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domingo, 17 de maio de 2009

Revolução Industrial PRÉ e SEGUNDO ANO. Colégio PADRÃO

A revolução industrial

Revolução ou revoluções?
Por Revolução Industrial convencionou-se designar o processo de transformações econômicas e sociais, caracterizadas pela aceleração do processo produtivo e pela consolidação da produção capitalista. Tal processo assinala, ainda, a passagem em definitivo da produção baseada em relações feudais para a produção em que o capital e o trabalho estão definitivamente separados, isto é, a produção capitalista.
Em sentido restrito, podemos afirmar que: a Revolução Industrial foi um processo de renovação na cultura da produção de riquezas, ou seja, nos processos a partir dos quais os homens transformam a natureza em seu benefício. Se, para a historiografia mais comum a respeito desse processo, o fator básico condicionante da revolução industrial foi a invenção da máquina ou, mais genericamente, a mecanização da indústria, não se pode deixar de reconhecer que, para que essa transformação acontecesse, os homens nela envolvidos tiveram que passar a encarar de uma forma completamente diferente os meios pelos quais eles obtiveram capital, mão de obra, matérias-primas, legislação favorável, apoio social e político e muitos outros fundamentos que foram essenciais na introdução e consolidação do sistema industrial.
A partir dessa concepção, podemos formular a idéia de que a Revolução Industrial significou uma alteração radical na disponibilidade dos Meios e formas da Produção o que, em termos conclusivos, equivale afirmar a existência de uma nova disponibilidade dos meios de produção, de novas relações sociais de produção e de outras políticas organizativas da produção e dos sujeitos que a realizam. Contudo, esse não foi um processo que ocorreu abruptamente e, tão pouco teve nas suas transformações meramente econômicas, o motor de todas as mudanças. A Inglaterra do século XVIII foi, em grande medida, fruto da Inglaterra dos séculos XVI e XVII, período em que aconteceram importantes transformações na cultura, nas mentalidades e, partir dessas, nas próprias estruturas econômicas e sociais. Dentro dessa linha de raciocínio, podemos concluir que a Revolução Industrial foi um processo resultante de várias revoluções que se encontraram – um processo de mudanças parciais que, juntas, operaram uma alteração radical nas estruturas da civilização.

O pioneirismo inglês
Em termos de Revolução Industrial, a Inglaterra precedeu o resto do mundo em cerca de um século. Nesta medida, nosso estudo sobre esse evento deve ser iniciado com a abordagem do problema específico da Inglaterra na segunda metade do século XVIII ou das origens da industrialização. Primeiro vamos investigar esse fato.
A história da Inglaterra na Idade Moderna é inteiramente dominada pelo desenvolvimento do comércio marítimo. Trata-se de um comércio fundamentalmente de intermediação: os ingleses desembarcavam, em seus portos, produtos ultramarinos e depois os distribuíam pela Europa. Além disso, vendiam no Báltico os produtos adquiridos no Mediterrâneo e vice-versa. Os ingleses também tendiam a substituir os holandeses nos transportes de mercadorias para outros Estados, ou seja, havia uma grande frota inglesa que navegava pelo mundo prestando serviços a outras bandeiras. Havia ainda o comércio praticado pelos ingleses, que dizia respeito à exportação de seus próprios produtos: ao lado dos manufaturados, principalmente tecidos, o trigo, embora com uma participação cada vez menor, e a hulha (carvão mineral).
Segundo levantamentos estatísticos feitos por alguns historiadores, no final do século XVIII o controle da Inglaterra sobre o comércio internacional era tal que de cada dez navios mercantes existentes no mundo nove eram ingleses.
O Estado inglês aplicava uma política econômica mercantilista, a economia era orientada no sentido de atingir ao máximo a auto-suficiência do país: importar o mínimo possível e exportar o máximo era a regra. Uma Balança Comercial altamente favorável e a abundância dos metais preciosos eram os indícios da prosperidade. O Estado agia junto à economia através de suas leis, seus regulamentos e sua política. A pirataria no século XVI, a vitória contra a Espanha ao final desse mesmo século, os Atos de Navegação de 1651, elaborados por Oliver Cromwell, a subjugação da Holanda em 1654 e as gestões diplomáticas que viabilizaram tratados comerciais vantajosos, reservaram aos barcos ingleses parte considerável do comércio marítimo mundial.
Essa hegemonia marítimo-comercial da Inglaterra conferia-lhe uma condição singular em termos de acumulação de capital. Por exemplo, a essa hegemonia a Inglaterra deve o fato de haver podido assinar com Portugal, em 1703, o Tratado de Methuen, em função do qual uma grande parte do ouro explorado no Brasil, no século XVIII, foi acabar nos cofres ingleses.
O fato é que, ao final do século XVIII, a Inglaterra possuía maior acumulação de capital que qualquer outro país europeu e, por que não, do mundo.
O grande desenvolvimento do comércio internacional e das manufaturas, principalmente no setor têxtil, provocou uma mudança radical no sistema de exploração agrária da Inglaterra. Havia uma crescente demanda de lá para a indústria, assim como de trigo e de carne para as cidades que se encontravam em pleno desenvolvimento.
A burguesia, ao adquirir os domínios senhoriais pretendia, como não poderia deixar de ser, tirar o máximo proveito deles. A nobreza, por seu turno, não manifestava em relação às atividades lucrativas o mesmo preconceito da aristocracia francesa, que via nessas atividades uma prática deselegante para o seu “status”. “A revolução, porém, necessitava de alguma coisa mais, além de dinheiro. Exigia hábitos mentais que encorajassem investimentos em atividades arriscadas, mas que encerravam enormes possibilidades de lucro. Na Inglaterra, muito mais que no continente, a busca da riqueza era vista como um digno objetivo de vida. A partir da renascença, a aristocracia continental (França, por exemplo) havia cultivado a idéia de conduta ‘cavalheiresca’, em parte para se proteger dos avanços sociais que vinham de baixo. Os aristocratas ingleses, cujos privilégios eram modestos em comparação com os dos nobres do continente, nunca deixaram de respeitar aqueles que ganhavam dinheiro; tampouco se esquivam a ganhar eles próprios o que pudessem. Investiam e especulavam. A pressa que se deram para cercar suas terras refletia essa simpatia pelo capitalismo agressivo. Abaixo da aristocracia, era ainda mais tênue a barreira que separava os comerciantes urbanos da ‘nobreza’ rural. Na maioria, os homens que atuaram como pioneiros nos primeiros anos da revolução industrial vinham da pequena nobreza ou da classe dos yoemen. A um grau desconhecido no continente, homens com esse tipo de antecedentes sentiam-se a vontade para subir até onde os levassem, na escala social e econômica, as suas aptidões.”. (BURNS, op. cit. p. 515).
Até então, a estrutura agrária inglesa não era favorável à exploração intensiva e racional. O regime predominante ainda era o dos campos abertos (“open fields”), ou seja, os campos de cultura não eram cercados. Os rendeiros hereditários eram considerados da terra, embora fossem mantidos os direitos eminentes da propriedade para os senhores. Cada rendeiro dispunha de diversas faixas de terras descontínuas, que eram exploradas por ele simultaneamente. Com o objetivo de aumentar a rentabilidade agrária, a burguesia e a nobreza passaram a cercar os seus campos (“enclosures”), agregando-se em lotes contínuos. Mesmo as glebas comunais foram submetidas ao sistema de “enclosures”. Nessas circunstâncias, porém, os rendeiros ficaram, na maior parte dos casos, arruinados, pois receberam as piores áreas, além de pagarem as despesas com o cercamento e de não mais poderem levar o seu gado para pastar naquilo que outrora haviam sido terras comunais. Aos rendeiros, tornou-se impossível fazer frente à concorrência dos grandes proprietários que, por disporem de maior volume de capital, tinham melhores condições de aplicar as novas técnicas agrárias. Dessa forma, os rendeiros eram obrigados a repassar as terras que ocupavam aos latifundiários, transformando-se em proletariado agrícola ou, o que era mais freqüente, migrando para a cidade. Além desse fenômeno, há de se considerar ainda que, de um predomínio da atividade cerealista, passou-se ao predomínio do pastoreio de ovelhas, fato que, por si só, já significou uma liberação da mão-de-obra, forçada a emigrar para as cidades, a fim de fugir do desemprego rural. Em resumo, a ocorrência dos cercamentos gerou a disponibilidade de mão-de-obra para que as indústrias pudessem conhecer o seu desenvolvimento, lançando mão de uma massa trabalhadora abundante e barata.
Assim, na Inglaterra, a aristocracia fez-se burguesa, ou seja, preocupada com a racionalização da produção e com a comercialização dos produtos. Muitas vezes, inclusive, ela passou da exploração do solo à das minas. Além disso, com o direito de transmissão de herança por primogenitura, que era extremamente rígido, os secundogênitos das grandes famílias proprietárias de terras entregavam-se, cada vez mais, ao comércio e às finanças.
Face a todas essas realidades, verificamos que foi diminuindo a distância entre a nobreza agrária e a burguesia e, conseqüentemente, o comércio, por intermédio da sociedade que ajudou a criar, dirigia a vida administrativa e política da Inglaterra desde o final do século XVII.
Politicamente, a Inglaterra era uma monarquia constitucional com um rei e duas câmaras que se constituíam em órgãos representativos da elite econômica e financeira da Inglaterra. A Câmara dos Lordes era composta dos grandes senhores, dos lordes hereditários, dos bispos da Igreja Anglicana e dos lordes que o Rei podia nomear a seu bel-prazer e que eram, via de regra, recrutados entre os homens mais ricos do país. A Câmara dos Comuns era composta de deputados eleitos pelas cidades e pelos condados através do sufrágio censitário, de forma que só os ricos acabavam podendo participar do processo eleitoral, quer seja como eleitores, ou como candidatos. Em resumo, a vida política inglesa do século XVIII era absolutamente coerente com os interesses das camadas sociais economicamente dominantes.
Se quisermos sistematizar a realidade inglesa no século XVII, poderemos fazê-lo nos seguintes termos:
· Face ao seu domínio dos mares e do comércio internacional, a Inglaterra era o país que mais amplos mercados consumidores controlava.
· Em função do domínio do comércio mundial, a Inglaterra era o país que maiores capitais havia acumulado.
· Devido aos “enclosures”, a Inglaterra possuía, no século XVIII, abundante disponibilidade de mão-de-obra urbana.
· A Inglaterra, em função do processo de suas revoluções políticas do século XVII, mais do que qualquer outro país europeu, apresentava uma estrutura política adequada aos interesses do desenvolvimento industrial.

As inovações técnicas
Além de todas essas condições já apontadas, há de se mencionar ainda que a Inglaterra foi palco de alguns dos progressos tecnológicos mais importantes do primeiro momento da Revolução Industrial: em termos tecnológicos, o fato maior da Revolução Industrial, no século XVIII, foi a invenção do Motor a Vapor, realizada por Newcomen e, posteriormente, aperfeiçoada por James Watt, que registrou a patente de seu motor a vapor em 1769. O motor a vapor foi a primeira forma regular e estável de obtenção de energia inventada pelo homem, e boa parte dos demais progressos técnicos da Revolução Industrial, na Inglaterra, constituíram-se em simples agregações do motor a vapor às ferramentas já existentes.
As máquinas em particular, e as invenções técnicas em geral, nascem de um desequilíbrio econômico e da necessidade de reduzir os custos e aumentar a eficiência da produção. Por sua vez, cada invento cria um novo desequilíbrio econômico e determina a procura de novos inventos. Ilustremos o raciocínio acima formulado através do exemplo da indústria têxtil inglesa no século XVIII:
· Desde o início da utilização da “lançadeira volante”, havia acontecido uma grande aceleração na produção de tecidos; entretanto, como os fios continuavam a ser produzidos manualmente nas rodas de fiar, havia um desequilíbrio entre a oferta e a procura pelos fios, ou seja, a demanda de fios era muito maior do que a sua produção. Os tecelões tinham problemas especialmente no verão, quando boa parte dos fiandeiros, em busca de melhores rendimentos, dedicava-se às colheitas. Os comerciantes que haviam recebido encomendas confiando na produtividade dos teares munidos de lançadeiras volantes não podiam honrar seus compromissos em função da falta de fios, o que fazia com que eles colocassem boa parte dos tecelões em desemprego, além de perderem sua clientela.
· Essa crise da produção têxtil tornou-se aguda a partir de 1763, em função dos novos mercados conseguidos no Oriente pela Inglaterra através da Guerra dos Sete Anos. Tal situação estimulou James Hargreaves a incrementar suas pesquisas, que resultaram na invenção da “jenny”, uma máquina que permitia ao fiador produzir até oitenta fios de cada vez; entretanto, o fio produzido pela “jenny” era pouco resistente e partia com facilidade na hora da tecelagem. Para resolver essa deficiência, Samuel Crompton, em 1779, inventou a “mule”, nova máquina de fiar que tinha a mesma produtividade que a “jenny”, mas cujo produto era mais resistente.
· Com a invenção de Crompton, a fiação ficou à frente da tecelagem, ou seja, esta não era capaz de consumir toda a produção daquela, pois, apesar da lançadeira volante, o tecelão continuava a trabalhar manualmente. É nessa perspectiva que encontramos os esforços de Cartwright que, em 1875, inventou o tear mecânico. A partir da invenção de Cartwright, configurou-se a seguinte situação: dois teares mecânicos operados por um rapaz de quinze anos teciam três peças e meia de pano por dia, enquanto que um artesão, por mais hábil que fosse no uso da lançadeira volante, não conseguia produzir mais do que uma peça por dia. Destarte, o fio produzido mecanicamente passou a poder ser consumido, o preço dos tecidos baixou e, conseqüentemente, a clientela aumentou. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movi­mento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.
Outro setor industrial que conheceu novos processos na Inglaterra do século XVIII foi a metalurgia, sendo que neste setor o fato mais significativo foi a descoberta do processo de fundição do ferro através do uso do coque. Com a generalização do uso da energia a vapor e dos processos de fundição através do coque, o carvão mineral valorizou-se extremamente como matéria-prima industrial. Este fato é mais um elemento a justificar o pioneirismo inglês na Revolução Industrial, pois na Inglaterra havia abundante reserva de carvão mineral. Aliás, a crescente importância do carvão mineral para a produção industrial condicionou a própria localização geográfica da indústria inglesa, que vai se concentrar principalmente nas regiões carboníferas.

Aspectos tecnológicos
O aparecimento das máquinas não significa apenas um progresso técnico, através do qual se verificou um aumento da produtividade. A introdução das máquinas na produção industrial significou uma substituição do tipo de equipamento que era utilizado até então, ou seja, as ferramentas, e uma liberação da mão-de-obra. A máquina substituiu o homem parcialmente como recurso de produção sob dois aspectos:
- Trabalhador direto não-qualificado, ou seja, aquele cuja contribuição exclusiva para a produção era o seu dispêndio de força física, foi, na maioria das operações, substituído pelas fontes de energia não-humanas.
- Determinadas tarefas, que na época do trabalho manufatureiro dependiam de um certo número de trabalhadores diretos, com a invenção das máquinas passaram a depender de um número bastante menor de trabalhadores diretos.
O fato de a máquina ocupar parcialmente o lugar da mão-de-obra significa uma desvalorização desta, sendo que desvalorização de mão-de-obra se traduz por baixos salários.
Um aspecto adicional da mecanização da indústria é o de que muitas das tarefas para as quais anteriormente a força do homem era vital agora poderiam ser exercidas por mulheres ou por crianças. Devido a essa realidade, verificamos uma crescente utilização da mão-de-obra feminina e infantil, submetidas a níveis de remuneração ainda mais baixos.
De início, deve ficar claro que “oficina”, “manufatura” e “fábrica” são tipos diferentes de unidades de produção industrial. A oficina é a unidade de produção industrial na qual os meios de produção são de propriedade do trabalhador direto que, desta forma, exerce um efetivo controle, não só sobre a produção, como também sobre a comercialização dos produtos. A oficina foi a unidade de produção industrial predominante na Idade Média.
Com o desenvolvimento do comércio à longa distância, especialmente a partir das Grandes Navegações e Descobertas dos séculos XV e XVI, dois novos fatos passam a ser considerados na sistemática da produção industrial:
- Em função da incorporação de novos mercados consumidores, verificou-se um substancial aumento na demanda de produtos industrializados.
- O comércio deixou de ter a dimensão local que permitia ao próprio trabalhador direto industrial realizar as operações de comercialização do produto.
Impulsionado por todas essas mudanças, verificamos que, entre o produtor e o consumidor, vai ser necessário a existência de um intermediário, ou seja, o burguês, comerciante. Muitas vezes, o burguês comerciante ganhou também o papel de empresário, ou seja, passou a fornecer a matéria-prima e, ele mesmo, chegou a ser o proprietário das instalações onde se desenvolve a produção e, por isso tudo, terá a função de realizar a comercialização do produto final. Nesta situação, o trabalhador direto, que continua dono de suas ferramentas, é contratado para a execução de certas tarefas para o burguês empresário. Este tipo de unidade de produção industrial é chamado de manufatura.
Observe-se que na manufatura existe uma primeira separação entre o trabalhador direto e a propriedade dos meios de produção, pois uma parte desses meios de produção passa a pertencer à burguesia. A forma pela qual a burguesia participa do processo de produção faz com que seja em suas mãos a verificação efetiva do chamado processo de acumulação de capitais.
Foram exatamente os capitais acumulados durante o período manufatureiro que permitiram à burguesia concentrar totalmente em suas mãos a propriedade dos meios de produção a partir da Revolução Industrial.
A fábrica é a unidade de produção industrial na qual o trabalhador direto não tem de forma alguma a propriedade de qualquer dos meios de produção. Por outras palavras, na fábrica existe uma total e efetiva separação entre o trabalhador direto e a propriedade dos meios de produção.
No sistema fabril, o trabalhador direto é dono de sua força de trabalho e por isso é obrigado a vendê-la ao proprietário dos meios de produção em troca de uma remuneração periódica chamada salário. A instalação de uma fábrica pressupõe a realização de um investimento sob a forma de instalações, máquinas, grandes quantidades de matéria-prima, contratação de mão-de-obra etc. Para a realização desse investimento, era necessária a existência de uma acumulação de capital, sendo que este fato alijava a grande maioria dos trabalhadores diretos da propriedade dos meios de produção que, por sua vez, passariam a estar concentrados nas mão da burguesia, já que esta era a detentora principal dos capitais acumulados durante a Idade Moderna.

O sistema de fábrica: uma nova forma de trabalho
A criação das máquinas em si não assustou os artesãos em vez que alguns aperfeiçoamentos poderiam ser perfeitamente absorvidos pelo sistema familiar de produção. As máquinas pequenas serviam para atualizar a produção nas oficinas e para facilitar determinadas etapas da produção. Quando se intensificou o estímulo às invenções técnicas, muitos mestres-artesãos aproveitaram para dar uma contribuição sobre seu ofício.
Ocorre que os comerciantes queriam substituir as oficinas caseiras pelos grandes galpões onde os trabalhadores tinham hora para entrar e para sair e onde tinham de trabalhar no ritmo acelerado que o patrão impunha. Uma das estratégias usadas para acabar com a produção familiar foi o estímulo à criação de máquinas de grande porte que só cabiam nos galpões das fábricas. A justificativa acerca da eficiência das grandes máquinas do século XVIII já foi devidamente superada pelos estudiosos, que provaram que o aumento de produtividade obtida pelo sistema de fábrica nos seus primeiros tempos se explica melhor pela utilização da mão-de-obra em jornadas muitos extensas de trabalho – poderiam chegar a dezoito horas por dia – do que pela eficácia das máquinas.
A máquina foi o caminho usado pelo capitalismo para reunir os trabalhadores em um mesmo lugar onde ele pudesse controlar todos os movimentos dos operários para que não houvesse desperdícios de tempo ou de mercadoria. Esse processo fatalmente significou o fim das oficinas caseiras. Além disso, a introdução do sistema de fábricas produziu novas relações sociais que passaram pela expropriação dos saberes que o trabalhador controlava no contexto da produção artesanal. O introdução da divisão do trabalho com parcelamento de tarefas limitou o saber do operário a sua tarefa desvalorizando ainda mais o seu trabalho. Por outro lado, ”(...) foi no sistema de fábrica que uma dada tecnologia pôde se impor não apenas como instrumento para incrementar a produtividade do trabalho, mas, muito principalmente, como instrumento para controlar, disciplinar e hierarquizar esse processo de trabalho.”. (Edgar Salvatore De Decca, O nascimento das fábricas).
O processo de disciplinarização do trabalho impôs aos primeiros operários fabris a noção de tempo útil e é nela que encontramos a imposição não somente de uma nova forma de organizar o trabalho como também de discipliná-lo: “Aqueles primeiros homens, que se viram constrangidos pela pregação moral do tempo útil e do trabalho edificante, sentiram em todos os momentos de sua vida cotidiana o poder destrutivo desse novo princípio normativo da sociedade. Sentiram na própria pele a transformação radical do conceito de trabalho, uma vez que essa nova positividade exigiu do homem pobre a sua submissão completa ao mando do patrão. Introjetar um relógio moral no coração de cada trabalhador foi a primeira vitória da sociedade burguesa, e a fábrica apareceu desde logo como uma realidade estarrecedora onde esse tempo útil encontrou o seu ambiente natural, sem que qualquer modificação tecnológica tivesse sido necessária. Foi através da porta da fábrica que o homem pobre, a partir do século XVIII, foi introduzido ao mundo burguês.”. (Edgar Salvatore De Decca, O nascimento das fábricas).
A idéia de tempo útil, por sua vez, levanta a questão de que além da imposição de uma nova tecnologia, a revolução industrial se fez acompanhar de todo um conjunto de idéias destinadas a inserir o trabalhador nos marcos de uma produção que interessava aos capitalistas. Essa nova forma produzir se fez acompanhar das noções de disciplina e hierarquia e, ao mesmo tempo, retirou dos operários a capacidade de avaliar o valor do seu próprio trabalho já que, na fábrica, ele foi destituído dos saberes técnicos a respeito da própria produção que estava realizando. Segundo De Decca, “Desde as origens do sistema de fábrica, estiveram em jogo, portanto, relações de poder que, passo a passo, determinaram o próprio limite da produção de saberes técnicos. Em outras palavras, a luta transcorrida desde a instalação do “putting-out system”[1] até a consolidação do sistema de fábrica não foi outra coisa a não ser a instituição do próprio social e do domínio desse social como apropriação de saberes. Se, do lado do “putting-out system”, o dispositivo do mercado fazia com que o saber técnico, detido pelos trabalhadores domésticos, representasse um momento de sua autonomia quanto ao domínio do processo de trabalho, na fábrica, a divisão social, impondo uma disciplina férrea aos trabalhadores, retirava-lhes saberes – dentre eles o técnico – e transferia-os para o mando do capitalista. A partir desse momento, o empresário pode desenvolver toda uma estratégia para que o processo tecnológico não fugisse mais de seu controle. Por isso mesmo, na ordem social, um conjunto de instituições iria aparecer para que, principalmente, pudesse ser garantida a permanência e o controle do capitalista no âmbito do domínio da técnica produtiva e, logo em seguida, transformasse todo o registro dos saberes técnicos. Isto significou, por fim, a criação de um imaginário social voltado para o reconhecimento de uma esfera determinada de produção de saberes técnicos totalmente subtraída e alheia ao controle dos trabalhadores fabris.”. (Edgar Salvatore De Decca, O nascimento das fábricas).

Uma nova sociedade
A separação do trabalhador direto da propriedade dos meios de produção fez com que duas novas classes sociais se configurassem plenamente:
I - A Burguesia Capitalista, que é a classe dos proprietários dos meios de produção.
II - O Proletariado, que é a classe que reúne os trabalhadores diretos, cuja única propriedade é a sua força de trabalho, vendida à Burguesia Capitalista em troca de um salário.
Em uma situação intermediária e transitória entre essas duas classes sociais, encontramos um grupo altamente heterogêneo, denominado Pequena Burguesia, o qual pode ser caracterizado por sua grande diversidade no que diz respeito ao nível de renda, status, condição cultural e profissional, posição ideológica dos seus membros. A grande característica da Pequena Burguesia é a heterogeneidade que a define.
O caráter dessa nova estratificação social que se configura plenamente a partir da Revolução Industrial provocará uma grande irregularidade na distribuição das rendas: o proletariado será espoliado no seu trabalho de forma crescente e intensiva, enquanto a burguesia capitalista acumulará quantidades crescentes de capital em suas mãos. Essa nova realidade social, por sua vez, propiciará o advento de novas determinações de ordem ideológica e de ordem jurídico-política.

A primeira reação contra o sistema de fábrica: os Ludditas
A entrada dos capitalistas naquele sistema em que funcionava o trabalho familiar quebrou todas as regras longamente cultivadas pelos artífices. A ampliação do mercado de consumo criou demandas inéditas para as quais a maior parte dos artesãos não estava preparada. As oficinas começavam a fechar por falta de compradores para suas mercadorias, já que o produtor individual não conseguia competir com o capitalista que contratava o serviço de dezenas de trabalhadores para fabricar os produtos que ele podia vender mais barato.
As oficinas fechavam, os artesãos ficavam sem trabalho. A opção era trabalhar como jornaleiro para o dono da fábrica. Um grupo de artesãos denominados ludditas – ou quebradores de máquinas – não aceitou essa nova condição. Como percebiam o uso que os capitalistas faziam das grandes máquinas, os ludditas invadiam as fábricas e quebravam as máquinas de grande porte, considerando-as responsáveis pelo seu desemprego e miséria.
As invasões eram decididas pelos inimigos das máquinas minutos antes de acontecer. Os participantes se encontravam nas ruas em horários avançados, quando não havia mais circulação de pessoas. Invadiam as fábricas munidos de pedras, pedaços de madeira e metal com os quais atacavam e destruíam as máquinas. Muitas vezes colocavam fogo no galpão que abrigava as máquinas.
Esse comportamento era resultado da situação de desespero que tomou conta da outrora próspera classe dos artesãos. Quando esses trabalhadores pensavam em suas vidas antes do surgimento da máquina e comparavam com o desemprego, privações e desprestígio que estavam vivendo, explodiam em violência contra o “culpado” pela situação, ou seja, contra a máquina. Pelo menos era como os ludditas viam essa questão. A máquina tirou seus empregos e diminuiu o preço das mercadorias, era, portanto, a responsável por sua desgraça.
Houve por parte do governo uma severa repressão aos quebradores de máquinas: aqueles que eram pegos atacando máquinas eram punidos com a morte. Mas, a verdadeira derrota sofrida pelos antigos artesãos foi a vitória do sistema de fábrica.

Revolução, demografia e agricultura
É preciso notar que, se a existência de mão-de-obra urbana abundante e disponível é uma pré-condição da Revolução Industrial, o próprio processo de industrialização catalisará o processo de urbanização dos Estados onde ela se verifica.
Nessa medida, um crescente índice de urbanização é um primeiro aspecto do que estamos denominando de Revolução Demográfica.
Um segundo aspecto é a verificação de uma alteração no ritmo do crescimento populacional, sendo que essa alteração é devida a uma alta nas taxas de natalidade e uma baixa nas taxas de mortalidade.
Tanto a alta da natalidade quanto a baixa da mortalidade são justificáveis a partir da ocorrência de progressos técnicos (por exemplo, na área da medicina, farmacopéias e higiene), que possibilitaram a baixa nos índices de mortalidade infantil ao mesmo tempo que se alongava o período médio da vida humana.
O crescimento populacional, especialmente o crescimento da população urbana que, apesar de consumir alimentos, não os produz, provocou um substancial aumento na demanda de produtos agrícolas. Esse aumento na demanda tornou a agricultura e a pecuária atividades econômicas mais lucrativas e, nesta medida, passou a existir um maior estímulo para a realização de investimentos no setor agrário.
É nesse contexto que as relações de produção capitalistas foram progressivamente penetrando na zona rural. Além disso, novas técnicas foram aumentando a eficiência do trabalho agrícola. Novos sistemas de drenagem e irrigação fizeram crescer as áreas de cultivo. A descoberta dos adubos químicos aumentou a produtividade do solo (até essa descoberta, a Inglaterra realizava apenas uma colheita anual de trigo; a partir dela, passou a realizar duas). Nesse primeiro momento da Revolução Industrial, não é possível falar em mecanização da agricultura, mas sim em uma progressiva penetração do capitalismo nos campos, do aumento da área de cultivo e na utilização de melhores e mais eficientes técnicas agrícolas.

A era do capitalismo liberal
Com a Revolução Industrial nasce o Capitalismo Liberal ou Capitalismo Industrial. No contexto do Capitalismo Liberal, o Estado deve desempenhar a função de instituição responsável pela preservação da paz, da ordem e da segurança. O Estado não deve ter participação ativa no processo econômico, que deve ser inteiramente deixado a cargo da iniciativa privada.
O regime de comercialização dos produtos no Capitalismo Liberal é o da livre concorrência que, segundo os ideólogos do Capitalismo Liberal, leva a uma baixa nos preços e/ou a uma melhoria nos padrões de qualidade (futuramente, teremos oportunidade de demonstrar que tal fato nem sempre é verdadeiro).
A livre concorrência deve se manifestar tanto no plano interno quanto no internacional, daí o Capitalismo Liberal ser livre- cambista, ou seja, todo e qualquer entrave ao comércio mundial de exportação e importação era criticado. Não há lugar para o protecionismo alfandegário no mundo do Capitalismo Liberal.
A posição livre-cambista é plenamente coerente com a realidade histórica do final do século XVIII e primeira metade do século XIX. Por essa época, a Inglaterra era, sozinha, a grande potência industrial do mundo. Logo, para ela, quanto maiores fossem as facilidades de comercialização internacional, melhor seria. Por outro lado, para os países não-industrializados, não havia sentido em dificultar as importações através de um protecionismo alfandegário, já que suas próprias condições estruturais os obrigavam a importar os produtos ingleses. Por sua vez, a adoção do livre-cambismo funcionava como um fator castrativo de qualquer pretensão industrialista, pois uma eventual produção nacional já nasceria tendo de concorrer com a produção inglesa, que invariavelmente possuiria melhores condições tecnológicas e, portanto, mais elasticidade de preços.
[1] Sistema de manufaturas.

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