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domingo, 14 de junho de 2009

As unificações italiana e alemã

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O nacionalismo e luta pela unificação Nacional: Alemanha e Itália
Com a expansão da Revolução industrial pela Europa a partir dos anos de 1830, as elites dominantes em alguns Estados da Península itálica e da Confederação germânica passaram a lutar em favor da unificação das suas respectivas regiões. Essa etapa seria decisiva na luta desses Estados para equiparar-se à França e à Inglaterra. Politicamente frágeis essas duas burguesias não se sentiram em condições de assumir a direção desse processo e, por isso, se colocaram sob a tutela de projetos monárquicos exigindo, em contrapartida que, após a concretização da unidade nacional, fosse adotado o modelo monárquico-constitucional e que o Estado fomentasse o desenvolvimento da economia nacional.

Nacionalismo: a base teórica dos processos de unificação
Para situarmos historicamente as idéias nacionalistas no século XIX adotaremos a definição explicitada por Burns em História da Civilização Ocidental (Vol.2). Para este autor, o nacionalismo é “(...) um sentimento com raízes em amplas circunstancias históricas, geográficas, lingüísticas e culturais. Ele se caracteriza pela consciência que tem um grupo de pertencer a uma tradição derivada dessas circunstancias, as quais diferem das tradições de outros grupos. A formação nacional é a realização política dos propósitos do nacionalismo, a tradução do sentimento em poder.”. (BURNS, Op.cit. p.573). Este sentimento, durante a primeira metade do século XIX, foi alvo de interpretações dispares: se para burgueses significava a ampliação de mercados nacionais, para grupos populares traduziu, em diversos países, a exemplo da Grécia, o desejo de construção de uma nação independente e democrática.
Não poderíamos deixar de referenciar também que o sentimento e as idéias nacionalistas sofreram profunda influência do romantismo do século XIX. Ambos ligavam-se pela crença de que se devia fazer o passado funcionar como um meio de compreender o presente e planejar o futuro, ou seja, articulavam-se através de uma teoria da História.
Pensadores como Johhann Von Herder (1744-1803), deixaram como legado a idéia de que a construção histórica do mundo civilizado não era produto de uma elite de letrados iluminados e sim da genuína cultura do povo comum, elemento que deveria gozar de autonomia e direito para se expressar livremente. Outro pensador que foi fundamental para a edificação das idéias que acabaram fundindo o romantismo ao nacionalismo no século XIX foi Georg Hegel (1770-1831). Professor da universidade de Berlin, Hegel teve inúmeros seguidores. Sua teoria da História advogava a idéia de que as sociedades evoluem no sentido do progresso sendo o conflito dialético das idéias o motor dessa evolução. As instituições sociais e políticas evoluíam, amadureciam, realizavam seus objetivos e davam lugar a outras. Como o padrão da mudança era dialético, haveria o choque entre o velho e o Novo destinado a produzir uma síntese. “Hegel esperava, por exemplo, que a desunião entre os Estados alemães (tese – ‘o velho’) que gerava a idéia de unificação (antítese – ‘o novo’), tivesse como resultado inevitável a criação de um Estado nacional (síntese).”. (adaptado de BURNS, Op.cit. p.576). Nessa visão, portanto, passado e presente se articulavam em uma síntese de idéias que produziria uma nova sociedade. Em resumo, é na valorização do passado que nacionalismo e romantismo se entrecruzavam para produzir uma visão de mundo que favoreceu a luta pela unidade nacional.
Finalmente, não poderíamos deixar de mencionar as contribuições de Lord Byron, talvez o mais nacionalista dentre todos os românticos: expressando os conflitos fundamentais do seu tempo, tornou-se famoso por representar as emoções e a liberdade de seu eu individual moderno em afirmações como: “ainda que tivesse que ficar só, não trocaria minha liberdade de pensar por um trono”. Esse poeta também engajou-se apaixonadamente em uma causa nacionalista coletiva: a independência da Grécia, pela qual morreu em combate e sobre a qual escreveu:
“Ilhas da Grécia ó da Grécia as ilhas
Lá onde a ardente Safo amou, escreveu,
De onde as artes da guerra e paz são filhas,
E onde delos surgiu, febo nasceu!
O eterno estio as doura sempre ainda.
Mas só o sol resta de uma glória finda.
[...]
Lá do alto as serras fitam Maratona,
E Maratona, os olhos põe na enseada.
Meu pensamento ali flutuando à tona,
Sonhava com uma Grécia libertada.
Se o túmulo dos persas eu pisava,
Havia eu de ser escravo em terra escrava”. (BYRON, GEORGE GORDON. ILHAS DA GRÉCIA).


Processos de unificação: antecdentes.
Inicialmente, nos processos revolucionários de 1830 e 1848, o Nacionalismo foi um sentimento reavivado contra as pretensões restauradoras das forças que emergiram temporariamente vitoriosas do congresso de Viena (1815). Por essa época, a bandeira do nacionalismo foi agitada em conjunto com a do voto universal masculino, por forças populares, o que explica o afastamento burguês desses movimentos e seus fracassos na Alemanha e na Itália.
Separada das tendências revolucionárias após 1850, a chamada política das nacionalidades, agora sob direção burguesa, ganhou um caráter conservador – de unidade de mercado sob direção e monopólio político burguês – iniciando a trajetória que levaria a unificação de nações como a Itália e a Alemanha. A direção desses movimentos de unificação teve como ponto de partida áreas onde a revolução industrial estava em andamento e a procura de mercados consumidores.

A unificação italiana
Napoleão Bonaparte criou diversos Estados na península Itálica: Reino da Etrúria, Reino de Itália (1805-1814) e entregou o governo do Reino de Nápoles ao seu irmão José. Durante esse período, esses territórios passaram por reformas liberais e pela extinção dos privilégios feudais e eclesiásticos.
A Itália napoleônica (1812)
Após o
Congresso de Viena, com a conferência de paz que se seguiu à derrota de Napoleão e a liquidação do sistema, a península Itálica ficou dividida e subjugada. A Áustria dominava a Lombardia e Vêneto (Venécia); os ducados de Parma e Piacenza, Módena e Toscana eram regidos pelos arquiduques austríacos; o Piemonte, que integrava o Reino de Sardenha junto com o Ducado de Sabóia e Gênova, era governado pela casa de Sabóia; o Papa governava os Estados Pontifícios, estendendo sua autoridade às províncias do Adriático, e os Bourbon voltaram ao Reino das Duas Sicílias. Em todas essas regiões, foi estabelecido o absolutismo. O único Estado que permaneceu mais ou menos liberal foi o Reino da Sardenha, na ocasião composto das atuais regiões de Piemonte e da Sardenha.
Península Itálica após o Congresso de Viena (1814-1815).
Os governantes do Antigo Regime, impostos pelo Congresso de Viena, sem apoio popular, governavam com auxílio das forças austríacas. Entretanto, as idéias nacionalistas e revolucionárias continuavam propagando-se, incentivadas pelo progresso econômico e o amadurecimento das instituições. O incremento da produção têxtil do Reino do Piemonte-Sardenha exigia um vasto mercado que somente poderia ser a Itália unificada. As
ferrovias favoreceram as comunicações e, com elas, a unidade dos diversos Estados. Outro elemento aglutinador era a língua italiana. Os italianos podiam estar separados pelas fronteiras, com monarcas estrangeiros impostos pela Santa Aliança, mas ninguém podia despojá-los do idioma de Dante, Petrarca e Boccaccio. Por outro lado, o romantismo, que se identificou na Itália com o Risorgimento letterario, adquiriu um claro poder político. Assuntos aparentemente literários ou históricos encontravam-se cheios de alusões à escravidão e a tirania. Onde não se tolerava a crítica, empregava-se a sátira.
As idéias revolucionárias também se propagaram através de sociedades secretas, como a dos carbonários. Durante o domínio napoleônico, formou-se na Itália uma resistência que contou com membros de uma organização secreta – a
Carbonária. Sendo uma sociedade mais ou menos maçônica, surgiu em Nápoles, dominada pelo general francês Joaquim Murat, cunhado de Bonaparte. Seu objetivo, como o da maçonaria em geral, era combater a intolerância religiosa, o absolutismo e defender os ideais liberais. Lutava contra os franceses porque as tropas de Napoleão haviam iniciado uma espoliação da Itália, embora defendessem os mesmos princípios de Bonaparte.
Com a expulsão dos franceses, os Carbonários queriam unificar a Itália e implantar os ideais liberais. A organização clandestina não tinha nenhuma ligação popular, pois, por razões de segurança não divulgava suas atividades. Além disso, a Itália era uma região
agrícola e extremamente católica, com camponeses analfabetos e religiosos, que tradicionalmente se identificavam com idéias e chefes conservadores. Giuseppe Mazzini (1805-1872), político genovês, entrou para a sociedade dos Carbonários em 1830. Ao ser preso em 1831 por advogar inflamadamente a rebelião, passou a criticar as sociedades secretas, seus ritos e a ineficiência militar. Afinal, elas não conseguiram realizar a unificação italiana e não tinham nenhuma representatividade popular. Da crítica às sociedades, Mazzini passou à ação. Fundou o movimento Jovem Itália, organização paramilitar que pretendia libertar as regiões italianas do domínio austríaco e unificar o país, por meio da educação do povo e da fundação de uma república democrática. Suas palavras de ordem eram: direito dos homens, progresso, igualdade jurídica e fraternidade. A sociedade organizou células revolucionárias em toda a península.
A esse movimento democrático opunham-se outras correntes que também pretendiam a unificação italiana. Eram os reformistas monarquistas, contrários à violência proposta por Mazzini e que acreditavam na realização da unidade política em torno do Reino do Piemonte-Sardenha e sob um regime monárquico constitucional.
Em 1820, revoltam-se em Nápoles dois oficiais franceses, Morelli e Silvati, com as suas divisões de cavalaria, claramente incitados pela agitação que eclodira pouco antes na Espanha (luta pela Monarquia Constitucional). A revolta começa vitoriosa, o exército agrupa-se quase completamente ao redor dos insurretos, cujo comando é assumido por Guglielmo Pepe. O rei vê-se forçado a proclamar a constituição e a formar um governo predominantemente constituído por antigos adeptos de Joaquim Murat. Os acontecimentos em Nápoles se propagam imediatamente à Sicília, onde a revolta assume um caráter autonomista. Um movimento de carbonários piemonteses exige da mesma forma a promulgação de uma constituição, concedida pelo regente do rei Carlos Félix, Carlos Alberto. Mas tanto o movimento napolitano quanto o piemontês são reprimidos. Morelli e Silvati acabam na prisão e com eles muitos outros. No Piemonte, Laneri e Grelli são condenados. E assim quase todos os que tinham se comprometido com as insurreições dos carbonários se vêem forçados a ir para o exílio.
O que caracteriza essas primeiras tentativas é o quase completo afastamento das massas populares e da burguesia. São movimentos conduzidos por oficiais e descendentes da nobreza, com ideais de liberdade, constituição e parlamento, muito distantes das preocupações da população ligada à agricultura principalmente, tais como repartição de terras e contratos de arrendamento. As insurreições seguintes, de
1830 e 1831, sobretudo nos Estados da Igreja, em Módena e em Parma, igualmente reprimidos em sangrentos combates, continuam a não mostrar modificações nesta esfera.
O movimento de unificação de Itália foi desencadeado pela
revolução de 1848-1849. Após a Revolução de Julho, na França, nacionalistas italianos começaram a apoiar Mazzini e o movimento Jovem Itália. Foram incentivados pelo liberal Carlos Alberto da Sardenha, que havia assumido o trono da Sardenha e que se tornara o governante de Piemonte em 1831. O rei Carlos Alberto adotou uma forma de governo diferente dos demais: o parlamentarismo. Seguindo, inclusive, orientações do Papa Pio IX, que abolira o absolutismo nos Estados Pontifícios, dando anistia aos condenados políticos, promulgou uma Constituição liberal (o Estatuto Fundamental). Administrador capaz reformou o sistema financeiro e reforçou o exército.
Em
1847, Camilo Benso, o Conde de Cavour, começou a editar um jornal chamado Il Risorgimento, influenciando largamente o rei, que, convicto da necessidade de expulsar os austríacos da Lombardia e de Veneza, declarou guerra à Áustria em 1848, contando unicamente com suas próprias forças. Os sardo-piemonteses tiveram que lutar sozinhos, sendo derrotados em Custozza (1848) e Novara (1849). As condições de paz eram humilhantes para serem aceitas e, acreditando que sua utilidade para o país havia terminado, Carlos Alberto abdicou em 23 de Março de 1849 em favor de seu filho Vitor Emanuel II (1849-1878) e se exilou em Portugal, vindo a morrer meses depois.
Entre
1848 e 1849, começam as tentativas de unificação do reino da Itália. Durante esse período, os revolucionários proclamam pelo menos três repúblicas, a de São Marcos, a Toscana e a República Romana. Essa última república foi proclamada quando, em 1849, Mazzini comandou uma revolução em Roma. Os revoltosos cercaram o palácio do Quirinal, onde morava o Papa Pio IX, e o ameaçaram seriamente. Para salvar-se, o Pontífice, dissimulado sob outros trajes, fugiu para Gaeta, fortaleza localizada no Reino das Duas Sicílias (24 de novembro de 1848). Em 9 de Fevereiro de 1849, uma Assembléia Constituinte em Roma proclamou a República Romana. Um dos primeiros atos da nova república foi a elaboração de uma constituição que pudesse ser utilizada por uma Itália unida. Pio IX apelou para as potências européias, pois o Congresso de Viena tinha reconhecido e confirmado as fronteiras dos Estados da Igreja. Nações católicas como a Áustria, a França e a Espanha mandaram tropas para atacar Roma e a república foi abolida em Julho de 1849. O Papa voltou à sua capital em 1850.
O movimento de Mazzini, apesar de outras tentativas de insurreição, em
1853, enfraquecia. As forças que queriam construir uma Itália mais moderna e democrática foram vencidas. Depois da onda revolucionária, os partidos mais tradicionais cresceram, promovendo posteriormente a unidade italiana, em bases não-democráticas, sob a égide do Reino da Sardenha. A derrota dos revolucionários provocou a restauração do absolutismo em quase todos os Estados italianos. O único reino que manteve uma constituição liberal foi o Piemonte-Sardenha. Quase todos os partidos empenhados na unificação depositaram aí suas esperanças.

Vitor Emanuel e Cavour
Vitor Emanuel II subiu ao trono do Reino de Sardenha com 29 anos. Destemido na guerra, embora não tão bem dotado como governante, mostrou coragem ao rejeitar as imposições da Áustria para que revogasse a Constituição de seu pai, embora esta atitude tenha lhe custado extensos territórios. Mas ao insistir em conceder anistia aos italianos que haviam se revoltado contra os austríacos, tornou-se um herói para seu povo, atraindo vários partidários de idéias unificadoras. Apesar da derrota de seu pai, seu reino crescia a cada dia em população e progresso, tornando-se o centro do movimento nacionalista.
Após a derrota frente à Áustria, em
1852, Vítor Emanuel II nomeou como Chefe de Gabinete o Conde de Cavour (1810-1861), líder do Partido Moderado e descendente de ricos latifundiários. Este político queria dar à Itália uma Constituição de tipo britânico e era partidário da unificação da Itália, acreditando que a Casa de Sabóia deveria liderar o processo. Um dos principais obstáculos à unidade italiana era a Áustria, que possuía muitos territórios no Norte da Itália. Cavour atuou em duas frentes para derrotá-la: no reaparelhamento militar e econômico do Piemonte-Sardenha e na diplomacia internacional para conquistar aliados contra aquele país.

O Conde de Cavour (1810 - 1861).
Internamente, Cavour procurou desenvolver a
indústria, o comércio, as ferrovias e o exército sardo-piemontês. Externamente, participou da Guerra da Criméia (1854-1856) contra a Rússia, ao lado da França e da Inglaterra, para obter apoio contra a Áustria. Em 1855, Napoleão III, que contrário aos tratados de Viena (1815), apoiar o Piemonte-Sardenha. Em 1856, França e Inglaterra debatiam abertamente o problema do obscurantismo predominante nos Estados Pontifícios e no Reino das Duas Sicílias, chegando à conclusão de que as duas potências tinham a responsabilidade de modificar essa situação. Cavour utiliza-se da Conferência de Paris, após a guerra, para denunciar a Áustria e despertar o interesse das nações européias para a causa italiana.
Ele e Napoleão III se reuniram secretamente em
Plombiers, no verão de 1858. No final do encontro, a França se comprometeu a apoiar o Reino Sardo-Piemontês em caso de invasão austríaca. Confiando nessa promessa, Cavour logo iniciou uma política beligerante contra os austríacos, tentando envolvê-los numa guerra contra o Piemonte-Sardenha.
As Guerras de Independência
Entre
1848 e 1866 os exércitos do Reino de Sardenha e do Império Austríaco combateram três guerras que, com êxitos alternados, levaram à libertação da maior parte do Norte da Península Itálica do domínio austríaco.
A
primeira guerra se desenvolveu em 1848-1849 e terminou com a derrota do exército sardo-piemontês. A segunda guerra se desenvolveu em 1859, quando o Reino de Sardenha se aliou à França e terminou com a derrota da Áustria e a formação do núcleo que originaria o reino de Itália. A terceira guerra ocorreu em 1866 e o Reino de Itália aliou-se à Prússia contra a Áustria. Graças à vitória do exército prussiano contra a Áustria, o reino de Itália adquiriu o controle sobre o Vêneto.

Giuseppe Garibaldi. Partidário do movimento Jovem Itália, teve de deixar o país em 1834, regressando catorze anos depois.
Os austríacos invadiram o
Piemonte, parte do Reino da Sardenha, em 1859, iniciando a Segunda Guerra de Independência Italiana que teve a França lutando ao lado da Sardenha. A partir do Sul, voluntários aderiram à guerra sob a liderança de Giuseppe Garibaldi, um dos próceres do movimento de unificação do país, chamado a intervir para conferir a este conflito um caráter mais popular. Os povos dos ducados de Módena e Parma, governados por duques ligados ao Império Austríaco, expulsaram seus governantes. A Toscânia, seguida por outros Estados, revoltou-se e juntou-se ao Reino da Sardenha.
Na frente de batalha ao norte, os austríacos sofreram retumbantes derrotas frente aos franceses e sardo-piemonteses nas batalhas de
Montebello (20 de maio de 1859), Magenta (4 de julho de 1859) e Solferino (21 de Junho de 1859). Se as hostilidades continuassem, é muito provável que os austríacos tivessem sido expulsos por completo da Península Itálica. Apesar das vitórias, o governante francês, amedrontado pela possibilidade da guerra evoluir para uma revolução, pela violenta campanha dos católicos franceses (protestando contra o ataque aos Estados da Igreja) e pela possibilidade de a Prússia entrar no conflito em apoio ao imperador Francisco José I da Áustria (a Prússia concentrou poderoso exército nas fronteiras com a França), preferiu assinar um armistício em Villafranca. Em 10 de Novembro de 1859, foi firmado o Tratado de Zurique que confirmava o controle da Áustria sobre o Vêneto, cedia a Lombardia à França e estabelecia o retorno ao trono dos soberanos de Toscana, Parma e Módena. Ainda que Napoleão III repassasse, posteriormente, a Lombardia ao Piemonte-Sardenha, as condições do armistício provocaram indignação nos patriotas. Os ducados de Toscana, Parma e Módena não reempossaram seus soberanos. Esses ducados e parte dos Estados Pontifícios (as Marcas e a Úmbria) optaram, mediante plebiscitos populares, pela união com o Piemonte-Sardenha. Napoleão III concordou, desde que a França recebesse o Ducado de Sabóia e Nice. No mesmo ano, foi feito um plebiscito nessas duas regiões, que passaram à França, praticamente por unanimidade. No transcurso da primeira metade de 1860, o Reino da Sardenha transformou-se no Reino de Itália.
Olhando com desconfiança para a política francesa na Itália, uma vez que ela visava aumentar a zona de influência de
Paris, desequilibrando as forças no continente europeu, o governo inglês preferiu apoiar a criação de um Estado unificado na Itália, impedindo que a França assumisse o papel de árbitro na política peninsular.

A conquista da Sicília
Em Abril de
1860, iniciou-se uma insurreição camponesa na Sicília, para onde se dirigiu Garibaldi. Em Maio de 1860, o lendário Giuseppe Garibaldi – líder da Sociedade Nacional, um movimento criado com o apoio do Conde de Cavour e que tinha por finalidade unificar a Itália – partiu de Gênova e desembarcou em Marsala com um exército popular de 1070 homens conhecido como os "mil de Garibaldi" ou os "mil camisas-vermelhas", porque estes voluntários usavam camisas-vermelhas.
Dentro de duas semanas, os revolucionários chegaram à cidade de
Palermo, obtendo a capitulação de um exército regular de 20.000 homens. Em Setembro, Garibaldi entrou em Nápoles, sendo logo seguido pelo exército de Vítor Emanuel II, que havia conquistado os Estados Pontifícios. Garibaldi assumiu o poder em Nápoles, com o apoio incondicional de uma parte considerável da população, com exceção dos camponeses, que não constituíam uma forte oposição aos latifundiários.
Republicano convicto, Garibaldi opunha-se à política da
Casa de Sabóia, pois ela daria ao país o regime monárquico. Apesar disso, Garibaldi voluntariamente reconheceu a autoridade de Vítor Emanuel quando esta foi exigida por Cavour e entregou o Reino das Duas Sicílias ao rei, pois preferia ver uma Itália monárquica unida a uma Itália desunida. Vítor Emanuel foi proclamado, em 17 de março de 1861, rei da Itália, cuja capital passou de Turim para Florença em 1865, já falecido Cavour. Em 1861, a comunidade internacional, com exceção da Áustria, reconheceu o nascimento do novo Estado italiano.
“Na luta pela Unificação da Itália, Giuseppe Garibaldi (1807-1882), representava os setores da população que queriam fazer da península uma República democrática. Líder dos trabalhadores da região sul, comandou a Insurreição popular que expulsou a dinastia dos Bourbon do reino das duas Sicílias em 1860. Concluída a unificação em 1870, foi eleito Deputado, mas sua sede de justiça social o levou a afastar-se da política em 1880.”. (CAPUANO, Ivonne. De sonhos e utopias... Anita e Giuseppe Garibaldi. São Paulo, Melhoramentos, 1999, p.871).

Veneza e Roma
Ainda permaneciam sem solução o
Vêneto (em poder da Áustria) e Roma (em poder do papa). Negociações diplomáticas, realizadas pelo governo italiano com a Áustria e com o Papa fracassaram.
Em
1866, a Prússia entrou em guerra com a Áustria, auxiliada pelo novo Estado italiano. Garibaldi e os seus homens sofreram muitas derrotas, mas as tropas da Prússia ditaram o resultado final deste conflito. Após a assinatura da Paz de Viena em 1868, a Áustria foi coagida a renunciar ao Vêneto e a região foi integrada ao Reino da Itália.
Em
1862, Garibaldi tentara conquistar Roma, mas fora vencido. Em 1867, tentou novamente, porém o imperador francês Napoleão III, pressionado pelos católicos de seu pais, invadiu Roma e recolocou o Papa no trono. Pela importância histórica da cidade, antiga capital do Império Romano e sede da cristandade ocidental, a Itália sem Roma era como um homem sem cabeça. Os partidários da unificação queriam transformá-la na capital do novo reino. Os obstáculos eram o Exército francês, que ocupava a cidade e o papa, que controlava as amplas massas italianas, majoritariamente católicas.
O primeiro obstáculo foi removido com a
Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Devido a essa guerra, as tropas francesas foram retiradas da "Cidade Eterna" para combater os prussianos, e os italianos invadiram a cidade, que foi ocupada pelas tropas de Vítor Emanuel em 20 de setembro de 1870, sendo transformada na capital do reino que se formava. Em 13 de Março de 1871, Vítor Emanuel ofereceu como compensação ao Papa uma indenização e o compromisso de mantê-lo como chefe do Estado do Vaticano, um bairro de Roma onde ficava a sede da Igreja.
O
Papa Pio IX, consciente de sua influência sobre os católicos italianos e desejando conservar o poder da Igreja, recusou as duas ofertas e declarou-se prisioneiro voluntário do Estado italiano. Além disso, proibiu os católicos italianos de votar nas eleições do novo reino.
Essa incômoda questão de disputas entre o Estado e a Igreja, chamada
Questão Romana, só terminou em 1929, quando o ditador fascista Benito Mussolini, necessitando de apoio da Igreja e dos católicos, assinou com o Papa Pio XI o Tratado de Latrão. Por esse tratado, firmou-se um acordo pelo qual se criava o Estado do Vaticano, o Sumo Pontífice recebia indenização monetária pelas perdas territoriais, o ensino religioso era obrigatório nas escolas italianas e se proibia a admissão em cargos públicos dos sacerdotes que abandonassem a batina.

A unificação alemã
Em meados do
século XIX, o espaço territorial germânico era constituído por diferentes reinos, ducados e cidades livres, que apenas tinham em comum a mesma língua (o alemão) e a mesma base cultural. Nele, a hegemonia política era disputada pelas suas duas principais potências: a Áustria dos Habsburgos, que dominava a Dieta (o Parlamento da Confederação Germânica) e a Prússia, governada pelos Hohenzollern. No plano econômico, o território germânico ainda vivia, em linhas gerais, numa estrutura feudal, em plena Idade Contemporânea; a exceção era a Prússia, mais industrializada, com maior poder econômico, que desde 1834 implantara o "Zollverein", uma aliança aduaneira entre os Estados da Liga Alemã.
Desde o início do
século XIX que o desejo da unidade nacional podia ser notado, principalmente nos meios acadêmicos e literários. Como exemplo, Freiherr vom Stein, na Prússia, tentou implantar um programa político inspirado nessa pretensão, porém acabou sendo afastado em 1808. Após isso a Áustria reafirmou sua influência e o nacionalismo alemão ficou inoperante até 1848, quando ocorreram diversas revoluções por toda a Europa, a chamada "Primavera dos Povos".

Revolta de 19 de Março de 1848 em Berlim.
A partir do movimento de Fevereiro de
1848, na França, que conduziu à abdicação de Luís Felipe de Orleans, nos meses seguintes, diversos Estados alemães também se revoltaram, registrando-se manifestações populares e um movimento a favor de um parlamento nacional eleito pelo povo, que elaborasse uma nova constituição para uma Alemanha unificada.
No
Império Austríaco, constituído pela Áustria e pelos reinos da Hungria, da Boêmia, Lombardo-Vêneto e da Galiza (sul da atual Polônia), registravam-se tendências separatistas entre as diversas minorias étnicas, que haviam sido arbitrariamente reunidas sob a Coroa Austríaca pelo Congresso de Viena (1815). Submetidas a um regime político absolutista, personificado pelo primeiro-ministro von Metternich, a Áustria-Hungria era uma região economicamente atrasada, onde no campo persistiam os laços de servidão, e nos centros urbanos, uma alta burguesia pouco numerosa controlava as atividades econômicas, sujeitando a pequena burguesia, os artesãos e os operários.
Em
Março de 1848, assim que as notícias do levante de Fevereiro em Paris tornaram-se conhecidas em Viena, a burguesia liberal uniu-se à pequena burguesia e ao operariado, promovendo manifestações de rua para reivindicar a ampliação do direito de voto e a destituição de Metternich. Diante da radicalização do movimento, Metternich fugiu para a Inglaterra e o imperador Fernando I outorgou uma Constituição, com a qual esperava esvaziar a revolta. Entretanto, um novo levante em Maio obrigou-o a convocar uma Assembléia Nacional, eleita por sufrágio universal masculino.
Poucos dias após a
insurreição em Viena, burgueses e operários de Berlim ergueram barricadas nas ruas, entrando em choque com as tropas do rei Frederico Guilherme IV da Prússia, que também foi obrigado a autorizar a convocação de uma Assembléia Constituinte. Ao mesmo tempo, ainda em Maio de 1848, uma Assembléia composta por deputados eleitos por todo o território germânico - o Deutscher Bund - se reuniu em Frankfurt para a elaboração da nova constituição alemã. Nela, distinguiam-se dois grupos de deputados: os Grossdeutsche e os Kleindeutsche. Os deputados do primeiro grupo defendiam uma Alemanha incluindo a Áustria, estendendo-se do mar Báltico, ao norte, até ao Adriático, ao sul. Já o segundo grupo defendia uma Alemanha sob liderança dos prussianos, excluindo assim a Áustria. A solução encontrada para o impasse foi a de um Estado governado pelos Hohenzollern. A Coroa da nova Alemanha foi oferecida ao rei da Prússia, Frederico Guilherme IV, que recusou-a e também não aceitou a Constituição de Frankfurt. Esta atitude foi repetida pelo governo da Áustria e dos outros Estados alemães. O povo alemão, embora quisesse ver a nova Constituição aprovada, não estava totalmente satisfeito com ela, pois o poder ainda continuaria na mão dos antigos líderes. Deste modo, a revolução ficou enfraquecida, a Assembléia foi dissolvida e a restauração conservadora se completou, acabando, por algum tempo, com o sonho de uma Alemanha unificada. Em Viena, constatando que não conseguia mais controlar o povo, a burguesia voltou atrás em seu apoio à revolução, optando por sujeitar-se a um governo fortemente centralizado a colocar em risco a sua posição econômica. Com a união da burguesia à aristocracia, o exército retomou a cidade, conseguindo sufocar a rebelião em Outubro. O novo primeiro-ministro, Schwarzenberg, dissolveu a Assembléia Constituinte, forçando o imperador Fernando I a abdicar em favor de seu sobrinho Francisco José, que restaurou o Absolutismo. Nas demais regiões do Império, as minorias nacionais, encorajadas pelos levantes de Viena e Berlim, mobilizaram-se pela independência. Na Boêmia (atual República Checa), em Abril de 1848, foi convocado um Parlamento independente como primeiro passo para a formação de uma Assembléia Constituinte. Na Hungria, o advogado Lajos Kossuth, líder do movimento autonomista, proclamou a República, em Abril de 1849. Mas todas essas rebeliões foram sufocadas pelo exército austríaco que, no caso da Hungria, recorreu à ajuda das tropas do czar Nicolau I da Rússia.
As
Revoluções de 1848 na região, mesmo sem sucesso, permitiram mostrar o caminho a ser seguido: um processo de unificação liderado pela Prússia, mas não pelos meios revolucionários, e sim pela Casa dos Hohenzollern.

Otto von Bismarck o "Chanceler de Ferro" (1815-1898), responsável pela unificação do território alemão.
O fracasso da
Revolução de 1848, de intuitos unificadores, implicou a continuidade da fragmentação da Alemanha. Na década de 1850, os grandes senhores da Prússia, detentores do poder político, mantinham os seus privilégios - o monarca, receando uma nova revolução, resolveu manter a Constituição onde esses privilégios eram consagrados.
A partir de
1848, o ritmo de desenvolvimento do setor industrial e das cidades foi bastante acelerado e apenas a divisão política travava o progresso do capitalismo. Tornava-se indispensável a unificação da Alemanha para prosseguir o projeto econômico germânico.
A liderança da unificação alemã ficou com a
Prússia, pois este era o Estado alemão mais industrializado e com grande importância política na Europa. Era também a maior potência militar entre os estados alemães. Seu desejo expansionista vinha de algumas décadas, de quando desejava unificar seus territórios ocidental e oriental. Para este fim havia nascido o Zollverein (1834). A criação do Zollverein proporcionou à região um grande crescimento industrial e integração dos Estados, principalmente com o desenvolvimento de uma rede ferroviária interligando as diversas regiões do território germânico;

Bismarck, Roon e Moltke.
Por volta de
1850, a Prússia já superava economicamente a Áustria, mas a liderança política veio apenas em 1862, quando começou a governar a Prússia o rei Guilherme I, um apaixonado pelas questões militares, que fez uma reforma em suas forças armadas. Convocou, para auxiliá-lo, Moltke, chefe de Estado-Maior, e Roon, como ministro da Guerra. O exército da Prússia logo se transformou no melhor da Europa.
Otto von Bismarck - que tinha ocupado, entre outros cargos, o de embaixador na Rússia e na França - foi nomeado chanceler (primeiro-ministro). Membro da aristocracia alemã e também favorável a uma monarquia centralizada, Bismarck realizou uma política de aliança dos junkers (grandes proprietários e aristocratas) com a alta burguesia, e através dela resolveu fortalecer o Zollverein, intensificando a integração dos Estados alemães além de modernizar o Exército, sendo isso de grande importância para as batalhas que aconteceriam nos anos seguintes. Utilizando-se da estratégia de exaltação do espírito nacionalista, criou uma política de guerras contra inimigos externos e contra a ocupação das regiões alemãs, o que auxiliou na expansão do território prussiano e, posteriormente, germânico. Em um período de sete anos (1864 - 1871), três guerras de destaque foram decisivas para a unificação dos Estados germânicos: A Guerra dos Ducados (1864), a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871).

A Guerra dos Ducados (1864), contra a Dinamarca
Em
1864 a Prússia juntou-se a Áustria em uma guerra contra a Dinamarca pelo domínio dos ducados de Schleswig e Holstein. O confronto ficou conhecido como Guerra dos Ducados' e ao seu final, Prússia e Áustria, vitoriosas, dividiram a administração dos ducados através da Convenção de Gastein, em 1865. A Áustria, porém, tentou implantar uma política única ao condado de Holstein, privando assim a Prússia de direitos assegurados em outros acordos. Restou a Bismarck entrar em guerra contra a Áustria em 1866.

A Guerra Austro-Prussiana (1866)
Em
1866, a Prússia, com o auxilio da Itália, também sob processo de unificação nacional, entrou em Guerra contra a Áustria. A vitória prussiana veio após a Batalha de Königgrätz, em Sadowa (03 de Julho de 1866). No dia 23 de Agosto de 1866 foi firmado o acordo de paz em Praga. Com a vitória a Prússia expulsou a Áustria da Alemanha. No ano seguinte, Bismarck dividiu a Confederação em dois grupos de Estados; a Confederação do Norte e a do Sul, tendo como limite o rio Main. A Confederação da Alemanha do Norte, logicamente, ficou sob seu controle, com os países (principados e cidades livres), luteranos, que a apoiaram na Guerra Austro-Prussiana. Os quatro Estados que formavam a Confederação do Sul, majoritariamente católicos, não conseguiram se consolidar em uma unidade. Estes Estados viriam a negociar um pacto com a Confederação da Alemanha do Norte, segundo o qual, em caso de guerra com a França, o rei da Prússia tornar-se-ia general dos exércitos germânicos. A Confederação do Norte é a antecessora do posterior Império Alemão, que precisava de muito pouco para se concretizar: a guerra contra a França.

A Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)

Napoleão III e Bismarck após a Batalha de Sedan.
Apesar de a
Áustria ter sido derrotada pela Prússia, o sul da Alemanha era constituído por democratas e aspiravam uma Alemanha liberal, se opondo à união com a Prússia de Bismarck, que era um Estado militarista. Visando eliminar este entrave à unificação do norte com o sul, Bismarck necessitava de um inimigo comum que uniria, e possibilitaria a futura unificação; e este inimigo mais adiante seria a França de Napoleão III. Desde os tempos das guerras napoleônicas (de Napoleão I, derrotado em 18 de junho de 1815), os prussianos não simpatizavam com a França, e os professores prussianos repassavam este sentimento aos seus alunos em relação à nação francesa. Daí, Bismarck afirmar que foi o mestre-escola quem ganhou a guerra franco-prussiana, logo após a derrota da França na guerra contra a Prússia.

Pretexto da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)
A
Espanha, que estava sem rei desde 1868, ofereceu através de seu parlamento a Coroa ao príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, parente afastado do rei da Prússia (também da Casa dos Hohenzollern). Tal fato era inaceitável pela Europa anti-prussiana que contava também com a França. O ministro do exército francês proferiu um discurso indignado e belicoso contra a Prússia, o que gerou sentimentos anti-franceses no sul da Alemanha. Bismarck aproveitou-se da idéia de guerra entre os dois países, pois estava interessado em territórios franceses e sabia que conseguiria apoio no sul da Alemanha, o que seria decisivo para seus planos de unificação alemã. Ele também sabia da superioridade de seu poderio militar sobre o medíocre exército francês. Todavia antes do conflito começar, Napoleão III temendo a expansão prussiana, protesta e exige do rei da Prússia a renúncia do príncipe Leopoldo, que desiste de disputar o trono espanhol. Napoleão III ainda não satisfeito, e querendo agradar à opinião pública francesa, exige novas garantias de que jamais um membro de sua família ocuparia o trono espanhol.
Apesar de Guilherme I aceitar todas as condições impostas pelo imperador francês, este último insistia que o rei deveria dar estas garantias e negociar pessoalmente ao embaixador Benedetti da França. O rei prussiano que anteriormente atendera a todas as reivindicações de
Napoleão III refutou (recusou) ter que negociar e dar novas garantias ao embaixador francês, Benedetti.
Em
Paris, a atitude do rei prussiano foi tida como uma ofensa ao orgulho nacional da França e ao povo francês - este foi o motivo da França de Napoleão III declarar guerra à Prússia.
Finalmente
França e Prússia entraram em guerra em 1870 e, logo a Prússia mostrou-se preparada o suficiente para encurralar a França em seu próprio território. Os franceses perderam em todas as frentes. O forte exército prussiano acumulava vitórias, como sucedeu na esmagadora vitória na batalha de Sedan (01 de Setembro de 1870) na qual o próprio imperador francês foi feito prisioneiro. No dia 20 desse mês, os prussianos cercavam Paris. Perante esta situação, o governo de Defesa Nacional (republicano, em funções desde 04 de Setembro, altura em que depusera Napoleão III) assinou a rendição. Na paz de Frankfurt (10 de Maio de 1871) a França, para além de pagar uma pesada indenização de 5 bilhões de francos para a Prússia, entregava o rico território da Alsácia-Lorena, de maioria germânica e rica em carvão, para o novo Império Alemão.
A vitória em
Sedan estimulou o nacionalismo no sul da Alemanha e os Estados germânicos ao sul do rio Main (Hesse, Baden, Baviera e Würtemberg) entraram na Confederação. A esses Estados, porém, foram garantidas certas autonomias, como, por exemplo, exército próprio em tempo de paz.
Com a integração desses Estados ao novo Reich (II Reich; pois o I Reich ou Sacro Império Romano-Germânico foi fundado por
Carlos Magno, rei franco, sucedido mais adiante por Oto I o Grande), completou-se a última etapa para a unificação alemã.

O progresso da Unidade alemã

Consequências da Unificação Alemã
A unificação dos Estados germânicos foi um evento que gerou inúmeras consequências, imediatas ou posteriores, em toda a
Europa e que foram responsáveis pela instabilidade no território europeu até a metade do século XX. É possível dizer que a unificação alemã foi um dos principais motivos para a eclosão da Primeira Guerra Mundial. A unificação da região de Alsácia-Lorena ao Segundo Reich Alemão gerou o revanchismo francês. Os franceses inconformados com a situação e com a humilhação provocada pelos alemães (como na coroação de Guilherme I no próprio Palácio de Versalhes, em território francês) mantiveram um sentimento de revanche que foi decisivo na política de alianças dos países europeus até quando eclodiu o conflito em 1914. Outro fator de influência para o surgimento do conflito foi a batalha dos países europeus por territórios na África e Ásia, no período conhecido como neocolonialismo. Os alemães, recém unificados, exigiam uma redivisão colonial nos continentes, o que aumentou a tensão entre as potências.

Modernização conservadora
As políticas domésticas de Bismarck foram de grande importância para a formação da cultura política autoritária do Império. O governo semi-parlamentar da Alemanha levou a efeito uma suave revolução econômica e política, de cima para baixo, que levaria o país a tornar-se a maior potência industrial do mundo à época.
Os industriais alemães começaram a ganhar fatias do mercado alemão, em detrimento dos exportadores britânicos e, por volta dos anos 1870, estes já percebiam a crescente competição da Alemanha e dos EUA nos principais segmentos nascidos da
Revolução Industrial.
Os objetivos políticos de Bismarck após a unificação podem ser resumidos da seguinte maneira:
·
Kulturkampf: após a incorporação dos estados católicos do sul e as terras anteriormente polonesas ao leste, o catolicismo, representado pelo Partido do Centro Católico, parecia ser a principal ameaça ao nacionalismo militar-aristocrático prussiano de Bismarck, pois os católicos eram vistos como devendo fidelidade ao papa, mesmo acima do Estado alemão. Os católicos do sul, provenientes de uma base agrária e das fileiras dos campesinos, artesãos, clérigos e da aristocracia dos estados menores, diferentemente dos protestantes ao norte, de início tiveram problemas para competir com eficiência frente à abertura comercial. Após 1878, a luta contra o socialismo uniria Bismarck e o Partido do Centro Católico, encerrando a Kulturkampf, que terminara por fortalecer o catolicismo na Alemanha.
· Reforma social: para conter a classe trabalhadora e enfraquecer a influência dos grupos socialistas, Bismarck concordou de maneira relutante em criar um Estado de
Previdência Social que faria os trabalhadores apoiar o nacionalismo alemão. A previdência social instituída por Bismarck era a mais avançada da época e perdura na Alemanha de hoje.
· Unificação nacional: Bismarck procurou reduzir as enormes diferenças entre os estados alemães, que haviam sido independentes por séculos, especialmente na área da legislação.
As histórias do
direito e sistemas judiciais completamente diferentes representavam um enorme obstáculo para a unidade nacional, especialmente na área do comércio. Embora um código comercial comum já houvesse sido promulgado pela Liga Alemã em 1861 (adaptado para o Império e ainda em vigor na Alemanha de hoje, com grandes modificações), em outras áreas do direito as leis eram muito diferentes.
Em 1871, promulgou-se um Código Criminal comum (Reichsstrafgesetzbuch); em
1877, leis de processo civil e criminal. Em 1873, a constituição foi emendada de modo a permitir a promulgação de um Código Civil comum que substituiria todas as leis civis em vigor nos estados. O Código Civil alemão (Bürgerliches Gesetzbuch ou BGB) entrou em vigor em 1º de janeiro de 1900, resultado de um imenso esforço de codificação que criou uma das obras legais mais impressionantes do mundo, ainda em vigor (com modificações).
Os efeitos da modernização conservadora são distintos, devido ao fato de haver procurado atender a anseios freqüentemente expressados por meio de revoluções sociais. Com o poder político permaneceu nas mãos da aristocracia, o governo procurou conservar as estruturas sociais tradicionais, tanto quanto possível, embora a base econômica dos proprietários de terras se reduzisse rapidamente frente à da
indústria. À unificação seguiu-se um longo período de governo conservador e mesmo autoritário.

Militarismo
Um dos subprodutos da modernização conservadora foi o
militarismo. Este foi utilizado para unir as classes dirigentes - tanto a aristocracia-militar como os industriais - em torno do projeto de continuar a modernização sem alterar as estruturas sócio-políticas. Cada estamento da elite encontrava vantagens na expansão ultramarina formal: os gigantescos monopólios queriam o apoio imperial para obter investimentos ultramarinos e afastar a concorrência estrangeira; os burocratas desejavam novas ocupações; os militares queriam ser promovidos; e a aristocracia tradicional, embora em declínio, desejava mais títulos formais.
Ao observar o surgimento do
sindicalismo, do socialismo e de outros movimentos de protesto no início da era da sociedade de massa na Europa e na América do Norte, a elite logrou empregar o imperialismo nacionalista para cooptar o apoio da classe trabalhadora industrial. O imperialismo propagava entre as massas virtudes neo-aristocráticas e instilava sentimentos nacionalistas. Com isto, a Prússia conseguiu criar uma máquina militar suficientemente poderosa para desafiar os rivais no continente europeu e mesmo para se fazer notar na arena internacional.
Os
advogados do imperialismo alemão argumentavam que o poder (inclusive militar) britânico conferia vantagens indevidas ao Reino Unido nos mercados internacionais, em detrimento da Alemanha. Ganhava evidência, também, o papel das colônias como mercado e fonte de matérias primas para as potências emergentes européias (como a Alemanha e a Itália). Esta associação entre tendências econômicas, de um lado, e o neocolonialismo e o militarismo, de outro, levou Bismarck, outrora relutante em envolver o seu país em aventuras ultramarinas, a reconhecer o valor político do colonialismo. As potências centrais absolutistas, lideradas por uma Alemanha que se industrializava rapidamente e cuja marinha havia dobrado de tamanho entre a Guerra franco-prussiana e a Primeira Guerra, representavam uma ameaça estratégica aos mercados e à segurança das potências aliadas e da Rússia. Os esforços coloniais da Alemanha a partir de 1884 renderam-lhe apenas um pequeno império ultramarino, comparado com os do Reino Unido e da França.
As iniciativas posteriores no campo da política externa (particularmente os planos para a construção de uma grande frota de guerra) levaram o Reino Unido a alinhar-se politicamente (a
Tríplice Entente) com uma aliança franco-russa que já se constituía no momento da queda de Bismarck.
O Império floresceu sob a condução de Bismarck até a morte do Kaiser, em março de
1888. Naquele ano, chamado Dreikaiserjahr ("Ano dos Três Imperadores"), Frederico III, filho e sucessor de Guilherme I, sobreviveu ao pai por apenas 99 dias, deixando a coroa ao jovem e arrojado Guilherme II, que forçou Bismarck a renunciar em março de 1890.

domingo, 7 de junho de 2009

SEGUNDO ANO PADRÃO

O Processo de independência das colônias hispano-americanas
A América espanhola, as vésperas da independência, compunha-se de quatro vice-reinos e de algumas capitanias-gerais. Sua população somava aproximadamente 15 milhões de habitantes. A elite local era formada por pessoas nascidas na Espanha, os Chapetones / Guachupines ou peninsulares – responsáveis por quase todos os quadros da administração colonial -, e por descendentes de espanhóis, os chamados criollos, grandes proprietários de terras e escravos. A maioria da sociedade, porém, era composta de mestiços – pessoas livres e pobres -, indígenas – um contingente de cerca de dez milhões de pessoas, duramente exploradas em todos os tipos de trabalho -, e escravos de origem africana, concentrados sobretudo nas Antilhas. A economia tinha como base a exportação de produtos agrícolas tropicais, como açúcar e fumo, e a exploração das riquezas minerais (ouro e prata). Da Europa, importava-se quase tudo, principalmente produtos manufaturados.
Na tentativa de superar o atraso, a Espanha adotou reformas de cunho iluminista, seguindo as tendências do despotismo esclarecido. Com essas reformas, pretendiam aumentar as rendas do Estado, preservar suas colônias e negociar em pé de igualdade com outras nações. Na visão dos governantes, o caminho para isso consistia em fortalecer o pacto colonial.
Na Espanha, as principais reformas de caráter iluminista ocorreram no governo de Carlos III (1759-1788), que revogou gradativamente o monopólio comercial do porto de Cádiz, autorizando outros portos a manter contato direto com a América. Contudo, as mercadorias vendidas e compradas pelas colônias deviam circular dentro dos domínios da Espanha. Ao mesmo tempo, as reformas procuraram impedir o desenvolvimento das manufaturas coloniais e combater o contrabando inglês. Essas medidas contrariam os interesses da elite colonial, os criollos (descendentes de espanhóis nascidos na América) que, posteriormente, lideraram a maioria dos movimentos emancipacionistas.
Além disso, Carlos III tomou medidas que repercutiram de maneira favorável no cenário cultural das colônias americanas, como a criação de novas universidades (Santiago do Chile, Havana e Quito), a introdução dos estudo das ciências modernas (astrologia, botânica, química e mineralogia) nas universidades já existentes e a permissão para a instalação de tipografias, o que viabilizou a publicação de jornais em vários pontos do império.
O aumento da opressão metropolitana provocou insatisfação generalizada entre diversas camadas da sociedade colonial. No final do século XVIII, essa insatisfação produziu, em algumas colônias latino-americanas, manifestações de rebeldia com um claro propósito emancipacionista. Uma delas foi a sublevação indígena de Tupac Amaru, que abalou o vice-reino do Peru em 1780. Seguindo as palavras do historiador Florival Cáceres, “No Vice-Reino do Peru, centro minerador, os indígenas eram lentamente exterminados por meio da mita. Em 1780, a revolta contra este tipo de trabalho compulsório provocou um sublevação indígena liderada pela cacique de Tupac Amaru, um mestiço descendente dos imperadores incas. Tomando varias cidades a frente de seus guerrilheiros, Tupac Amaru liquidou com os trabalhos compulsórios e com a escravidão. Traído e entregue aos espanhóis, foi supliciado até a morte. Quando o visitador espanhol lhe perguntou o nome dos cúmplices, respondeu: ‘aqui não há mais cúmplices que eu e tu; tu por opressor, e eu por libertador, merecemos a morte’.”. (Baseado em Florival Cáceres. História da América. São Paulo: Moderna, 1980, p. 82).
Embora as rebeliões do final do século XVIII tenham sido sufocadas pelas metrópoles ibéricas, as idéias de independência não desapareceram. Influenciados pela revolução americana de 1776, que mostrara ser possível a separação entre colônias e metrópoles, e pela revolução francesa, que afirmara os direitos iluministas contra a tirania dos reis, os habitantes das colônias, especialmente suas elites cultas, aderiram aos novos ideais e passaram a atacar a essência do regime colonial: o monopólio comercial.
Nos idos de 1800, a elite colonial hispano-americana eram composta por cerca de 03 milhões de criollos que controlavam a base da economia. Essa elite criolla não formava um bloco coeso, dividida que estava por interesses regionais oriundos da própria forma organizativa da dominação administrativa espanhola (que separava as suas unidades). Todavia, mesmo com sua importância econômica, os criollos eram excluídos das decisões políticas principais pois essas estavam a cargo dos Chapetones, encarregados de impor o pacto colonial e seu sistema de exploração. A participação política dos criollos estava restrita aos debates nas Câmaras Municipais, conhecidas como Cabildos.
As guerras travadas pelo Império Napoleônico alteram o equilíbrio de forças na Europa, o que se reflete nos domínios coloniais. Em junho de 1808, Napoleão Bonaparte invade a Espanha, destrona o rei Fernando VII e Impõe aos espanhóis um rei francês, seu irmão, José Napoleão (José I). Na América, os cabildos foram rapidamente transformados em juntas insurrecionais a favor dos Bourbon, à semelhança do que acontecia na Espanha. Passam a exigir ainda maior autonomia, liberdade comercial e igualdade com os espanhóis.
Com a restauração da Monarquia após a derrota de Napoleão, a Espanha passa a reprimir os movimentos emancipacionistas. Diante dessa situação, a elite criolla decide-se pela ruptura com a metrópole. Conta também com a aprovação da Inglaterra, que, interessada na liberação dos mercados latino-americanos para seus produtos industrializados, contribui militar, financeira e diplomaticamente com as jovens nações.
Para melhor compreensão, pode-se dividir a luta das colônias contra a Espanha em duas fases: a primeira, entre 1810 e 1816, e a segunda, de 1817 a 1824.
A primeira etapa das lutas pela independência foi marcada por alguns sucessos iniciais – Independencia da Paraguai (1811), da Venezuela (1811) e da Argentina (1816) – e por pesadas derrotas impostas aos colonos pelos exércitos espanhóis. Nesse período ficou clara a falta de unidade entre os diversos movimentos coloniais divididos por interesses bastante complexos. “No período compreendido entre 1810 e 1814, as tropas espanholas foram vitoriosas. Seja pelo apoio que os espanhóis receberam de elementos das camadas dominantes contrários à independência, como os realistas do Peru e do Chile, ou do alto clero; seja pela aliança que estabeleceram com as classes populares (índios e mestiços) – que tinham contradições profundas com a elite criolla -, ou com os criadores independentes, como os llaneros da Venezuela; seja pelas divergências ideológicas (republicanos versus monarquistas) como ocorreu na Argentina, o fato é que os espanhóis conseguiram derrotar os movimentos insurrecionais dessa fase, constituindo exceção o Paraguai.”. (R. Aquino e outros. História das sociedades americanas. Rio de Janeiro: Eu e Você, 1980, p. 118).
Além da falta de unidade, os rebeldes não contaram com nenhum apoio externo, especialmente da Inglaterra. Esta ultima, apesar de interessada em dominar os mercados americanos, estava às voltas com os problemas econômicos provocados pelo bloqueio continental, imposto pela França napoleônica.
A derrota de Napoleão em 1814 reconduz Fernando VII ao trono espanhol e a repressão aos movimentos emancipacionistas aumenta consideravelmente. Mesmo assim, a Argentina consegue sua independência em 1816.
A segunda etapa das lutas (1817-1824) foi um período de vitorias para os rebeldes graças a dois processos importantes: em diversas áreas as camadas populares, formadas basicamente por índios e mestiços, aderiram à luta; após 1817, a Inglaterra passou a prestar auxilio efetivo aos movimentos de libertação. Assim, os líderes criollos, como José de San Martin, Antônio José de Sucre e Simón Bolívar, puderam organizar resistência e obter sucessivas vitórias, até chegar a independência de quase toda América Hispânica.

San Martin e Simón Bolívar
Dois representantes da Aristocracia Criolla, o venezuelano Simón Bolívar e o Argentino José de San Martín, desempenharam importante papel na luta pela independência da América do Sul.
Partindo de pontos diferentes, Bolívar (do norte) e San Martín (do Sul) levaram seus exércitos até o Vice-Reino do Peru (atuais Peru, Chile e Bolívia), onde as principais forças espanholas estavam concentradas.
San Martin e seu exército dos Andes saíram da Argentina em 1817, atravessaram a cordilheira e apoiaram os chilenos liderados por Bernardo O’Higgings, na luta contra os espanhóis. A estratégia foi vitoriosa. Em 1818, o Chile proclamou sua independência, e O’Higgings assumiu o governo do país.
Do Chile, as forças de San Martín seguiram por terra e por mar para o Peru, contando com o almirante inglês Lord Cochrane no comando da marinha chilena. A cidade de Lima foi cercada e os espanhóis bateram em retirada. A independência do Peru era declarada em 1821.
Simón Bolívar, por sua vez, fazia parte da elite criolla da Venezuela e se tornou o líder de libertação da Grã - Colômbia, que reunia as terras doVice-Reino de Nova Granada e da Capitania-Geral da Venezuela. O processo de emancipação concluiu-se em 1819, depois de longa campanha militar. Apesar dos esforços de Bolívar para manter a unidade da Grã - Colômbia, ela acabou se dividindo, em pouco mais de dez anos, em quatro países: Venezuela, Equador, Colômbia e Panamá.
Os dois libertadores, como ficaram conhecidos, se reuniram em 25 de Julho de 1822, no encontro de Guayaquil (atual Equador). Porém, longe de chegarem a um acordo quanto ao futuro político das regiões que ambos ajudaram a libertar, ficou claro que havia profundas divergências entre eles.
San Martín, federalista e defensor da idéia de uma América do Sul composta de nações independentes, defendia que os novos países fossem governados por Príncipes europeus, convidados para assumir o governo. Já Bolívar esperava que os novos países se organizassem numa República, mantendo-se unidos numa grande federação sob governo único.
As diferenças levaram San Martín a se afastar do movimento libertador. Bolívar assumiu a liderança isolada dos movimentos emancipadores. Em julho de 1823, a frente de um grande exército, ocupou a cidade de Lima, ainda um forte reduto espanhol. De lá enviou tropas comandadas pelo militar venezuelano Antônio José de Sucre para derrotar os espanhóis na batalha de ayacucho (1824), no território da atual Bolívia, cuja independência foi proclamada em 1825.

A independência do México
Em toda a América hispânica há participação popular nas lutas pela independência, mas a elite criolla se mantém hegemônica. No México, no entanto, a mobilização popular adquire contornos de revolução social: a massa da população, composta de índios e mestiços, rebela-se ao mesmo tempo contra a dominação espanhola e contra os criollos. Liderados pelos padres Hidalgo e Morelos, os camponeses reivindicam o fim da escravidão, a divisão das terras e a abolição de tributos, mas são derrotados. Os criollos assumem a liderança do movimento pela independência, que se completa em 1821, quando o general Itúrbide se torna imperador do México. O movimento pela emancipação propaga-se pela América Central (que havia sido anexada por Itúrbide), resultando na formação da República Unida da América Central (1823-1838), que mais tarde dá origem a Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e El Salvador. O Panamá obtém independência em 1821 e a República Dominicana, em 1844. Cuba permanece como a última possessão espanhola no continente até a Guerra Hispano-Americana (1898-1901).

A fragmentação de um continente
Em 1826, realizou-se no Panamá um congresso convocado por Bolívar, com a finalidade de reunir as diversas repúblicas em que se tinha dividido a América espanhola numa grande federação, para fazer frente à Europa monarquista. Todos os Estado americanos foram convidados, mas poucos compareceram entre eles Grã - Colômbia, México e Peru. As diferenças entre os próprios Estados recém-constituídos, separados por interesses locais e regionais, contribuíram para o fracasso do congresso. Assim, acabou mesmo prevalecendo a formação de vários países.
Assim, ao contrário da América portuguesa, que mantém a unidade territorial após a independência, a América espanhola divide-se em várias nações, apesar de tentativas de promover a unidade, como a Grã - Colômbia, reunindo Venezuela e Colômbia, de 1821 a 1830, a República Unida da América Central e a Confederação Peru-Boliviana, entre 1835 e 1838. A fragmentação política da América hispânica pode ser explicada pelo próprio sistema colonial, uma vez que as diversas regiões do império espanhol eram isoladas entre si. Essa situação favorece também o surgimento de lideranças locais fortes, os caudilhos, dificultando a realização de um projeto de unidade colonial
Numa visão panorâmica do processo de independência dos países americanos, apenas os EUA realmente promoveram uma ruptura radical com os laços coloniais. Nos demais países a independência teve caráter político, conservando-se a estrutura colonial, ou seja, a produção agrícola tropical para exportação, baseada na grande propriedade, no trabalho escravo ou servil e na monocultura, e a importação de excedente industrial.
Do ponto de vista social, ocorreram poucas mudanças. Sem distribuição de terras nem abolição do trabalho compulsório, a situação da população pobre não melhorou. A elite criolla, de inicio tão empenhada nos movimentos libertadores, também acabou empregando os ideais iluministas somente a seu favor, evidenciando que desejava a igualdade, mas não para todos.
Ao contrário da América portuguesa, que mantém a unidade territorial após a independência, a América espanhola divide-se em várias nações, apesar de tentativas de promover a unidade, como a Grã - Colômbia, reunindo Venezuela e Colômbia, de 1821 a 1830, a República Unida da América Central e a Confederação Peru-Boliviana, entre 1835 e 1838. A fragmentação política da América hispânica pode ser explicada pelo próprio sistema colonial, uma vez que as diversas regiões do império espanhol eram isoladas entre si. Essa situação favorece também o surgimento de lideranças locais fortes, os caudilhos, dificultando a realização de um projeto de unidade colonial

América Latina no Século XIX
A análise da história da América Latina ao longo do século XIX demonstra de que forma se deu o processo de vinculação dos países latino-americanos à ordem capitalista. Como observa Frédéric Mauro, “descrever a economia do continente entre 1790 e 1870 é mostrar em que se converteu a velha economia colonial já desmantelada pelo contrabando inglês quando as instituições do pacto colonial desaparecem oficialmente e que sopram, cada dia mais forte, na Inglaterra, as máquinas a vapor da revolução industrial.” (MAURO, F. História Econômica Mundial 1790-1970. 2ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1976, p. 136.)
A velha economia colonial se converteu em uma “nova ordem colonial”. Esta nova ordem se caracterizou, até meados do século passado, pelo fim do regime de monopólios, pela entrada de manufaturas provenientes da Inglaterra e pela perda das reservas de metais preciosos. A partir da segunda metade do século, pode-se perceber a penetração imperialista através de uma outra modalidade, ou seja, a entrada maciça de capitais estrangeiros investidos em obras de infra-estrutura e empréstimos.
Em 1776, Adam Smith publicou “A Riqueza das Nações”, uma obra clássica do Liberalismo econômico. Smith defendia a idéia de que deveria existir uma divisão internacional do trabalho. As nações se especializariam, produzindo determinados produtos. Essa seria uma das premissas básicas do capitalismo no século XIX.
A Inglaterra se “especializou” na produção de artigos industrializados, seguindo a sua “vocação” no setor. Já a América Latina se “especializou” na produção de produtos primários: cereais e carne, no caso da Argentina e do Uruguai; fumo, açúcar, café e os demais produtos tropicais, produzidos pela Colômbia, Brasil, México e outros países; minérios, extraídos no Chile, Peru, Bolívia, Venezuela e México. Essa é a estrutura do novo pacto que foi imposto à América. Ela se transformou em produtora de matérias-primas e gêneros alimentícios para os centros da nova economia mundial e consumidora dos artigos produzidos pelas modernas indústrias européia e norte-americana.
O historiador Tulio Donghi nos explica o que facilitou a implantação desse novo pacto: “As novas funções da América Latina na economia mundial são facilitadas pela adoção de urna política de livre-câmbio que agora se aninha por toda parte. (...) A política de livre-câmbio acelera o processo de afirmação do novo pacto colonial e a sua popularidade se intensifica pelos novos hábitos de consumo de camadas urbanas em expansão, que fazem com que massas cada vez, mais extensas da população passem a depender das importações.” (DONGHI, T. História da América Latina. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 129.)
A ausência de tarifas protecionistas permitiu a expansão do comércio inglês e inibiu o crescimento das manufaturas. A importação em larga escala de produtos europeus gerava déficits constantes na balança comercial, que obrigava a contratação de empréstimos em Londres, principalmente. Os empréstimos eram concedidos com base na expectativa de uma futura expansão econômica dos países devedores, que logo acertariam os seus débitos. Entretanto, novos empréstimos eram solicitados para que pudessem ser pagos os juros dos antigos.
Como no período colonial, a comercialização e o transporte marítimo estavam sob a responsabilidade de estrangeiros, enquanto que as atividades primárias eram reservadas aos grupos nacionais. Ao longo do século a penetração de grupos estrangeiros foi cada vez maior e pôde ser percebida na atividade mineradora, na expansão da rede ferroviária e no setor de serviços. A herança colonial se manifestou também nas estruturas fundiária e social. O latifúndio monocultor sobreviveu às independências e continuou nas mãos de uma elite agrária, que fazia parte da nova classe dominante, juntamente com a burguesia “crioula”. Na propriedade latifundiária persistiram as relações semi-servis.
Os negros, brancos pobres, mestiços e índios receberam a herança do trabalho exaustivo, da miséria e da exploração. A escravidão negra, que durante o período colonial se concentrou nas ilhas das Antilhas, Nova Espanha e Nova Granada, áreas onde se praticava a monocultura de exportação, foi sendo abolida no continente (como exemplo pode-se citar o México, que incorporou na sua constituição a abolição da escravidão em 1828, o Uruguai, em 1842 e a Argentina, em 1853).
Os índios, maioria absoluta da população, continuaram a trabalhar no campo e na mineração, com o agravante da perda da posse da terra pelas comunidades indígenas. No México, por exemplo, segundo Stanley Stein, a legislação republicana transformou propriedades religiosas, terras públicas e comunidades indígenas em vastas extensões de terras de propriedade privada. Desta forma foi promovida a concentração da propriedade da terra através da expropriação das populações indígenas, que foram convertidas em camponeses dependentes dos latifundiários.
Devido às ligações com o capital internacional, os que mais se beneficiavam dessa estrutura econômico-social eram os grandes proprietários de terras, comerciantes e banqueiros, em virtude da acumulação de renda no setor exportador.
Outra característica marcante da América Latina no século XIX é o contraste entre a cidade e o campo. Enquanto que a primeira se modernizou devido aos investimentos estrangeiros no transporte e nos serviços, o segundo manteve a estrutura aristocrática e hierárquica baseada na posse das grandes propriedades.
A América recebeu um grande contingente de europeus que se fixaram, principalmente, nos Estados Unidos, Argentina, Brasil e Uruguai. O trabalho assalariado do imigrante no campo e na cidade promoveu o desenvolvimento do mercado interno.
A vida política da América Latina foi marcada pelo caudilhismo, fenômeno político resultante da instabilidade política e da fragmentação econômica.
Os conflitos entre as nações latino-americanas, como a Guerra do Paraguai (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e a Guerra do Pacífico (Peru, Bolívia e Chile) foram provocados por disputas territoriais e pelos interesses das potências imperialistas. Ao lado do imperialismo inglês, o imperialismo norte-americano expandiu a sua ação na América Latina através de intervenções diretas e investimentos. A guerra contra o México, que permitiu aos Estados Unidos anexarem o Texas, o Novo México e a Califórnia no final da década de 40, e a intervenção na Nicarágua em 1856 comprovam o primeiro caso. Já em relação aos investimentos, eles foram aumentando no decorrer do século.
Voltaire Schilling apresenta os seguintes dados sobre o crescimento dos Estados Unidos após a Guerra de Secessão e as inversões norte-americanas no exterior: “A posição de inferioridade em que o país se encontrava desde o fim da guerra civil de 1861-5 se alterara significativamente. A população aumentara em 97% entre 1870-1900. Os produtos agrícolas haviam duplicado e a produção mineral tomara um incremento extraordinário. A nação demonstrava que possuía riquezas superiores a qualquer outro país em separado (...). Nove décimos da produção eram consumidos internamente e os valores exportados chegavam a mais de um bilhão de dólares em 1898. Os investimentos no exterior aumentavam paralelamente a esta notável expansão, concentrando-se preferencialmente nas repúblicas latino-americanas que entre 1897 e 1914 absorviam entre 43 e 47% das inversões totais norte-americanas.”.

As revoluções EUROPÉIAS do século XIX

O liberalismo político

A nova forma de pensar que dominou a Europa no século XVIII atingiu também a política. O Racionalismo tornou sem sentido a manutenção de um Estado dominado por um rei que se dizia governante por vontade divida, e cujas ações não podiam ser questionadas. Dessa forma surgiram novas propostas de organização política.

Para o pensamento do século XVIII a sociedade deveria ser organizada para assegurar a felicidade das pessoas. A felicidade estaria assegurada por um contrato que os seres humanos teriam firmado entre si, nos primeiros tempos de existência do mundo, através do qual teriam assumido o compromisso de se unirem contra os flagelos naturais e contra seus inimigos comuns. Para haver felicidade seria preciso que as pessoas reafirmassem constantemente esse compromisso. A função do Estado seria a de garantir o cumprimento desse contrato fundamental, o que significaria garantir a felicidade geral. Assim, a existência e a manutenção do Estado e dos governantes somente se justificaria se estivessem promovendo a felicidade dos governados. Da mesma forma, os teóricos do Estado liberal defendiam a separação entre o estado e a Igreja já que a política passava a se inserir no campo do Racionalismo, enquanto a religiosidade se inseria no campo da fé.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o teórico do Estado baseado no contrato social, foi um grande defensor da educação promovida pelo governo com o fim de amenizar a corrupção que surgia da convivência social.

Immanuel Kant (1724-1804) chegou a conclusão de que a única forma de governo capaz de assegurar o império da lei, ao mesmo tempo em que garantiria a liberdade individual, era a República. Ate então, o Estado liberal tinha sido pensado como uma Monarquia; a partir das idéias de Kant ganhou força o ideal republicano.

As revoluções liberais (1820-1848)

Apesar de todos os esforços empreendidos pelas Monarquias Absolutistas para barrar o avanço do Liberalismo político e econômico, a expansão realizada pelos franceses sob o Império de Napoleão Bonaparte lançou sementes da nova ordem mundial em vários lugares da Europa. O choque entre o antigo e o novo, isto é, entre o Absolutismo / Mercantilismo e Estado burguês / Liberalismo, provocou uma onda revolucionaria que atingiu a Europa entre 1820 e 1848.

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, “Houve três ondas revolucionarias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. (...) A primeira ocorreu em 1820-24. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao Mediterrâneo, com a Espanha (1820), Nápoles (1820) e a Grécia em 1821 como seus epicentros. Fora a grega, todas essas insurreições foram sufocadas. (...) A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34, e afetou toda Europa e oeste da Rússia e o continente americano, pois a grande época das reformas do Presidente Andrew Johnson (1829-37), embora não diretamente ligadas aos levantes europeus, deve ser entendida como parte dela. Na Europa, a derrubada dos Bourbon na frança estimulou várias outras insurreições. Em 1830, a Bélgica conquistou sua independência da Holanda; em 1830-31, a Polônia foi subjugada somente após consideráveis operações militares, várias partes da Itália e da Alemanha estavam agitadas, o liberalismo prevalecia na Suíça – um país muito menos pacífico naquela época do que hoje -, enquanto se abria um período de guerras na Espanha e em Portugal. Até mesmo a Grã-Bretanha, graças em parte a erupção de seu vulcão local, a Irlanda, que garantiu a emancipação católica em 1829 e o reinicio da agitação reformista. O ato de reforma de 1832 corresponde a revolução de julho de 1830 na França e de fato tinha sido poderosamente estimulado pelas novas de Paris. Este período é provavelmente o único na História moderna em que acontecimentos políticos na Grã-Bretanha ocorreram paralelamente aos do continente europeu, a ponto de que algo semelhante a uma situação revolucionária poder-se-ia ter desenvolvido em 1831-32, não fosse a restrição dos partidos Tory (Conservador) e Whig (Liberal). É o único período do século XIX em que a analise da política britânica nesses termos não é totalmente artificial. A onda revolucionária de 1830 foi, portanto, um acontecimento muito mais sério que o de 1820. De fato, ela marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder burguês na Europa ocidental. A classe governante dos próximos cinqüenta anos seria a ‘grande burguesia’ de banqueiros, industriais e, às vezes, altos funcionários civis, aceita por uma aristocracia que se apagou ou que concordou em promover políticas primordialmente burguesas, ainda não ameaçada pelo sufrágio universal, embora molestada por agitações externas causadas por negociantes insatisfeitos ou de menor importância, pela pequena burguesia e pelos primeiros movimentos trabalhistas. Seu sistema político (...) era fundamentalmente (...) instituições liberais salvaguardadas contra a democracia por qualificações educacionais ou de propriedade para os eleitores (...). Mas, como veremos, 1830 determina uma inovação ainda mais radical na política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e independente na Grã-Bretanha e na França, e dos movimentos nacionalistas em grande número de países da Europa.

E terceira e maior das ondas revolucionárias, a de 1848, foi o produto desta crise. Quase que simultaneamente a revolução explodiu e venceu (temporariamente) na França, em toda a Itália, nos Estados alemães, na maior parte do império dos Habsburgo e na Suíça (1847). De forma menos aguda a intranqüilidade também afetou a Espanha, a Dinamarca e a Romênia; de forma esporádica a Grécia, a Irlanda e a Grã-Bretanha. Nunca houve nada tão próximo da revolução mundial com que sonhavam os insurretos do que esta conflagração espontânea e geral que conclui a era analisada neste livro. O que em 1789 fora o levante de uma só nação era agora, assim parecia, ‘a primavera dos povos’ de todo um continente.”. (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 129-130).

Desafiando o congresso de Viena

O congresso de Viena havia se caracterizado pela montagem de um reacionário sistema de alianças que tinha como objetivo principal evitar a propagação do liberalismo e garantir a permanência das dinastias e fronteiras restauradas desde 1815. Contudo, o processo de restauração foi bastante conturbado e em diversos países europeus, focos de resistência do liberalismo atacaram as posições reacionárias.

Na Espanha, desde a ocupação francesa, um grupo de resistência aos invasores elaborou, em 1812, uma Constituição que instituía a Monarquia Parlamentarista. Quando o Congresso de Viena determinou, em 1815, a restauração do trono espanhol, o Monarca Fernando VII de Bourbon reassumiu poder e comprometeu-se a obedecer a Constituição elaborada pelos rebeldes.

A promessa teve a curta vida de alguns meses ao fim dos quais o rei deu início a um a serie de medidas que restituíam os privilégios dos nobres e da realeza, redefiniam a Monarquia como absolutista e ampliavam os poderes da Igreja Católica através do Tribunal da Inquisição. Ao mesmo tempo, os líderes liberais eram presos e deportados, os jornais sofriam censura e as universidades – celeiro de idéias liberais – sofriam dura repressão

Paralelamente a esses acontecimentos em solo europeu, o governo espanhol enfrentava várias guerras de independência na América. A fim de combater os colonos insurgidos, o rei foi obrigado a deslocar grande contingente militar para o continente americano. Em 1820, um grupo de militares rebelou-se contra o rei e sua política. Recusaram-se a embarcar para América e exigiram o retorno da Constituição de 1812 e o fim do Tribunal da Santa Inquisição.

Diante da gravidade da situação, Fernando VII aceitou as exigências dos revolucionários. A Santa Aliança reagiu enviando suas tropas para combater os militares espanhóis amotinados. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica espanhola formou tropas de fiéis dispostos a combater a revolução em nome da fé católica. Os liberais foram duramente derrotados e o governo absolutista foi restaurado na Espanha. “Para resolver o problema da Espanha, os franceses enviaram um exército de 200.000 homens à península ibérica em 1823. Sem muita dificuldade, essa força acabou com os liberais espanhóis. (...) Os franceses ajudaram Fernando VII a restaurar a sua autoridade para governar como lhe aprouvesse. Ao contrário do que sucedeu na Espanha, porém, os defensores do ´status quo´ não conseguiram fazer cessar a campanha em prol da independência e do liberalismo nas colônias. Em 1824 o Presidente James Monroe, dos Estados Unidos, proclamou a ´ Doutrina Monroe ´, segundo a qual as tentativas de intervenção nos negócios do novo mundo por parte das potencias européias seriam consideradas atos inamistosos. Sem o apoio marítimo britânico, a doutrina teria permanecido letra-morta. No entanto, os ingleses estavam dispostos a reconhecer a independência das republicas sul-americanas, uma vez que, como novos países, preferiam comerciar com a Grã-Bretanha e não com a Espanha. Por conseguinte, os ingleses usaram sua marinha para impedir que a Espanha interviesse para proteger seu moribundo império.”.

Não obstante o revés sofrido na Espanha, na Grécia as forças liberais obtiveram êxito. Uma revolta iniciada por um soldado, Alexandre Ypsilanti, iniciara os combates contra os turcos, que dominavam o país até então. Embora o soldado fosse logo derrotado, seu movimento persistiu e tempos depois transformara-se em um movimento de massas em prol da independência grega. Apoiados, por motivos de estratégia mediterrânea, por uma força naval constituída de ingleses, franceses e russos, e por uma invasão terrestre dos russos sobre os Bálcãs, os rebeldes obtiveram sucesso, assinalando a extensão das transformações que a Europa vivia e prenunciando o fracasso do sistema reacionário montado em 1815. Para Eric J. Hobsbawm, “Só uma das revoluções de 1820-22 manteve-se, graças em parte ao seu sucesso em desencadear uma genuína insurreição do povo, e em parte a uma situação diplomática favorável: o levante grego de 1821. A Grécia, portanto, tornou-se a inspiração para o liberalismo internacional, e o ´filo-helenismo´, que incluía o apoio organizado aos gregos e a partida de inúmeros combatentes voluntários, desempenhou, em relação a esquerda européia de 1820, um papel análogo ao que a republica espanhola viria a desempenhar no fim da década de 1930.”. (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 134)

Liberalismos e liberalismos

Durante o período da restauração (1815-1830) o combate a um inimigo comum (a reação absolutista) contribuiu para que entre os liberais a existência de projetos políticos diferentes fosse encoberta. As diferenças entre republicanos e bonapartistas, moderados e radicais, não apareciam claramente. Ainda não haviam grupos socialistas atuando politicamente em quase toda Europa. Somente na Inglaterra, sob a alcunha do cooperativismo, liderados por Robert Owen, surgia um movimento político com um posicionamento mais independente. A oposição ao absolutismo, desta forma, estava limitada a pequenos grupos de pessoas ricas e / ou cultas que se autonomeavam lideres de um povo inerte a espera da libertação, mas que, por falta de consciência, não estava disposto a participar de sua construção inicial. Havia ainda um sentimento de união internacional. A maioria daqueles que atuavam favoravelmente aos ideais liberais estavam convictos de que enfrentavam um só inimigo – a Santa Aliança – e que, portanto, a luta se daria em um front internacional, basicamente europeu, e seria conduzida por organizações secretas dispostas a iniciar a insurreição.

De todos os grupos políticos que faziam a oposição secreta ao absolutismo, os mais conhecidos, e também os mais internacionalizados, eram aqueles chamados de carbonari ou “bons primos”. Surgidos no sul da Itália em 1806, reprimidos pelas forças bonapartistas, com quem agora se aliavam, ganharam adeptos em vários países após 1815 e atuaram com bastante força na onda revolucionária de 1820-24. Apesar de praticamente dizimados pela repressão, seu ideal vanguardista[1] permaneceu e manteve-se vivo até, pelo menos, 1848. Politicamente os carbonari eram um somatório de idéias divergentes unidas pelo ódio ao absolutismo, entre as quais figuravam desde o pensamento jacobino até as idéias moderadas da alta burguesia. A partir de 1830, todavia, esse quadro começaria a mudar radicalmente.

A Revolução na França (1830)

Com a derrota de Napoleão e a restauração da Monarquia, o clero e a nobreza passaram a reivindicar o retorno dos direitos que haviam perdido com a Revolução de 1789. Para que isso acontecesse, os camponeses deveriam voltar ao regime de servidão, ao pagamento das inúmeras taxas que permitiam a vida de luxo e ociosidade dos nobres e dos clérigos.

Luiz XVIII editou inúmeras leis nesse sentido, mas elas não eram obedecidas pela população. Seu sucessor, Carlos X, decidiu impor pela força não apenas o pagamento dos impostos, mas outras medidas que faziam a França retroceder ao Feudalismo. O rei dissolveu a Câmara, exigiu o pagamento de indenizações aos nobres que tiveram bens confiscados durante a Revolução, restringiu os direitos eleitorais e determinou uma censura severa aos jornais.

A população reagiu de forma violenta ao autoritarismo real: no dia 27 de julho de 1830, os parisienses armaram barricadas por toda a cidade e, durante três dias, Paris foi o palco de violenta luta travada entre a população francesa e as tropas reais. No dia 29, terceiro dia de luta, os soldados do rei foram derrotados e Carlos X abdicou.

“As revoluções de 1830 mudaram a situação inteiramente. Como vimos elas foram os primeiros produtos de um período geral de aguda e disseminada intranqüilidade econômica e social e de rápidas transformações. (...)Os Bourbon foram derrubados em Paris por uma típica combinação de crise do que se considerava a política da Monarquia restaurada e de intranqüilidade popular devida a depressão econômica. Cidade sempre agitada por atividade de massa, Paris em julho de 1830 mostrava as barricadas surgindo em maior numero e em mais lugares do que em qualquer época anterior e posterior. (...)O segundo resultado foi que, com o progresso do capitalismo, o ‘povo’ e os ‘trabalhadores pobres’ – os homens que construíram as barricadas – podiam ser cada vez mais identificados com o novo proletariado industrial como a ‘classe operária’. Portanto, um movimento revolucionário proletário-socialista passou a existir.” (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 135)

A alta burguesia, que não havia participado da luta, aproveitou-se da ocasião para colocar no trono Luís Felipe, um nobre da família Bourbon de Orleans, que aceitou governar obedecendo a Constituição aprovada em 14 de agosto de 1830. O novo governo foi definido como uma Monarquia liberal burguesa e o rei intitulado de rei-burguês.

A monarquia burguesa de Luís Felipe

Luis Felipe de Orleans celebrizou-se com Rei da França ao ficar conhecido como o “Rei burguês”. Contudo, sua predisposição para provocar mudanças ficara aquém das estruturas do país.

Os anos de reinado de Luis Felipe não foram marcados por reformas significativas. Em primeiro lugar, a França não estava vivendo um processo de industrialização a todo vapor como ocorria na Inglaterra e, também por isso, sua problemática social era diversa, bastando afirmar, para o entendimento do leitor, que os problemas sociais fundamentais ainda associavam-se a vida rural.

Assim, sob o comando de sucessivos governos chefiados pelo principal político da época, François Guizot, os franceses expandiram o seu sistema educacional. Uma lei datada de 1833 estipulava a criação de escolas primarias em todas as vilas e os filhos de indigentes deveriam receber educação gratuita. As cidades maiores deveriam criar escolas profissionalizantes para comercio e indústria e os Departamentos iriam fundar escolas normais. Destarte, “durante o regime de Luis Felipe pouco mais se fez de importância duradoura. Guizot tornou-se cada vez mais um apologista do ‘status quo’. Todos eram livres, argumentava ele, para ascender a alta burguesia e, assim, a uma posição de poder político e econômico. Os políticos seguiriam seu conselho, encontrando nos planos para a modernização de Paris e de expansão para o sistema ferroviário amplas oportunidades para o enriquecimento ilícito. Luis Felipe pouco fez no sentido de neutralizar a inércia e corrupção de seu regime.”. (BURNS, Op.cit. p.563).

Entrementes, grupos radicais da pequena burguesia e trabalhadores urbanos não demoraram a perceber que seus esforços, quando ergueram as barricadas de julho de 1830, foram em vão. Concentrados em Paris, constituíam-se de estudantes, escritores e lideres de trabalhadores que começaram a agir clandestinamente. Estudavam as obras de Graco Babeuf (O livro A conspiração dos iguais tornara-se sua “bíblia”) e realizavam manifestações contra o governo parlamentarista da alta burguesia. Tinham como principal líder Auguste Blanqui, socialista, orador inflamado, que através da imprensa denunciava as injustiças sociais. Nos subterrâneos, a conspiração tomava a forma de sociedades secretas que preparavam a insurreição sob a bandeira da república.

Em 1834 ocorreu a primeira escaramuça. O governo decretou ilegais as organizações políticas e, durante dois dias, em Lyon e Paris, tropas do governo e insurretos se enfrentaram. O saldo foi de 2.000 lideres republicanos presos. Em 1835 uma lei pôs sob censura a imprensa, proibindo artigos ou caricaturas que desdenhassem do Rei. As leis de censura aumentaram o descontentamento geral com o governo e empurraram parte dos moderados a para a oposição. “Em 1847, vários elementos da oposição estavam insatisfeitos o bastante para encorajar uma campanha geral de agitação por toda a França. Como as reuniões políticas estavam proibidas, realizavam banquetes políticos, contando com a participação de poetas como Alphonse de Lamartine e dos republicanos socialistas agora liderados por Luis Blanc. Pregavam uma reforma profunda, embora não uma revolução total”. (adaptado de BURNS, Op.cit. p.566).

A Revolução de 1848

Como vimos, na França surgiram dois grupos de oposição à Monarquia burguesa. O primeiro, formado por uma ala moderada da burguesia que pleiteava reformas liberais (um encaminhamento mais rápido para o processo de industrialização); o outro, um grupo republicano composto por pequenos burgueses, artesãos e operários (Aspiravam democracia e reformas sociais mais profundas). Os dois grupos estavam descontentes com a política desenvolvida por Luís Felipe.

“As revoluções de 1830 também introduziram duas outras modificações na política de esquerda. Elas separaram os moderados dos radicais (...). (...) Os liberal-moderados saíram da frente comum de oposição à restauração (ou de uma grande simpatia por ela) para assumirem o governo ou um governo em potencial. (...)Mais do que isto: após um pequeno intervalo de tolerância e zelo, os liberais tenderam a moderar o seu entusiasmo reformista e a suprimir a esquerda radical, especialmente os revolucionários da classe operária.”. (HOBSBAWN, Eric. Op. cit. p. 135-137)

O ano de 1847 foi marcado por uma séria crise econômica provocada por colheitas ruins nos dois anos anteriores. A crise econômica aumentou a pobreza e o descontentamento das camadas mais baixas da população. Os grupos de oposição ao governo aproveitaram-se do clima de revolta social para forçar reformas políticas. Através da “política dos banquetes”[2], conseguiram organizar ações contra o governo. Foi marcada uma passeata para 22 de fevereiro de 1848, com o objetivo de protestar contra a situação econômica.

O governo ameaçou reagir e a ala moderada recuou, mas a pequena burguesia e os operários não aceitaram a ameaça e, mais uma vez, Paris foi tomada pelas barricadas. No dia 24 os quartéis já tinham sido ocupados pelas tropas revolucionarias. O rei fugiu e o seu trono foi queimado pelos rebeldes no meio de uma praça em Paris. No dia 25 de fevereiro de 1848, foi proclamada a Segunda República Francesa. Restava decidir qual a classe social que ocuparia o poder.

O novo governo teve como característica principal o fato de, inicialmente, ter sido uma coalização das forças que haviam participado da oposição a Luís Felipe (Liberais moderados, republicanos radicais e bonapartistas). Entre os integrantes da ala dos republicanos radicais estavam os socialistas que, a exemplo de Luís Blanc, faziam parte da composição inicial do governo. Dentre as novas reformas adotadas figuravam a criação de oficinas nacionais (indústrias custeadas pelo Estado) para reduzir drasticamente o desemprego e a instituição do voto universal.

Porém, o que parecia uma vitória dos republicanos radicais transformou-se em derrota. A burguesia, bem organizada e detentora de maioria na composição do executivo e do parlamento tomou a frente do novo governo e, através de uma serie de manobras políticas, afastou os lideres populares do poder. Sentindo-se lesados, os membros das classes populares realizaram várias manifestações de descontentamento com os rumos que o governo republicano estava tomando. O governo burguês reagiu com violência massacrando os manifestantes. As classes populares, segundo Burns, “entre 23 e 26 de Junho defenderam-se numa batalha militar sem esperanças, contra forças armadas recrutadas, em parte, entre os provincianos dispostos a ajudar na repressão a classe operaria. Se os rebeldes de Paris estavam lutando como membros de uma classe ameaçada ou simplesmente como homens e mulheres à beira da fome é uma questão que os historiadores continuam a debater. Que eram levados a serio como uma ameaça revolucionaria pode ser percebido pela ferocidade com que foram caçados depois de cessados os combates de rua. Cerca de 3.000 foram mortos e outros 12.000 presos; na maioria, foram deportados para campos de trabalhos forçados na Argélia.”. (BURNS, Op.cit. p.567).

As forças da burguesia francesa saíram vitoriosas e, mais uma vez, o exemplo francês se ampliou para o restante da Europa: houve uma guinada à direita, um retrocesso no desenvolvimento político. Na Itália e na Alemanha, por exemplo, foram sufocados os movimentos populares que pleiteavam a construção do processo de união nacional sob a bandeira da república e da democracia. Na verdade, a burguesia européia assustou-se com a nova força política que se apresentava no cenário social – o operariado – e tratou de parar as mudanças no processo político. Manifestações dos cartistas foram severamente reprimidas na Inglaterra.

Na França o temor burguês resultou na eleição de Luis Napoleão Bonaparte, sobrinho do imperador Napoleão, para o cargo de presidente da nova República. Referindo-se a esse episodio o Historiador Burns Comenta: “Luís Napoleão havia passado a maior parte de sua vida no exílio. Voltando a França depois da revolução de 1830, foi preso alguns anos depois por tentar provocar uma rebelião nas províncias. Entretanto, em 1847, fugiu para a Inglaterra, onde reacionários britânicos e franceses lhe forneciam recursos. No verão de 1848, a situação na França era tal que ele compreendeu que podia voltar sem perigo. Efetivamente foi recebido de braços abertos por membros de todas as classes. Os conservadores buscavam um salvador que lhes protegesse as propriedades contra os ataques do radicais. Os proletários haviam-se deixado seduzir pelo ouropel dos planos de prosperidade expostos em seu livro A extinção do pauperismo e pelo fato de ele ter-se correspondido com Louis Blanc e Proudhon, o anarquista. Entre essas duas classes havia uma multidão de patriotas e entusiastas, para quem o simples nome de Napoleão era um símbolo incomparável de glória e de grandeza. Foi principalmente a essa multidão que o sobrinho do corso deveu seu extraordinário triunfo. Na expressão de um velho camponês: ‘como deixar de votar nesse homem, eu que tive o nariz gelado na Rússia?”. (BURNS, Op.cit. p.567-568).

Luis Napoleão, seguindo o exemplo do tio e a pretexto de defender os interesses dos pobres, deu um golpe de Estado em dezembro de 1851, instituindo uma ditadura. Em 1852, “com apoio de 95% do eleitorado, assumiu o titulo de Napoleão III, Imperador dos franceses.”. (BURNS, Op.cit. p.568).

Luis Napoleão, ou Napoleão III, tentou reeditar a política imperialista desenvolvida por seu tio, e acabou envolvendo a França em uma série de conflitos desastrosos. Em 1870, a derrota francesa na Guerra Fraco-Prussiana, significou a perda da Alsácia-Lorena que ficou com os alemães, e colocou fim em mais um período imperial Francês. Era proclamada a Terceira República Francesa.

A comuna de Paris (1871)

Em 1871, A França estava novamente mergulhada em uma luta interna travada por diversos grupos políticos. Nesse cenário, ocorreu a primeira experiência histórica de instalação de um governo fundamentado nas teses socialistas. Foi a Comuna de Paris.

A população parisiense, insatisfeita com o rumo da política nacional, começou a tomar conta da capital francesa em fevereiro de 1871. Em março, os parisienses proclamaram um governo autônomo na cidade, a Comuna. Inspirado nas teorias socialistas, o novo governo adotou entre outras medidas, a bandeira vermelha, um novo calendário e o principio da autonomia absoluta das comunidades.

Com a intenção de desmontar o Estado burguês, os lideres da Comuna realizaram as seguintes reformas:

· Supressão do exercito regular;

· Criação de uma força armada popular;

· Transferência para os agrupamentos comunitários da tarefa de governo;

· Criação do ensino laico, gratuito e obrigatório;

· Foram eliminadas as diferenças e os privilégios de classes;

· A renda publica passou a ser dividida através de um sistema de cooperativa.

A experiência socialista de autogestão em Paris durou apenas dois meses. Seu fracasso deu-se à razão mais óbvia possível: as forças burguesas de toda a França se uniram contra a Comuna. Em maio de 1871, as tropas relacionarias ocuparam Paris e seguiu-se uma ação repressora que assusta pelos números que apresenta: cerca de vinte mil trabalhadores foram executados; entre cinqüenta e setenta mil foram presos ou deportados para a Guiana Francesa (atual Guiana, localizada na região amazônica).

Apesar dos fracassos das atividades internas, das milhares de mortes de seus militantes e da resistência burguesa, as doutrinas socialistas já estavam inscritas na historia.



[1] - Que pressupõe a atuação da liderança como exemplo para que o povo se revolte.

[2] - Como as manifestações e reuniões políticas estavam proibidas, a oposição organizava banquetes onde discutiam o encaminhamento de seus projetos políticos, a conspiração contra a monarquia burguesa.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

OI GALERA...

Depois de uma ausência motivada pelos concursos que estou fazendo, estamos de volta. A próxima postagem contém os seguintes assuntos:
  • Processo de emancipação da América espanhola (Segundo ano do Colégio Padrão);
  • Revoluções liberais do século XIX (Segundo ano do Colégio Padrão e Turmas do Pré da mesma escola);
  • Pensamento Socialista e movimento operário no Século XIX.
Aproveitem o texto e bom estudo. Abraço,
Sérgio Cabeça.