se a esse episodio o Historiador Burns Comenta: “Luís Napoleão havia passado a maior parte de sua vida no exílio. Voltando a França depois da revolução de 1830, foi preso alguns anos depois por tentar provocar uma rebelião nas províncias. Entretanto, em 1847, fugiu para a Inglaterra, onde reacionários britânicos e franceses lhe forneciam recursos. No verão de 1848, a situação na França era tal que ele compreendeu que podia voltar sem perigo. Efetivamente foi recebido de braços abertos por membros de todas as classes. Os conservadores buscavam um salvador que lhes protegesse as propriedades contra os ataques do radicais. Os proletários haviam-se deixado seduzir pelo ouropel dos planos de prosperidade expostos em seu livro A extinção do pauperismo e pelo fato de ele ter-se correspondido com Louis Blanc e Proudhon, o anarquista. Entre essas duas classes havia uma multidão de patriotas e entusiastas, para quem o simples nome de Napoleão era um símbolo incomparável de glória e de grandeza. Foi principalmente a essa multidão que o sobrinho do corso deveu seu extraordinário triunfo. Na expressão de um velho camponês: ‘como deixar de votar nesse homem, eu que tive o nariz gelado na Rússia?”. (BURNS, Op.cit. p.567-568).

Luis Napoleão, seguindo o exemplo do tio e a pretexto de defender os interesses dos pobres, deu um golpe de Estado em dezembro de 1851, instituindo uma ditadura. Em 1852, “com apoio de 95% do eleitorado, assumiu o titulo de Napoleão III, Imperador dos franceses.”. (BURNS, Op.cit. p.568).

Luis Napoleão, ou Napoleão III, tentou reeditar a política imperialista desenvolvida por seu tio, e acabou envolvendo a França em uma série de conflitos desastrosos. Em 1870, a derrota francesa na Guerra Fraco-Prussiana, significou a perda da Alsácia-Lorena que ficou com os alemães, e colocou fim em mais um período imperial Francês. Era proclamada a Terceira República Francesa.

A comuna de Paris (1871)

Em 1871, A França estava novamente mergulhada em uma luta interna travada por diversos grupos políticos. Nesse cenário, ocorreu a primeira experiência histórica de instalação de um governo fundamentado nas teses socialistas. Foi a Comuna de Paris.

A população parisiense, insatisfeita com o rumo da política nacional, começou a tomar conta da capital francesa em fevereiro de 1871. Em março, os parisienses proclamaram um governo autônomo na cidade, a Comuna. Inspirado nas teorias socialistas, o novo governo adotou entre outras medidas, a bandeira vermelha, um novo calendário e o principio da autonomia absoluta das comunidades.

Com a intenção de desmontar o Estado burguês, os lideres da Comuna realizaram as seguintes reformas:

· Supressão do exercito regular;

· Criação de uma força armada popular;

· Transferência para os agrupamentos comunitários da tarefa de governo;

· Criação do ensino laico, gratuito e obrigatório;

· Foram eliminadas as diferenças e os privilégios de classes;

· A renda publica passou a ser dividida através de um sistema de cooperativa.

A experiência socialista de autogestão em Paris durou apenas dois meses. Seu fracasso deu-se à razão mais óbvia possível: as forças burguesas de toda a França se uniram contra a Comuna. Em maio de 1871, as tropas relacionarias ocuparam Paris e seguiu-se uma ação repressora que assusta pelos números que apresenta: cerca de vinte mil trabalhadores foram executados; entre cinqüenta e setenta mil foram presos ou deportados para a Guiana Francesa (atual Guiana, localizada na região amazônica).

Apesar dos fracassos das atividades internas, das milhares de mortes de seus militantes e da resistência burguesa, as doutrinas socialistas já estavam inscritas na historia.



[1] - Que pressupõe a atuação da liderança como exemplo para que o povo se revolte.

[2] - Como as manifestações e reuniões políticas estavam proibidas, a oposição organizava banquetes onde discutiam o encaminhamento de seus projetos políticos, a conspiração contra a monarquia burguesa.

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