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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ELEIÇÕES 2010

Sobre “cultura da morte”, medo e ódio

Ao iniciar a minha participação como cidadão nas eleições presidenciais que transcorrem em nosso país tinha a vã ilusão de que, finalmente, poderíamos participar de um debate pautado nos valores de civilidade que deveriam nortear um momento que penso ser fundamental para discutirmos o Brasil do Passado, do Presente e do Futuro. Contudo, as ilusões se fizeram mortas antes mesmo de terminada a campanha no primeiro turno. Como partidário da candidatura Dilma Roussef, tive o desprazer de presenciar o retorno a cena política de velhas traças mal digeridas pelo tempo que sempre procuraram desconstruir qualquer perspectiva de democracia e redução das desigualdades sociais em nosso país. Contudo, como homem, agente histórico de luta e cidadão, não poderia ficar calado diante de tantos descalabros que tenho lido, ouvido e assistido, seja na grande mídia, seja à boca miúda. O assunto que trago a baila é o oportunismo de cunho religioso que tomou conta da campanha a partir do mês final do embate de primeiro turno e que, me parece, persistirá até o termino do pleito, é sobre isso que discorrerei nos parágrafos à frente, sem me furtar a outros temas.

Males de origem

O presente conteúdo de cunho fundamentalista-religioso tem sua origem muito bem definida entre as forças políticas vivas do conservadorismo e tradicionalismo brasileiro, leia-se, no amálgama secular em que se transformou o que foi tão bem definido como elite paulistana. É justamente desse grupo político que nasce o PSDB (Responsável pelos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e pelas candidaturas de José Serra (2002), Geraldo Alckmin (2006) e novamente José Serra (2010) e seu principal aliado em todas as eleições citadas - o DEM (Democratas) – partido político herdeiro de uma tradição conservadora impecável para os padrões do inescrupuloso conservadorismo brasileiro. Não é redundância lembrar, porque “o tempo não para”, como diria o poeta, e muita gente esquece, digo eu, que o DEM tem o DNA de um velho conhecido o PFL (Partido da Frente Liberal), agremiação surgida de um “aborto” da pré-candidatura do General Mario Andreazza a sucessão do Presidente João Figueiredo (que apoiou o civil Paulo Maluf) para a disputa em que este seria derrotado no colégio eleitoral por Tancredo Neves em 1985. Nascido, portanto do útero ditatorial, o PFL esteve nos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC e só mudou a denominação quando Luis Inácio Lula da Silva assumiu a presidência em 2003, dizendo que surgia uma nova oposição (propositiva, ética e comprometida com a democracia). Como num ritual de mágica que não dá certo a atuação do DEM, assim como do PSDB, na oposição revelaram-se a mais conservadora, nefasta e oportunista tentativa de desconstrução de uma governabilidade. Uma atuação desqualificada e anti-democrática.

Pois bem, meus caros, é deles que ressurgiu a retórica católica ultra-conservadora que ora fustiga a candidatura Dilma Roussef nessas eleições presidenciais de 2010. E é bom que se diga: são os mesmos setores que levaram Getúlio Vargas ao suicídio como saída política em 1954, tentaram um golpe para impedir a posse de Juscelino em 1955, articularam um golpe para evitar a posse de João Goulart em 1961, lideraram os apoiadores civis do golpe militar de 1964, apoiaram a ditadura e seus descalabros tais como a tortura, as mortes e desaparecimento de pessoas ainda hoje encobertas pela legislação em vigor e produziram fenômenos políticos como Paulo Salim Maluf , o mesmo ficha-suja que se encontra com sua eleição “pendurada” no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

As acusações que pesam sobre o PT e a candidata Dilma Roussef

Em linhas gerais e, sob a forma covarde de boatos, católicos ultra-conservadores partidários da candidatura de José Serra realizaram o trabalho sujo de calunia, injuria e difamação contra a candidata Dilma Roussef a partir dos seguintes boatos, entre outros,

- A candidata teria afirmado supostamente que “nem Jesus impediria sua vitória nas eleições presidenciais”.

- Dilma seria favorável ao aborto e o legalizaria se eleita Presidente.

- Dilma é a favor do “assassinato de criancinhas”.

Mais recentemente, precisamente na madrugada de 12/10/2010 o Arcebispo da Paraíba, Dom Aldo Pagotto, “divulgou um vídeo no you tube onde faz duras criticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). No vídeo, o religiosos acusa a legenda de promover o aborto no Brasil e de estar contribuindo para o que chama de “cultura da morte” no país”. (Jornal O NORTE, 12/10/2010, CAD. POLÍTICA, p.03).

Em meu ponto de vista as acusações que pesam sobre a candidata Dilma nesta questão religiosa procuram esconder o real debate que poderia estar sendo feito nas eleições presidenciais 2010 que é a discussão sobre o projeto político, econômico e social que queremos para o nosso país, procurando desviar o debate para o sentimento religioso e manipular este mesmo sentimento em prol da candidatura José Serra. Nesse sentido, os marketeiros do candidato SERRA e as elites que o apóiam buscam se alicerçar na cultura do “medo antipetista”, arma que já foi utilizada em outras eleições como a do Collor em 1989 e pelo próprio SERRA em 2002 (já esqueceram da Regina Duarte na TV dizendo que tinha medo de um governo do PT ao final daquela campanha), difundindo uma arma nefasta a da CULTURA DO ÓDIO ANTIPETISTA, ao procurar jogar para a população a idéia de que o PT seria o partido do terrorismo, da violência e da morte. Nesse sentido, o pronunciamento do atual Arcebispo da Paraíba vem coroar esse processo, por que o que ele procura difundir, para isso se utilizando de sua influencia religiosa, é exatamente o ódio (sentimento aliás nada cristão) .

Contrapondo-se ao medo e ao ódio: uma reflexão sobre o nascer (professora Rosa Godoy, DH / UFPB)

No debate da TV Bandeirantes, no último 10/10/2010, José Serra utilizou em suas falas, de forma repetida, a palavra nascer para, subliminarmente, afirmar que a candidata Dilma Roussef seria favorável ao aborto e, portanto, identificá-la com a idéia de morte. Este tem sido o ponto central da histeria fundamentalista religiosa atual e sobre ele é preciso que façamos algumas reflexões:

1) Respeito todas as orientações religiosas, não me filio especificamente a nenhuma, não me acho melhor ou pior do que ninguém por isso mas, penso, que o presente debate em torno do aborto está sendo prejudicial ao país porque estão sendo esquecidos temas graves ao interesse nacional, concentrando-se tudo nesta questão;

2) Mas vou discutir um pouco está questão: nascer é o ato mais sublime da vida humana – na cultura ocidental católica e protestante, pois outras culturas acham que é o morrer, porque você se reintegraria à Grande Unidade cósmica –, porém, nascer é muito mais do que simplesmente vir ao mundo, dar à luz. A vida implica em seu início mas também em sua preservação, oferecendo condições de vida para a pessoa que nasceu;

3) Pensando nisto, é o caso de indagar se, depois de 510 anos de História do Brasil, as elites dominantes e dirigentes deste país têm assegurado a vida a quem nasce neste país. É fato que muita gente foi morta seja pela violência, seja pela miséria de modelos econômicos excludentes, que beneficiaram e beneficiam uma minoria da população e segregaram e segregam a grande massa de seus trabalhadores e desvalidos em geral;

4) Então, é o caso de perguntar: qual dos projetos de governo, em jogo nesta campanha presidencial, representa esperança para o nascimento e maior preservação da vida? Qual deles representa melhores condições de vida: habitação, saneamento, luz elétrica e seus benefícios, saúde, aquisição de bens hoje considerados essenciais (geladeira, para conservar alimentos; televisão, para garantir o direito à informação e ao lazer; máquina de lavar roupa, para poupar as donas de casa de um serviço adicional, especialmente aquelas mulheres que trabalham fora etc etc)? Ou as pessoas, sem distinção alguma, não têm direito a isto? Ou pobre tem que continuar pobre a vida inteira? Ou pobre não tem direito a educação, a fazer Universidade? NASCER, POIS, IMPLICA EM GARANTIR O DIREITO À VIDA NÃO SÓ EM SEU INÍCIO, MAS AO LONGO DA EXISTÊNCIA, AÍ INCLUÍDO MORRER DIGNAMENTE. Porque, francamente, é muita hipocrisia, muito comodismo, muito anti-cristianismo, muita anti-religiosidade, achar que basta por uma pessoa no mundo e acabou-se. Muito fácil dar de ombros e ser indiferente com as condições de vida dos nossos semelhantes. As lições do Cristo são o contrário disto;

5) O que tem sido escondido, ocultado, debaixo desta questão do aborto (uma questão importante), é coisa pesada: trata-se de escolher entre modelos de desenvolvimento para o país. De um lado, grupos sociais que têm mantido os trabalhadores, ao longo de séculos, na escravidão (a histórica, dos africanos, e a atual, dos trabalhadores espoliados), considerando-os seres humanos de segunda, terceira, quarta categorias, apesar da consciência apaziguadora destas minorias privilegiadas, fazendo um falso e mentiroso discurso (aliás, mentira é pecado!!!) de que “somos todos iguais”, para depois, na primeira oportunidade, dizer “que o povo não sabe votar”. De outro lado, temos um projeto que busca, com percursos complicados, mas busca, uma maior distribuição de renda no país (nem que seja ao preço do Bolsa-Família, mas não esqueçamos dos já constados milhões de empregos gerados nos últimos oito anos de Governo) com programas sociais, com maior acesso ao mercado de bens para segmentos mais carentes, com a ampliação do acesso à educação, e educação em nível universitário;

6) Um outro aspecto do problema é o centro da disputa eleitoral: o que fazer com os recursos do país? Especialmente, com os do Pré-Sal. Para bom entendedor: este dinheiro vai servir a que projeto de país? É este o foco;

7) Sou absolutamente consciente de que o segundo projeto tem problemas, tem pessoas que dele participam e que com ele não são coerentes. Que aí há pessoas corruptas: mas nos adeptos do primeiro projeto não há? Quem praticou e ensinou a corrupção neste país há cinco séculos? Quem instaurou, por suas práticas, uma mentalidade de favor e clientelismo? Foram os pobres ou foram as elites? Mas a diferença é que, neste segundo projeto, a corrupção foi escancarada e tem sido investigada. Antes, as Comissões Parlamentares de Inquérito eram engavetadas, como no Governo Federal entre 1995-2002, 41 engavetamentos ao todo, para que não houvesse sequer investigação. Por que será? Poderia dar muitos outros exemplos, mas para isso eu precisaria de um jornal inteiro. Aliás, muitos dias e anos de jornais;

8) Último aspecto: qual projeto tem a visão de uma elite etnocêntrica (centrada em seu próprio umbigo): São Paulo. Qual projeto não consegue ter uma visão de Brasil? Quem raciocina como se o Nordeste fosse a eterna terra dos coronéis? É certo que continuam muitos por aqui (mas também lá no Sudeste), porém, São Paulo não conhece e não quer conhecer o Brasil. A São Paulo tucana pensa que o Brazil é ele: colonizado a serviço do imperialismo, de costas para o Brasil popular que pulsa nas ruas, nas cidades e nas brenhas; e colonizador diante das demais regiões do país. Pior: tem muito coronel nordestino mancomunado com este projeto que só arrebentará o Nordeste e, mais do que isso, as populações mais pobres. É esse projeto de país em que o seu líder-candidato declara na Rede Globo (veja-se na Internet-Youtube) que a má qualidade das escolas públicas paulistas se deve aos “migrantes” nordestinos. É esse projeto que reitera a discriminação social e regional. É isso que queremos?

FINAL: sem perder a criticidade jamais, em relação a qualquer projeto de governo, de coloração que tiver, mas votarei contra os privilégios, contra a submissão dos trabalhadores do Nordeste e de todo o Brasil a uma proposta que visa manter a exclusão social, que visa manter a hegemonia de grupos do Sudeste rico (particularmente, do São Paulo rico com seus aliados ricos de todas as regiões do país) sobre o Brasil. Voto cravado em DILMA.

                                                                                                             












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