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domingo, 2 de maio de 2010

História do cotidiano: UFCG

AS FESTAS IMPERIAIS NA ROMA ANTIGA: os decennalia e os jogos seculares de Septímio Severo.


Texto de Ana Teresa Marques Gonçalves, para MNEME, Revista de humanidades



“O espetáculo é uma necessidade intrinsecamente associada ao exercício do poder: o monarca deve deslumbrar o povo (...). O cerimonial associado ao monarca tem por função tornar visível o imaginário do corpo simbólico (...). A arte clássica tem por função traduzir em imagens o corpo imaginário do rei, através das referências mitológicas das quais se nutre a monarquia. Longe de serem autônomas, as diferentes artes só encontram sua vitalidade no discurso político que as organiza” (Apostolidès, 1993:10, 15 e 70).

A realização de cerimônias públicas, de momentos festivos, é uma forma sofisticada muito antiga de comunicação com objetivo político, pois as festas ajudam a manipular a opinião pública, a persuadir através de imagens e a legitimar o mando, sendo, deste modo, um dos vários instrumentos de poder. No desenrolar das festas, divulgam-se mensagens, imagens, símbolos e mitos, que auxiliam no controle social. A linguagem festiva é, sobretudo, imagética, o que explica seu alto poder de persuasão, de busca de consentimento e de apoio ao poder, garantindo uma impressão de unidade, fundamental para a manutenção do comando. O poder utiliza meios espetaculares para marcar sua entrada na história (comemorações, festas de todo o tipo, construção e reconstrução de monumentos). As manifestações do poder não se coadunam com a simplicidade; a grandeza, a ostentação e o luxo as caracterizam. As emoções tendem a se exacerbar nos espetáculos festivos organizados pelos poderosos. As imagens utilizadas nas festas marcam a identidade dos regimes e dos espetáculos do poder, realizados com o objetivo de mostrar grandiosidade e força política. Nenhum sistema político é mudo. Um poder que não fala pelo décor, pela mise-en-scène, perderia a adesão do grupo de apoio, pois a persuasão reforça a sujeição. Portanto, as festas são signos e fazem parte de um ritual: não há sociedade sem ritual e não há ritual sem festas, pois elas ajudam a legitimar o regime (Capelato, 1998: 19-59).

O ritual pode ser entendido como um conjunto de atos formalizados, expressivos, detentores de uma dimensão simbólica. Ele é caracterizado por uma configuração espaço-temporal específica, pelo recurso a uma série de objetos, por sistemas de comportamento e de linguagem específicos e por sinais emblemáticos cujo sentido codificado constitui um dos bens comuns de um grupo. O ritual insiste na dimensão coletiva, isto é, ele faz sentido para os que o partilham. Ele tem eficácia social, pois ordena a desordem, dá sentido ao acidental, cria situações de adesão e regula conflitos. A festa é antes de tudo um ato coletivo, com um lado sagrado e outro leigo de puro divertimento, e serve ao poder, que deve afirmar-se regularmente no decurso de grandes cerimônias (Segalen, 2000:23 e 73-74). Como nos lembra J. Arce, o ritual não é a máscara do poder, mas é em si mesmo uma forma de poder (Arce apud: Teja, 1993:642). E os primeiros governantes Severos souberam perceber a importância das festas e dos rituais para a manutenção de seu poder.

No Debate de Agripa e Mecenas, descrito por Dion Cássio, Mecenas adverte o Imperador Otávio Augusto: “Decore esta capital com público descuido com relação aos custos e torne-a mais magnífica com festivais de todos os tipos” (Dion Cássio, LII, 31.1). Nesta sucinta passagem, vemos a importância das obras públicas e das festividades para a legitimação do poder do Príncipe, desde os primórdios do Principado como nova forma de governo.

As festas serviam de cenário para a apresentação das boas qualidades, da imagem idealizada do soberano. Nos momentos festivos, ele era a imagem da generosidade, ao promover distribuições de dinheiro e/ou alimentos, da força, ao ser aclamado pelas legiões e pela plebe urbana de Roma ou das cidades provinciais, do pontificato, ao realizar importantes ritos religiosos, responsáveis por garantir o apoio das divindades à continuidade do Império.

Duas grandes cerimônias públicas marcaram o governo de Septímio Severo: os Jogos Seculares, que comemoravam a Fundação de Roma, e os decennalia do Imperador, isto é, a comemoração dos dez anos de governo do Príncipe. Como fundador de uma nova dinastia, após um período de marcante guerra civil, Severo sentiu a necessidade de expor publicamente sua vitória sobre os outros concorrentes ao comando imperial e a imagem de unidade, que devia compor o cenário político romano. E a realização de festas era uma forma tradicional de demonstrar a potência, a importância e a soberania de Roma e de seus Imperadores.

Em 202 d.C., Severo abriu oficialmente em Roma as suas festas decenais. Dion Cássio nos ensina que os jubileus decenais dos Imperadores tiveram sua origem no governo de Otávio Augusto. Este Príncipe havia recebido do Senado e do povo romano a honra de ter um imperium legal por dez anos, vendo-o renovado por mais dez anos e assim sucessivamente. Cada uma destas renovações legais dava lugar à celebração de uma grande festa. A prática da renovação decenal do imperium pelo Senado foi abandonada por Tibério, mas não a festa e a comemoração de pelo menos dez anos no poder (Dion Cássio, LIII, 16.2-3). E foi assim, separada da concessão do imperium, que a festa tradicional chegou aos governos dos Severos.

Anualmente, celebrava-se em todo o Império, por intermédio de aclamações, o dia de aniversário da recepção do imperium pelo Príncipe, os chamados dies imperii. Porém, as festas denominadas de decennalia tinham outra amplitude. Davam lugar a cerimônias e jogos espetaculares e eram comemoradas com a construção de grandes obras públicas. Eram sempre realizadas em Roma com a presença do Imperador. A festa decenal era realizada ao início do décimo ano e não ao seu fim; devido a essa prática tradicional, as festividades de Septímio foram em 202 d.C. e não em 203 d.C., como afirmam alguns autores, já que recebeu o título de imperator (Lesuisse, 1961:415-428 e McFayden, 1920:60-67) e o reconhecimento do Senado pela primeira vez em 193 d.C. (Chastagnol, 1984:93).

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